segunda-feira, 3 de agosto de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
ENSAIOS

Plaza y plazas

Uma crônica/conto mezzo literária, mezzo ensaística. Um texto híbrido por Caio Russo.


Terminei a última aula do dia e fui eu mesmo ao supermercado, primeiro como forma de me mover um pouco após oito horas sentado diante do notebook, recomendação médica consistentemente ignorada, depois como tática meio diversionista quanto ao ensaio cujo prazo final se aproximava e, por último, para comprar carne moída. Era por volta das 19h quando subi o lance de escadas à direita e passei pela Dna do MonXtro. Exceto pela moça maromba atrás do caixa, ninguém. Não vai sobreviver, pensei, profetizando o óbvio ou certo desejo de falência. No coração do complexo habitacional e alimentício “Viva Real”, várias pessoas circulavam em frente ao supermercado Angeloni — o grande salão envidraçado do térreo — passeando com cachorros entre vasos de coqueiros ou falando ao celular nos bancos de concreto. Por ser um desses edifícios all in one, estúdios de 50 m² para universitários ou profissionais liberais, sobretudo jovens médicos exaustos estagiando no HU-UFSC ou programadores com mechas azuis, nunca consigo, salvo pelas roupas de escritório ou pantufas de unicórnio, separar os passantes dos moradores. Alguns escolhiam algo para a janta ou para o café. Outros matavam o tempo depois do trabalho. Todos mais ou menos perdidos entre prateleiras sobre as quais se equilibram destinos em pacotinhos.

Por fingir que precisamos de algo ao passear ou fingirmos passear quando precisamos de algo — e eu não saberia jamais dizer a qual grupo pertenço — me peguei adivinhando a vida dos outros nas sacolinhas de compras dos que aguardavam o Uber. É por existirem pessoas como eu, aliás, que imagino cestinhas e carrinhos fechados, cada qual com seu capô protegendo a intimidade dos
produtos.

Não me lembro bem, mas era criança quando peguei essa mania. Começou sem motivo. Um dia pesquei o sachê para gatos num carrinho e, com o coração acelerado, escondi no meio das nossas compras. Sem falsas esperanças quanto a ter um gato, eu queria ao menos sentir o gostinho, provar a fantasia da existência alternativa. Duas semanas antes do furto cênico o meu cachorro havia sido — ainda que o amasse muito — esportivamente trocado por vagas promessas de popularidade e um brilhante futuro na NBA. Graças à nova cesta de basquete, esporte em que me destacava solitário numa categoria inferior até aos meninos que nunca quicaram uma bola, tive a sensação de que meu sucesso começaria em breve. Como parte do acordo, meu pai instalou a cesta no mesmo dia que meu cachorro latiu pela última vez, já que não tivemos mais notícias dele ou do seu novo dono, antes que a velha Pampa enferrujada arrancasse rumo a outra cidade. Quando chegamos do supermercado tudo escalou depressa. Sem entender como aquele sachê roxo sabor salmão veio parar entre o presunto e a esponja de lavar louças, minha mãe fez meu pai jurar que não tinha outra família, coisa que ele fez, porém sorrindo altivamente, o que lhe valeu cinco dias de reclusão no sofá e quinze de trabalhos forçados esfregando telhas e caixas de gordura pela incapacidade arrogante de entender piadas. Poucos semanas depois, meus amigos — os dois de sempre daquele bairro rico que sabe-se lá por que simpatizavam com o menino da casinha mostarda — se despediram de mim após uma tarde de dribles e cestas conduzidas pela mão invisível do acaso. Em seguida, me pendurei no aro até arrancá-lo. Deitei-me no concreto morno e aguardei, com o círculo da aliança traída sobre o peito, até anoitecer.

