sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
ENSAIO

Make Dude Again! O grande Lebowski revisto quase 30 anos depois

Vagabundos de todo o mundo, uni-vos!
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Há quase trinta anos, escrevi sobre O Grande Lebowski, de Joel e Ethan Coen. Naquele momento, via no filme um tributo irreverente aos deserdados do neoliberalismo e da globalização e identificava em Jeff Lebowski, o Dude, vivido por Jeff Bridges, o americano que havia ficado à margem da grande corrida pelo sucesso. Chamava-o de “capitão anti-América”, um herói às avessas que, em plena crise da Guerra do Golfo, lutava pela menos nobre das causas: recuperar o tapete que haviam urinado em seu apartamento. Leia aqui o texto original de Ricardo Cota sobre O Grande Lebowski: https://www.terra.com.br/cinema/opiniao/lebowski.htm

Voltar hoje àquele texto é uma experiência curiosa. É reencontrar um filme, mas também reencontrar o crítico que o escreveu. Quase trinta anos se passaram, a América mudou profundamente — e, ao mesmo tempo, mudou menos do que talvez imaginássemos. Mudaram os presidentes, as tecnologias, a maneira de consumir informação, a linguagem da política e a própria ideia de poder. Mas continuam presentes a obsessão pelo dinheiro, a necessidade de vencer, a desigualdade, a violência, o ressentimento, a fabricação de inimigos e a dificuldade de conviver com quem está fora do modelo dominante. O que mudou, talvez, tenha sido menos a natureza dessas contradições do que a sua dimensão e a maneira como passaram a ocupar o centro da vida americana. É nesse intervalo entre o que eu via em 1998 e o que vejo agora que este ensaio se constrói: um reencontro com o Dude, com a América que os irmãos Coen dessacralizaram e, de certo modo, comigo mesmo.

O Grande Lebowski (1998) ocupa hoje um lugar que talvez fosse difícil imaginar em sua estreia. Não foi inicialmente um fenômeno de bilheteria, mas ganhou uma segunda vida passando pela ascensão e queda do vídeo-cassete, do DVD, do blu-ray, até espraiar-se pela rede de streamings que até hoje perpetua, e aumenta, a devoção dos espectadores. 

Em 2014, a Biblioteca do Congresso incluiu o filme no National Film Registry, ao lado de outras 24 obras consideradas relevantes para a cultura, a história ou a estética do cinema americano. A seleção daquele ano reunia filmes de naturezas tão distintas quanto Rio Bravo (1959), de Howard Hawks, Rosemary’s Baby (1968), de Roman Polanski, Little Big Man (1970), de Arthur Penn, Willy Wonka and the Chocolate Factory (1971), Ferris Bueller’s Day Off (1986), Saving Private Ryan (1998), de Steven Spielberg, e Luxo Jr. (1986), da Pixar. O dado mais saboroso, porém, é que The Big Lebowski e Saving Private Ryan — ambos de 1998 — passaram a ocupar o mesmo panteão da memória cinematográfica americana: de um lado, a América heroica da guerra, do sacrifício e da missão coletiva; de outro, a América de roupão, chinelos, boliche e goles de White Russian, representada por um sujeito que só quer recuperar seu tapete. A inclusão do filme pelos arquivos nacionais não foi apenas uma homenagem a uma comédia cult. Foi o reconhecimento de que aquela América dos Coen, aparentemente menor e absurda, também fazia parte da história que os Estados Unidos escolheram preservar.

Essa permanência não é casual. O Grande Lebowski concentra uma das características mais marcantes do cinema dos Coen: a capacidade de dessacralizar a América. Joel e Ethan Coen não costumam atacar frontalmente os grandes mitos nacionais. Preferem submetê-los ao ridículo, deslocá-los de seu lugar solene e colocá-los diante de personagens que revelam suas contradições. 

Em Arizona Nunca Mais (1987), a família e o sonho de prosperidade transformam-se em farsa; em Fargo (1996), a respeitabilidade da América do Meio-Oeste convive com a violência, a estupidez e a ganância; em O Grande Lebowski (1998), o sonho americano se reduz, literalmente, à necessidade de recuperar um tapete; em Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), a mitologia do Oeste encontra um universo sem redenção; em Queime Depois de Ler (2008), espionagem, CIA e poder institucional viram matéria-prima para uma comédia de incompetentes; e em Ave, César! (2016), os próprios mecanismos de Hollywood, uma das grandes fábricas de mitos americanos, são desmontados pelo humor.

A América dos Coen é a América vista pelo avesso: a dos fracassados, fanáticos, trapaceiros, criminosos desastrados, sonhadores e indivíduos que não conseguem — ou não querem — desempenhar o papel que lhes foi reservado.

