Life knows us not and we do not know life – we don’t
know even our own thoughts.
Joseph Conrad
Menos de meia hora antes da próxima aula. E menos de meia hora antes que aquela pequena ideia sumisse com o vapor do banho, sumisse no esquecimento, provavelmente o maior arquivo do mundo. Tentava, então, manter a memória desse impulso esbarrando nos móveis e nas paredes, onde me apoiei deixando duas palmas rupestres ao lado do espelho. Tentava manter essa vontade de dizer algo, vontade genuína ao menos como impulso. E só prestei atenção no que fazia quando senti a camiseta me envolvendo num abraço de cefalópode: eu tinha, de novo, secado só a cabeça.
Reparei que as persianas continuavam abertas.
Curiosas com o cara lutando com a realidade mais banal, de camiseta e — só notei naquele momento — sem cueca, duas jovens luteranas me encaravam do outro lado da rua. Elas tinham acabado de sair da igreja, a grande casa térrea em frente, e conversavam na calçada.
Apertei o interruptor e ouvi o estalo seco da persiana se desenrolar em novos estalos vedando minha privacidade classe média.
Ao lado da janela, um passarinho grasnou macabro, como sonoplastia barata.
Foi tudo muito rápido. O quarto é sempre meio escuro, pensei. Não, elas não viram nada. Além do que, não há muito para ver. E não é nada demais se a gente entender o século em que vivemos; e todas as revoluções sexuais e as geleiras derretendo e…
Teriam me achado um parafílico exibicionista?
Senti horror ao me lembrar do antigo vizinho da minha mãe. Horror pela possibilidade de ser comparado a alguém assim. O cara me causava repulsa física e moral. Talvez tenha sido o primeiro a me causar isso. Na adolescência detestava a figura sem que tivesse visto seu rosto ou soubesse seu nome.
“Ah, ele fazia isso sempre, e ficava lá na janela, o idiota”, dizia minha mãe rindo.
Antes que a mera sugestão gerasse níveis imobilizadores de paranoia, me agarrei ao impulso anterior. Não, era bobagem, uma tremenda bobagem. Ainda desorientado, encontrei a calça e, no intervalo até me sentar para escrever, acabei não chegando a nenhuma imagem sinteticamente expressiva para o incipit.
Quando voltasse ao texto — e se voltasse — tentaria encontrá-la.
Escreveria, então, a versão incompleta, razoavelmente expressiva da frase. A versão em esboço, meio fracassada, nada semelhante “àquela” a partir da qual tudo na literatura parece, enfim, valer a pena.

Trata-se do nascimento a um só tempo gritante e sutil do sentido. Mais ou menos como descobrir que aquele parente arrogante com quem convivemos ocasionalmente por décadas é um grande tímido, mudança que ilumina a totalidade do seu ser redescrevendo cada um dos seus gestos a partir da nova aparição. É como a aparição de um fantasma de alguém da família: é da família, mas ainda assim um fantasma.
Qual seria o esboço da frase?
Para o animal reflexivo sem dinheiro, o banho é o equivalente vertical prazeroso do divã psicanalítico, confessionário uterino — molhado, aconchegante e laico — sem nenhum padre (exceto si mesmo).
É possível se livrar desse padre, claro, mas nunca completamente.
Ele fica ali, do outro lado do box, às vezes refletido no vidro, olhando sem ironia, complacente. É como se soubesse que, em algum momento, será de novo requisitado para cumprir suas funções: o apaziguamento da culpa; a libertação provisória do animalzinho que sofre ensaboado.
Ao contrário do que se pensa, o padre não é um juiz antipático. Ele não está ali para te condenar. Tudo o que ele mais deseja é o contrário disso: ele deseja te absolver, isto é, te julgar para sempre — e, para isso, basta que ele te absorva também para sempre.
É como se ele existisse apenas para dizer que você não está no controle, nunca esteve, e que por isso você não sabe ao certo o que fazer ou não faz aquilo que faz por mal. O que significa dizer, claro, que você faz as coisas fazendo, apenas fazendo. Ainda assim, você se arrepende e sofre quando, de um dia para o outro, se depara consigo mesmo. Se arrepende e sofre sem nem ao menos ser inteligente para se reconhecer naquilo que vê. Você acredita que o cara no espelho, aquele te olhando bobamente, é apenas uma versão deturpada sua, e que a sua versão deturpada impede de vê-lo (te ver) como de fato é — chimpanzés se reconhecem de imediato no espelho, e sem nenhum drama.