Tourada de Edoaurd Manet

Ao levar o lixo a história se repete: quem teria bebido aquele tinto espanhol até o fim em plena segunda-feira e — o mais importante — por quê? No supermercado, porém, se espero o suficiente posso ligar o produto à imagem da pessoa; posso traçar uma sintomatologia mais completa portanto, o que não é possível, não sem me tornar um maníaco, quanto ao lixo. O grau de excitação também é outro: o momento da escolha, e não o arrependimento plastificado que resta dela. Nada de essencial se expressa nas aparências, não mais, embora nada me impessa de ter a impressão, ou o sonho de impressão, de que em algum nível sutil demais para ser notado existem segredos escondidos nos bolsos daquele moletom, aquele que alguém escolhe vestir apesar da moda, como o da chapeuzinho vermelho pós-punk com quem cruzei sábado passado: cabelo joãozinho; sombra verde-limão; resiliência em itálico na clavícula; moletom em vinil vermelho. Na cestinha de compras, se roçavam o iogurte natural e a linguiça Blumenau. Em outros termos, ninguém a impediria de ser uma tradwife descolada escolhendo o jantar do lobo-mau.

Enquanto o poodle com colar elizabetano me olhava semelhante a uma parabólica aposentada, pensei que um possível início para o ensaio seria tematizar a irregularidade nas aparências. Tematizar o abismo e mesmo a total escuridão que separa os modos de vida do desejo mais profundo de autenticidade. Antes de entrar no supermercado, me sentei próximo ao poodle, raça descontinuada do portfólio canino classe média, e fiz as medições de praxe sobre a coluna: grau de enrijecimento; nível de dor; se passaria sem analgésicos por mais um dia; e quanto tempo fugiria do bisturi. Ao lado da lojinha de celulares, fechada àquela hora, o obscuro objeto de desejo: a tabacaria. O efeito da nicotina na hidratação dos discos intravertebrais é infelizmente conhecido e bem documentado, pensei. Olhei de novo para o poodle, que me olhou de volta, quase falando, engaiolado no silêncio do seu ganido introspectivo. Preso ao borrão da inconsistência linguística, ele me encarava incomunicável como alguém extremamente tímido falando bobagens por não conseguir revelar a riqueza da sua interioridade, adivinhada no olhar ou no sorriso por quem tem a generosidade de reparar nessas coisas. Pensei que o texto seria possível desde que se mantivesse como ensaio sério, analítico, e não literário. Quando se quer um carro de luxo para provar algo para si mesmo, por amor desprezado ou questões edipianas ou fálicas, a literatura tem ainda alguma chance. Quando querem um carro de luxo porque querem um carro de luxo, a literatura se torna redundante como o mundo. A longa marcha da história — pensei roxo pela altura rarefeita da frase — se reduz ao esforço para tornar o humano redundante. Sonhos metálicos de informação como gênese para o novo mundo morto: indiferença elétrica total. A mistura de referências — pensei enquanto me levantava sentindo o formigamento quase prazeroso descendo das vértebras em direção ao mindinho do pé esquerdo — na qual fascistas brasileiros aparecem tatuados com dragões bigodudos da Yakusa nos impediria de escrever o desejo dos outros? O inconfessável invisível, o sutil alusivo… O próprio inconfessável por todos os lados confessado: a exatidão sem sombra de tudo que se encontra simplesmente disposto e entregue. Daí a infantilidade arrogante de quase tudo em matéria de literatura hoje. Se ainda existisse uma Arúspice perdida por aí, das que faziam adivinhações em vísceras de aves, vísceras quentes, ela teria de se contentar com frangos ocos de freezer. Ouviria ela outra coisa além da própria voz soprada no vácuo?

Segui em direção à porta do supermercado e o poodle me acompanhou captando minhas vibrações, antigos clinâmens agora expressos em partículas uniformemente variadas.

A porta automática se abriu num estalo e luzes ajustadas me acolheram. Mesmo no ângulo entre a porta de entrada e as escadas rolantes, parte mais escura do espaço, havia claridade suficiente para que um médico fizesse uma cesariana de emergência. Mal cheguei no setor de legumes e já notei a leveza no ar. A quietude meio Zen apaziguando o pensamento, que desacelerou como um carrinho distraidamente abandonado pela criança, e em seguida encostando, por inércia, ao lado das bananas orgânicas. Tenho uma sensação de ordem absoluta ao entrar em mercados mais caros. Sendo mínima a diferença na continuidade doméstica, a desconexão com exterior é, no entanto, imensa. A quantidade de coisas disponíveis ultrapassa minhas necessidades, incluindo as inexistentes. Deslizo solitário da coerção material à plenitude incorpórea. A experiência é uterina. O tempo se suspende e a rua e a sujeira da rua ficam lá fora. Excluídos daquela atmosfera amena e controlada, trezentos mil anos de penúria e privação são lendas pré-humanas — talvez venha daí a crença cronologicamente impossível de que homens e dinossauros viveram sob o mesmo céu estrelado. De repente existo no extremo da história, no fim do fim; e todos os combates aconteceram apenas para acabar nesses melões de redinha, criteriosamente suculentos, sem erro ou surpresa, ou nessas tâmaras imensas brilhando na promoção, para sempre substituíveis, sem origem nem passado.

O Suicídio de Eduoard Manet.

Antes não suportava supermercados e já entrava querendo sair. Agarrava os produtos como um soldado em missão seguindo à risca a lista de compras. Assim que terminava, saía em busca do caixa mais vazio, e sentia minha vida escoando à deriva, minutos transformados em séculos de encarnações desperdiçadas, se alguém enguiçasse na minha frente ou voltasse “bem rapidinho” para pegar algo. Quando passei a suportar e, depois, a amar supermercados, os passeios às margens frescas de quiosques iluminados, habitat sereno inclusive de carnes exóticas que jamais vou comer, como filé de avestruz, se tornaram os mais apropriados para o início de um texto, sobretudo desses com pretensões literárias. A escrita veio tempos depois da caça como mero prolongamento dessa. A ideia não é nova, mas imagino se encontrar aí o elo perdido: o excedente alimentar que deslocou a fome, a espiritualizou. Um dia o homem paleolítico torceu o tornozelo e não foi caçar com o bando. Bem alimentado e sem nada melhor para fazer, ele pegou a ponta carbonizada de um fêmur e, em meio a cinzas e restos secos de sangue, começou a raspar o chão, as paredes ao redor. Linhas se entrelaçaram formando padrões. Sem motivo, ele se impressionou por ter guardado o rastro dos gestos em pedra: logo diversos círculos surgiram ao redor de si.

Peguei as tâmaras, dei uma olhada nas verduras e continuei.

A ideia era um ensaio sobre leituras e filmes. Ensaio de verdade, daqueles pessoais no qual o eu se encontra existencialmente implicado na matéria abordada. Quando sugeri a Frederico Machado o “formato” — pensava ao conferir a quantidade de farinha integral e de conservantes comparando inutilmente diferentes marcas de pães — fingi não perceber que jamais havia escrito algo assim. Na verdade, o que me atraía era a ideia de escrever, de ser alguém capaz de escrever algo assim. Por isso tinha falado na mensagem que, caso ele achasse bacana a proposta, eu comentaria, no próximo número da revista, certas relações — sem saber quais — entre o documentário Tardes de solidão, de Albert Serra, e um livro, A potência do pensativo, de François Jullien. À procura desse suposto ponto de vista pessoal do ensaio, que deveria existir no texto, o cruzamento sugerido não me parecia apenas gratuito, mesmo que o toque de gratuidade fosse, talvez, justamente esse ponto de vista pessoal. Andando pelos corredores iluminados do supermercado, a ideia foi me parecendo cada hora mais ridícula. Ainda assim, as duas coisas se cruzavam. O jovem toureiro do documentário, Andres Roca Rey, queixo apoiado na borda da plaza de toros, a arena, olhar fora de campo para o espectador, parecia uma figura estranhamente pensativa, e Jullien definia nesses termos a literatura: o pensativo do pensamento. Ao contrário da filosofia, que começa pelos princípios, a literatura acontece, nos diz Jullien, no pensamento do depois, efeito alusivo indeterminado. O documentário de Serra mostrava a absorção do toureiro, o belo duende sádico de trajes delicadíssimos, bordados à mão no limite do excesso, meias e sapatilhas de boneca. Eram ornamentos de um pesadelo rococó para a dança solitária do herói que, pesando um décimo do monstro, o sacrificaria como homenagem ao pensamento, à solidão do pensamento… Difícil uma ideia mais estúpida, pensei ao pegar uma bonita embalagem de pão cujo rótulo me prometia farinha integral moída em moinhos de
pedra, algo que soava anacronicamente rústico e meio espanhol.