Em outros termos, você não é competente o bastante para ser culpado.
No banho, porém, eu não pensava em nada disso. Livre no confessionário do box, minha mente relaxava invadida pela sensação de desprendimento vaporoso. Parei os antidepressivos há uma semana e me sinto assim: às vezes leve; às vezes entregue a um detalhe antes imperceptível; às vezes despencando numa vertigem de raiva silenciosa em narinas dilatadas e pressão insuportável no maxilar — é como se o mundo me devesse algo; como se fosse cair de joelhos e gritar; e mesmo sabendo da mentira, a sensação continua a mesma.
A sensação de que sou obrigado a todos esses truques civilizacionais. Obrigado a todas essas engenharias castrativas da boa educação. Esses “olás” e “bons-dias” e “boas-tardes” de elevador e “me desculpes” de supermercado. Tudo e todos me envolvendo num ecumênico culto à polidez coletiva enquanto levanto, assustado, os cotovelos da mesa. É o contratualismo intimamente domesticador prestes a se rasgar como papel. Ainda assim, a eficácia continuainquestionável, ainda mais inquestionável quando o cara que acabei de cortar numa fila é duas vezes maior que eu.
De novo aquele passarinho agourento roncou por perto. Então me levantei assustado e fui até a janela, desta vez a do escritório. A camiseta não estava secando. Contei os minutos para a próxima aula.
Sentadas na calçada com as costas nas grades, as jovens continuavam conversando e rindo.
Na verdade, nunca vi nenhum deles sozinho. Estão sempre em grupo, em trios ou duplas, pensei. Sempre unidos sob o horizonte de sentido, a promessa da comunidade por vir. Testam por aqui aspectos da versão futura, como num simulador. De vez em quando crianças correm no jardim vigiadas por adolescentes ou jovens. Às vezes fazem churrasco. Pelo que percebi, a igreja começou a funcionar há seis meses. O brechó aos sábados faz sucesso com universitários do bairro; sucesso até com os moradores do prédio, os vizinhos em geral. Às terças, jovens, ou jovens músicos, se reúnem para tocar. Mal se ouve tanto a música quanto os encontros. O único barulho se deu durante a pequena obra antes da inauguração. Assim que o dono da casa morreu, um senhor acamado com filhas mais velhas, pedreiros vieram derrubar as paredes internas, arrancar portas.
Já no próximo fim de semana recebiam migalhas do futuro céu ao cantarem fervorosos.
Apontando na direção da janela, as jovens começaram a rir olhando para cá ou olhando — tentei me convencer — alguma outra sacada ao lado ou acima ou abaixo.
Senti meu rosto queimar.
A segunda parou de rir e ficou séria, como alguém se lembrando no meio de uma gargalhada de que está ainda no enterro da avó, e começou algo parecido com um discurso, balançando o indicador e apontando para o prédio, apontando para mim. Ela se levantou e foi em direção a um homem alto de blazer bordô. Ele abria a porta da igreja para outras mulheres e homens entrarem.
Fechei a persiana do escritório e senti a pressão cair. A realidade se soltava um pouco da estrutura formal que a mantém em pé, como fotos na parede despencando durante um tremor de terra.
Era efeito do medicamento, apenas isso. Efeito desse desregramento todo no campo eletroquímico do meu cérebro. A abstinência emoldurada em paranoia ou o magnetismo concêntrico do medo.
Qual era a ideia que me veio no banho?
Nada se comporta na realidade sem equivalente literário, tinha pensado enquanto tentava descrever — ao menos mentalmente — o formigamento no meu pé esquerdo. O formigamento é o sintoma mais comum da crise lombar por vir, mas percebi, meio entorpecido pelo chiado da água caindo na nuca, que a dor aparecia sob um ângulo literário: a própria dor se comportando segundo o enquadramento ficcional.