Retardava minha chegada ao açougue pensando no toureiro e resisti a pegar um salame na geladeira. Segui em frente refletido nos vidros molhados. Primeiro teria de encaixar uma coisa na outra escondendo a gratuidade de partida, a vontade de escrever um texto, sem necessidade do objeto ou do tema. Como era a primeira cena do documentário? Tinha o touro, claro, e uma música; ou era a própria respiração do touro à noite, sozinho como estaria, depois, o toureiro? Espelhamento formal entre touro e toureiro? Assistiria de novo para me lembrar. Ao escrever a performance intelectual do eu na página jamais nos esquecemos das coisas, pensei, e ninguém se torna tão espontaneamente genial quanto na décima revisão. Algumas coisas do documentário eu tinha certeza de me lembrar, como a espada curva do último golpe, a que deve atingir o coração do animal. As dobras do pano escondem a lâmina, o tecido vermelho através do qual o touro passa, iludido e sangrando, ao comando do toureiro. A cada investida mais próximo o touro se encontra do fim. Levado à morte pelo esforço não do toureiro, mas por sua própria natureza violenta, é como se ele lutasse contra si. A dança pensativa entre toureiro e touro é um jogo de adivinhação, pensei. Semiótica de signos mortais na qual o touro é, desde o início, o analfabeto do espetáculo. Já com o touro cansado, o toureiro deixa o pano atrás de si e se estica todo, bufando com uma careta meio cômica no rosto infantil. Apenas por sua força de espírito, parece ter domado, enfim, aquela meia tonelada de fúria exausta. O touro então avança. O desespero é nítido. Outros toureiros correm com tecidos imensos, coloridos como fantasias de carnaval. A roupa de Andres se rasga. Martirizado na borda da arena pelas cabeçadas do animal, ele
se livra pela estatura de criança. A cabeça do touro não o atinge pela curvatura dos chifres. Andres esgueira-se pela abertura lateral da arena e, mortalmente pálido, se recupera. Bebe água num copinho de prata. Os olhos estão fundos como os de um ressuscitado após a parada cardíaca. Volta à arena logo depois e, mancando, em mais uma ou duas rodadas de dança, ataca como um escorpião
ferido o touro, que estremece e cai, olhos revirando brancos. A parelha de cavalos vem com berloques e sinos e arrasta o corpo do animal pela arena. Os círculos deixam faixas de sangue sobre a areia. Em algum momento, Andres diz: “ele me poupou”.

O homem morto de Edouard Manet.


Pensando nessa frase ambígua, cínica, empurrava o carrinho distraído quando resvalei no
carrinho de alguém.

O cara não reparou em mim nem no encontrão. Bastante acima do peso, ninava um exemplar gigante de whey, que rolava solitário como um bebê segurando os pezinhos. Ele seguia pensativo, absorto. Tinha olhos fixos e expressão tensa. Continuou em frente e diminuiu na área de doces caseiros. Parou nos chocolates. Imóvel diante dos prazeres ultraprocessados, talvez dominado por lembranças recentes, ele pegou um pacote de bombons nas mãos e ficou ali, ouvindo o crepitar laminado de uma embalagem tão pornograficamente fácil de abrir que um macaco não teria do que reclamar. Ainda assim, complexos cálculos existenciais se desenhavam no seu rosto, equações insondáveis em meio a angústias calóricas resultando em futuros que, multiplicados e por isso divididos diante dele, iam desde o infarto dali a dez anos até o sonoro “não” ao convite para sair com uma tal de Rebeca em — quem sabe — dez meses. Mas o que eram dez anos ou dez meses comparados à insinuação do imediato, a dádiva do prazer evolutivo inscrito no milagre energético de gorduras, emulsificantes e dopaminas caramelizadas? Como Baudelaire sobre os efeitos do haxixe, ele deve ter se perguntado quantas coisas mais prejudiciais ele não aguentava, todos os dias há décadas, por recompensa muito menor que essa explosão de sabor crocante…

Por medo de parecer um stalker, continuei em direção ao açougue antes que ele tomasse a decisão.

Perdi o homem de vista e fiquei aguardando o açougueiro, que cortava uma grande peça de carne, semelhante a uma harpa sangrenta ou uma asa carnal de anjo. Nos fundos do açougue, ele começou a arrancar rebarbas brancas e jogava no lixo já bem cheio. Concentrado, não reparou em mim. O que mais se encontra sobre a tourada, pensei, são textos denunciando a violência gratuita: tradição bárbara que, junto a outros ornamentos da imaginação humana, ilimitada quanto ao assunto tortura, merecia lugar de destaque no museu da vergonha. Pensando no problema da vergonha me lembrei que cinco anos atrás tinha visitado um museu da tortura em Amsterdã. No início, achei as expressões agonizantes dos bonecos meio como as de desenhos animados. Eram falsas demais e, por isso, incapazes de transmitir empatia. Dias depois, fui ver as fotos tiradas e me deparei com um dos rostos, versão p&b. Nas curvas das sombras preenchendo os sulcos do plástico a imagem de uma máscara sorridente se formou. Tive crises de insônia por semanas. A lógica é nítida e não há grande mistério no argumento do fim das touradas. O outro lado, porém, é mais complicado. Francis Wolff, professor emérito e comentador dos gregos, defende as touradas tanto de um ponto de vista estético quanto — talvez — ético. Chegou a publicar um título curioso: uma filosofia das corridas de touro. Pensei que poderia colocá-lo no texto pois causaria certa impressão, mas como teria de lê-lo certinho — e não saberia o que fazer com palavras tão grandes quanto “herói”, “tragédia” e “destino” — deixei quieto.

Melhor esquecer o ensaio, pensei tentando atrair o açougueiro, concentrado em quebrar com um martelo de metal um osso. Primeiro eu deveria achar algo do assunto, não? Se fosse sincero, sincero como deveria ser num ensaio desse tipo, deveria dizer que não achava nada, nada de diferente dos demais, o que equivalia, claro, a nada: era cruel e fascinante. Jullien diz que a literatura é fascinante porque dá a pensar. Não é possível ser fascinante sem nada dar a pensar, como bijuterias para avestruzes ou touradas para milhares de pessoas? Diferenciando-se da filosofia, máquina lógico-discursiva, a literatura tem o vazio no coração, pensatividade indeterminada. A tourada também dá a pensar, pensei, talvez até como um bom texto literário. Dois fósseis sobrevivendo apesar de tudo? Religiões laicas para quem ainda acredita nessas coisas? Da escrita ao estilo e deste à espada… Haveria semelhança? O egocentrismo inseguro do toureiro, o Ritz e os eventos literários. Detalhes anacrônicos da roupa contra celulares e câmeras e toureiros numa van. Camadas temporais sobrepostas, homens e dinossauros, abotoadores de prata, bordados, o escalpo do cérebro, a foto para o Insta… Meio perdido nessas ideias parciais, esquartejadas, sentia certa tristeza pairando como nuvem que não faz sombra nem chove, mau-humor inofensivo aguardando a nova neutralidade, quando fui despertado pelo açougueiro afiando impacientemente a faca.

Carregando o saquinho de cadáver moído, não encontrei mais o cara, mas passei e peguei os bombons.

O toureiro não dança com o touro, ele o mimetiza, o trai. O fascínio na dança solitária é o do pensamento revelado traição, astúcia racional da qual dependia Ulisses. É a astúcia que o fez sobreviver, ao custo da cegueira do ciclope-touro, com a lógica do sacrifício ainda agindo, mesmo que, agora, incorporada à coincidência do espetáculo consigo mesmo: a verdadeira purificação que, paradoxalmente, buscava o ato sacrificial sem jamais alcançar. Ao ser abolido, o sacrifício atingia sua máxima eficácia na beleza gratuita. Um caminho para seguir: mais ou menos como faz a literatura, o toureiro esconde seus métodos, seus truques, e não apenas ao touro, mas à plateia que o julga — e a revelação do truque é a sobrevivência do truque por outros meios, seu fascínio interminável. Complexa lógica estética envolvendo leituras de signos, ilusão e traição. Mas como ir além desse ponto?

Atravessava a parte de bebidas rumo aos caixas pensando ainda no pequeno Andres, que se salva, apesar do narcisismo, pelo efeito de profundidade sobre o rosto, quando vi, logo à frente, uma loira na mesma posição do cara.