A existência vale tanto quanto sua possibilidade descritiva. As bordas da imagem tornando a existência mais ou menos emocionante, pensei. A descrição me convence da realidade ao me tocar ainda que de modo frio e meramente factual — a literatura inteira, e talvez do início ao fim, comecei a pensar ainda sob o efeito sonolento do vapor morno, poderia ser lida como uma forma de autoconvencimento à la Quixote: estou mesmo vivo e vou te provar encarnando o artifício dos meus sonhos, monologando em detalhes o que deveria se passar comigo, ainda que numa realidade atual inexistente.
Descrevendo a dor para mim, que assumia a condição siamesa de escritor e leitor, fui percebendo o limite que a dor impunha, a impossibilidade de adjetivá-la: sua simplicidade de substantivo para sempre presente. Mas não era apenas uma guinada realista, ingênua, como se contrapusesse de novo a linguagem ao real. O que estava em questão era a recusa do literário sobretudo na literatura para atingir essa pura presença, essa pura realidade. Mas de que modo dar uma volta completa sem cair em outro artifício, aquele da ausência do literário? A escrita pretensamente neutra não é tanto ou mais retórica por esconder seus artifícios sob a máscara do rosto próprio?
De novo o passarinho gritou, berros curtos, roucos, e eu vi que tinha quinze minutos antes da próxima aula.
Não tive coragem de olhar pela janela. Talvez as meninas estivessem lá. Talvez o cara e as meninas batessem no apartamento a qualquer momento…
Não começou, claro, no banho, pensei. Tentei então resgatar as origens, o fóssil da ideia — chamo de ideia, mas a esta altura já ficou claro que se trata de outra coisa muito menos venerável, platônica: um tipo de comichão abstrato. Na verdade nem era minha, acabei me lembrando. Começou com a fala de um amigo, a fala crítica dele contra textos considerados literários demais, parte da ampla convenção que excluía a vida.
A gente estava num bar do centro, rodeado por samba e fumaças diversas. Ele andava de lá para cá no seu habitat, já que frequenta bares de quinta a domingo, conversando com algumas pessoas. Sentamos e, depois de shots de uma cachaça artesanal de jambu, ele começou a falar de literatura. Falou e, aos poucos, foi confessando, como se eu fosse julgá-lo ou algo assim, que gostava de textos literários, ao menos os contemporâneos, que não soavam literários; que na verdade não se pareciam em nada com literatura.
Entendi, ou acreditei entender, apenas uma semana depois, durante o banho. No entanto, o risco de refletir demais no banho é tanto ambiental — já que cada devaneio bebe dezenas ou centenas de litros de água — quanto higiênico: nunca sei se é a terceira ou a quarta vez que passo shampoo e em qual parte exata ácaros e bactérias foram ou não dizimados às centenas de milhares no campo de batalha interespécie que se tornou o meu corpo, um corpo moderno como qualquer outro.
“Acho que o texto precisa parecer como se não fosse escrito”, ele disse, me vendo apenas na periferia da sua visão enquanto lançava um daqueles olhares arrastados para a rua, sempre à procura de algo.
Ao vê-lo trazendo mais duas pilsens em copos de plástico, pensei que ele dava a impressão de ser alguém muito triste, mas alguém que extrai dessa tristeza uma condição avessa à melancolia. Ama não um objeto perdido ou a perda mesma, mas seu infinito, a totalidade da vida se esvanecendo naquela moça de shorts jeans e salto que vai passando, sorrindo para ele e sumindo, sumindo num mundo outro logo ali, porém único demais, exclusivo demais.
Perguntei se tinha a ver com uma maior oralidade nos textos, um pouco como nossos modernistas.
“Oralidade?”, ele me olhou meio decepcionado por falar com alguém tão esquemático, “pensei em outra coisa, naqueles textos em que a vida aparece sem firulas, tão nua quanto possível; uma vida feita de vida e só”, ele disse, tomando fôlego e bebendo o que restava no copo, a cerveja aguada agora perigosamente próxima da morte térmica.
O passarinho cacarejou, um tipo de vagido urgente, melancólico, rítmico como um galo techno.
Faltavam dez minutos para a aula e eu ainda não tinha conseguido o fio.
No banho a dor apareceu para mim descrita segundo o modo da sua aparição, a tela específica que emoldurava meu olhar, conduzia minha reação. Para cada pequeno gesto existia uma gaiola formal correspondente, uma gaiola com a etiqueta adequada, eternização do que sumia e sumia de novo a cada momento sem cessar — ou até que cessasse para sempre. Essas gaiolas tinham serventia porque me permitiam expressar a continuidade de uma desaparição, todo um ciclo real ou inventado do que não existia, não mais.
Senti de novo a agulhada na lombar, a disseminação prazerosa na perna esquerda, que adormeceu apenas um pouco, sensação limítrofe que me deixava na antessala do desespero, como um bêbado que toma o penúltimo copo.
Mas quem disse que essa forma padrão, essa gaiola padrão, é a melhor? Mais: quem disse que essa forma padrão tem alguma coisa a ver com aquilo que se perde, aquilo que vaza por entre as grades? Pior: talvez esse “aquilo” jamais tenha estado atrás das grades…
“Não sei se consigo me explicar, mas é como no Run Lola Run. Cada encontro modifica um futuro inteiro. Cada trama revela uma outra trama. Mas no caso dos textos, desses textos que estou falando, os verdadeiros textos literários, é o contrário. É mais ou menos como em Conrad. O contrário de Lola, que pode voltar, que pode refazer os passos, correndo contra o tempo para o namorado não morrer, para que ela mesma não morra.”
Não entendi a relação; melhor, o salto de Lola a Joseph Conrad, que nunca me pareceram compatíveis ou relacionáveis em nenhum nível não humorístico.
Continuei olhando para o copo travando uma luta entre pedir ou não um cigarro para ele, e já tinha me esquecido do assunto quando ele continuou:
“Lola refaz, é igual a esses textos literários em que tudo pode acontecer, tudo pode acontecer de todos os modos possíveis. Conrad não. Em Conrad nem tudo pode acontecer porque aquilo que acontece é sempre único mesmo que pudesse ter sido de outro jeito. A gente nunca se pergunta, nunca se questiona por que foi por esse caminho e não por outro. Ele fala isso em carta. Fala isso para um amigo dele. Para mim, a literatura de verdade é como se não tivesse sido nem construída, é inevitável.”
Enquanto ele desenvolvia a ideia do texto literário não-literário, pensei que ele era inteligente demais para se contentar com uma só vida. Ele contrai muitas vidas. Todas potenciais. Todas girando como promessas nas rodas de samba, belas e simultaneamente inalcançáveis. No entanto, ele está vacinado, imune exceto por um toque à distância, participação inconclusa na continuidade do destino, na desaparição renovada a cada novo fim de semana, pensei.
Três minutos para aula, e eu tinha conseguido menos que coisa nenhuma, um amontoado tão distante da ideia quanto no início.
Se não tivesse começado, se não tivesse insistido, ainda teria aquele gostinho agradável, o do não-realizado, um gostinho inevitável de talvez…
Criei a sala no aplicativo e entrei.
E se as meninas ainda estivessem ali? E se aquele senhor respeitável de sapatos me procurasse ou procurasse alguém do prédio ou falasse com o porteiro e…
Tentei me concentrar nos livros, a estante atrás, típica da profissão, e tentei procurar no meu rosto projetado na tela do notebook algo que me indicasse o caminho. Procurava algo que me desse um vislumbre desse professor que eu tentava ser. Nem que fosse o contorno da aparência que devolveria ao rosto, pela mera separação do espaço, o seu aspecto único, autêntico.
Dois minutos depois do horário, abri o aplicativo de mensagens e vi que o aluno tinha me escrito algo:
“Não poderei hoje. Na semana que vem também não. Grato.”
Lembrei da fatura do cartão e senti tontura.

Os alunos iam e vinham, mas nos últimos tempos iam bem mais do que vinham.
Uma nova onda de irritação subiu, uma onda avassaladora contra um genérico tudo, tudo que se encontra assim e não de outro modo, todas essas coisas, as coisas todas e essas pessoas todas.
Fechei o notebook, me levantei e saí andando pelo apartamento às escuras. Priscila estava na musculação e demoraria para voltar. Tentei ler um pouco, esquecer o cancelamento da aula, o futuro nebuloso sem aulas, mas não consegui me concentrar.
Sentindo um desconforto no peito, resolvi sair um pouco, dar uma volta. Bati a porta do apartamento e pedi o elevador, mas desci pelas escadas para evitar algum vizinho.
Antes de chegar à rua, ouvi o eco triste do passarinho.