Trajando terninho e maquiagem burocrática, ela lutava contra sentimentos contraditórios. Atraída pelo alívio excitado das garrafas de vinhos em rótulos tradicionais ou minimalistas, o gênio íntimo das bebidas lhe prometia milagres ácidos ou gasosos, mínima amnésia no cansaço administrativo do dia. Rendeu-se ao tinto espanhol, o pegou nas mãos e sorriu meio triste antes de, resistindo, devolvê-lo. Subiu os olhos e, decidida, percorreu com dedos ágeis brinquedos mais emocionantes no parque de diversões da vida adulta: vodcas e gins. Pegou uma garrafa de cada e seus olhos brilharam como os de uma criança.

Não havia se decidido quando continuei em frente passando por um casal idoso.

Eles escolhiam austeramente legumes e verduras. Terminaram e foram com as sacolinhas ao caixa preferencial. A religião sempre passou por algum tipo de alimento, e a literatura sempre foi uma forma cética de religião que desvela religiões, pensei, sentindo que algo de mais fundamental me escapava de novo. Dei então mais uma volta pelo supermercado. A literatura como forma estranha de tourada espiritual, mas sem touro. É profundamente natural que tudo acabe no supermercado ou volte para ele: último templo da escassez vencida, do medo superado. Apesar de ser segunda-feira, peguei o tinto espanhol. Fui em direção aos caixas sabendo que deixaria quieto isso do ensaio. Inventaria uma desculpa para o Frederico. Se fosse escrever algo um dia, começaria dizendo que o fascínio da literatura, assim como o das touradas, vem da distância entre o vidente e o visto, ou apenas da distância, do seu fato. Não a dialética entre traidor e traído: sua assimetria. Imagem sempre atual do verdadeiro leitor, que tudo compreende, a decifrar, ao passo que mata ou imobiliza, o monstro imerso nas cores de um mundo inenarrável, seja ele o touro, a plateia ou, quem sabe, o próprio toureiro.

Mas como afirmar essas coisas? Como fazer de uma coleção de impressões algo mais do que um amontoado de percepções?

A imagem do toureiro revela a típica mitificação com a qual o escritor e a literatura desde há muito sobrevivem, mas a questão é outra. Não seria a literatura algo bárbaro que deveria acabar algo ultrapassado e cruel, como as touradas, em que personagens saltam sobre trilhos, matam a machadadas ou tomam arsênico seguindo os caprichos de um toureiro de escritório?

No caso do toureiro, há ainda risco, diferentemente do escritor. Andres Roca Rey, li ao procurar sobre ele depois do documentário, ficara na UTI pelo ataque de um touro, que abriu trinta e cinco centímetros da sua coxa. Mas o último toureiro a morrer na Espanha, em abril de 2026, foi Ricardo Ortiz. O touro o atacou no curral da Plaza de toros La Malagueta. Nos bastidores, em silêncio. O supermercado no lugar do templo significaria abandonar os mundos do mundo voltando à terra, único mundo. O que fazer com literaturas e touradas, toureiros e escritores?

No centro da literatura nada há exceto o enigma do discreto, o elogio velado ao touro…

Peguei as tâmaras, os bombons, e quando já estava passando o vinho e a carne moída, conformado com o fracasso, me lembrei dos chicletes. Peguei uns dez nos expositores ao lado dos caixas. Distraído, mal percebi quando alguém falou comigo:

“Esfriou, não?”

Ainda pensando nessas coisas tão inúteis quanto complicadas, nesses problemas maravilhosamente vãos, demorei um tempo para entender quem era.

A moça do caixa me olhava sorrindo e repetiu a pergunta:

“Para mim está muito frio, sou do Maranhão. E para você?”

Pego desprevenido por jamais esperar uma pergunta diferente de “mais alguma coisa?” ou “o senhor tem o cartão do clube?” ou “qual a forma de pagamento?” eu disse de forma totalmente impensada que “sim, esfriou muito, muito mesmo”, sendo que os termômetros marcavam, no máximo, uns dezessete graus.

Ela continuou a sorrir percebendo a minha falta de jeito e, ao passar o vinho, comentou:

“Bom mesmo tomar um vinhozinho com esse frio. E com uma macarronada, certo?”, ela disse,
passando, em seguida, a carne moída.

“Também gosto”, completou antes que eu a respondesse.

“Sim, isso mesmo”, respondi tentando parecer simpático e não surpreso como se encontrasse um detergente camuflado na horizontal junto às bolachas recheadas.

“E parou de fumar, né? Coisa boa”, ela disse, sorrindo, ao passar, um a um, os meus chicletes.

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