Fazia frio e notei que o inverno tinha começado de verdade na Ilha. A camiseta não tinha secado totalmente. Deveria ter pegado ao menos uma blusa, trocado de camiseta, pensei. Pelo olhar periférico, enquanto andava, vi que algumas pessoas saíam da igreja.
Algumas pessoas conversavam ali na frente. E o senhor, aquele das meninas, aquele que ouviu a história delasprovavelmente sem questionar, parecia atravessar a rua vindo em minha direção.
Acelerei o passo.
Ele parecia alto, ou mais alto do que eu imaginava, ou era sua sombra se alongando em direção à esquina.
Ele acelerou o passo.
Atravessei a faixa de pedestres. Se chegasse ao supermercado estaria salvo. Também poderia despistá-lo numa rua escura em direção à universidade ou, ainda, próximo ao hospital. Ao olhar para trás, porém, vi que ele continuava atrás de mim.
O que ele queria comigo? Tirar satisfação? Mesmo que eu fugisse de carro ou de ônibus parecia inevitável que ele, em algum momento, me alcançasse. A ausência de antidepressivos me tornava de novo membro da seita fatalista. De novo a injustiça. De novo a injustiça total caindo sobre mim.
Próximo ao supermercado, a um quarteirão de distância, vi que ele continuava perto de mim, caminhando rápido, e senti de novo a onda de raiva crescendo, me cegando.
Ele chegou a abanar e disse “ei, pera aí!”…
Ao ouvir esse “ei” totalmente invasivo, parei no meio da calçada e quase derrubei o pedreiro que vinha logo atrás de mim, o pedreiro que tinha saído há pouco da reforma na casa da esquina carregando uma shoulder bag, sujo e ensimesmado.
Ele murmurou algo e continuou.
Outros pedreiros saíam da construção, conversando, seguindo a pé ou acelerando motos.
Atrás do pedreiro, o cara reapareceu, e eu senti o maxilar tensionado, as narinas dilatadas.
“Você…”, ele me disse conforme o encarei.
Se precisar, estou pronto, pensei, embora não fizesse a menor ideia do que significava esse estar pronto e para quê.
“Você mora naquele prédio, né?”, ele começou a dizer.
Ele era mesmo alto, cinquenta anos, bonito no blazer em veludo cotelê. Faltava um cachimbo no canto da boca para que fosse um desses pais de filmes dos anos 80 ou um psicanalista.
O que eu poderia fazer exceto confirmar?
Esticou o braço e me cumprimentou. Mãos grandes. O toque foi tranquilo no início, mas em seguida duro, com um apertão masculino demais.
“Então”, ele disse, arfando, “as meninas me falaram”, ele continuou, tossindo um pouco, procurando as palavras, “você não é o morador do apartamento, o do segundo andar, bem em frente?”, ele perguntou, e senti algo, uma mudança na atmosfera.
Conforme a raiva se transformava em medo, fui pensando em negar, mas seria pior, um modo covarde de retardar tudo.
Ele falaria alto? Tinha boa voz, grave, sonora e confiante. Na outra calçada, vi que a minha vizinha, a do beagle, voltava do passeio com o Marlon. Ela me deu um tchauzinho com a sacolinha de cocô na mão.
Poderia puxá-lo para o lado? Forçá-lo a ser discreto ao menos?
“Então, as meninas que viram. Você não deve ter reparado. Às vezes a gente nem repara mesmo”, ele continuou, mas adotando uma postura condescendente, como se me humilhasse ao me liberar de qualquer culpa.
Claro que não tinha sido, mas pensei em gritar que tinha planejado tudo, que queria chocar a igrejinha deles, chocar todos eles com o fato de que ninguém, de que ninguém ia voltar nunca mais.
Sabe o seu Cristo? Ele é uma fórmula literária, um grilhão como a minha dor ou a realidade, como o suor correndo em bicas pela minha nuca agora.
“Você tem que ligar para alguém, pedir ajuda”, ele continuou, desta vez adotando um tom que extrapolava todo bom senso.
“Não é normal, mas acontece. Jacus são aves silvestres, protegidas. O ninho está bem atrás do ar-condicionado. Ainda bem que as meninas viram”, ele disse, dando, antes de partir, umas batidinhas no meu ombro.