É dentro dessa tradição que O Grande Lebowski se torna especialmente revelador. Os Coen pegam um gênero profundamente americano, o filme noir – estilo de cinema policial dos anos 1940 e 1950 marcado por filmes sombrios, detetives pessimistas, crimes misteriosos – e colocam sua investigação nas mãos de um homem que não tem nada de detetive. O Dude é uma espécie de anti-Philip Marlowe. Não procura a verdade por princípio; procura um tapete. Não quer desvendar uma conspiração; quer que parem de incomodá-lo. Não está interessado em justiça, dinheiro ou poder. Seu universo é reduzido ao apartamento, aos amigos, ao boliche, ao leite, à maconha e aos White Russians. No entanto, é justamente esse homem que acaba atravessando uma América onde se encontram dinheiro, pornografia, violência, sequestro, poder, propriedade e impostura.  

A galeria de personagens reforça essa operação de desmontagem. São tipos aparentemente caricaturais, mas os Coen nunca os utilizam apenas como decoração. Cada um carrega alguma coisa da América que o filme pretende desmistificar.

A abertura já estabelece esse jogo. A câmera atravessa a paisagem árida do Oeste até chegar a Los Angeles. Quando escrevi meu primeiro texto, disse que ali estavam “as duas Américas”: a interiorana e a mundana. Continuo vendo essa oposição, mas hoje acrescentaria outras: a América do cowboy e a do magnata; a América da propriedade e a da precariedade; a América que acredita no mérito e aquela que já não acredita em promessa alguma.

O milionário Jeffrey Lebowski, interpretado por David Huddleston, construiu sua identidade sobre a ideia de sucesso. O Dude, interpretado por Jeff Bridges, não construiu nada. Um possui dinheiro, empregados, poder e discurso. O outro possui um apartamento, alguns amigos, um carro velho e um tapete que “combinava com a sala”. Os dois têm o mesmo nome, mas representam duas possibilidades radicalmente diferentes de ser americano.

O tapete é, nesse sentido, mais do que uma piada. É a medida da dignidade do Dude. Ele não quer enriquecer nem dominar o mundo. Quer recuperar aquilo que era seu. Sua pequena ordem doméstica foi violada, e ele tenta restaurá-la. É por causa do tapete que entra no castelo do outro Lebowski e é a partir daí que o sujeito que menos deseja participar da América é obrigado a atravessá-la. O homem que paga um litro de leite com cheque acaba diante de um milionário paraplégico, de um bajulador, de uma atriz de filmes pornográficos, de sequestradores e de uma série de personagens que parecem ter saído de um pesadelo capitalista. A América inteira parece ter se organizado para perturbar a tranquilidade de um sujeito que só queria seu tapete de volta.

Foi nesse ponto que, em meu texto original, chamei o Dude de “capitão anti-América”. Hoje eu manteria a expressão, mas acrescentaria outra dimensão. O Dude não é apenas o americano que ficou à margem do sonho de prosperidade. Ele é o sujeito que não demonstra nenhum desejo de participar da corrida. Em uma cultura construída sobre a ideia de realização individual, ele oferece o direito à insignificância. Em uma sociedade que transforma produtividade em virtude, ele celebra a ociosidade. Em um ambiente em que tudo parece exigir competição, posicionamento e vitória, ele prefere jogar boliche. Não é uma ideologia. É uma recusa.

É justamente essa recusa que transformou o Dude em mito. “The Dude abides” — “O Dude permanece”, ou, dependendo da ênfase, “O Dude resiste”, “O Dude segue em frente” — tornou-se uma espécie de lema. O verbo abide contém a ideia de permanecer, suportar, continuar. Não é a vitória convencional do herói americano. É a persistência daquele que se recusa a ser engolido pelo caos. 

A cultura americana transformou essa atitude em culto. O Lebowski Fest, criado em Louisville, Kentucky, em 2002, tornou-se um ponto de encontro de fãs, com exibições, fantasias, música, bebidas e, naturalmente, boliche. A celebração continuou a se multiplicar. Em novembro de 2025, Ogden, Utah, realizou a 11ª edição de seu festival, com concurso de fantasias, sessão do filme, trivia, festa e fãs caracterizados como Dude, Walter, Jesus e Maude, todos personagens do filme.

O culto ganhou uma dimensão ainda mais curiosa com o Dudeísmo, uma filosofia inspirada em O Grande Lebowski e explicitamente não afiliada ao filme ou a seus criadores. O movimento se apresenta como uma filosofia de tranquilidade, desapego e convivência e congrega atualmente cerca de 800 mil “sacerdotes” ordenados em todo o mundo. Pode parecer apenas uma grande brincadeira, mas a brincadeira diz alguma coisa. Um personagem criado como caricatura de um desempregado maconheiro transformou-se em referência para pessoas que encontram naquela postura uma alternativa à ansiedade, à competição e à necessidade permanente de provar alguma coisa.

O Dude não é cultuado porque seja um grande homem. É cultuado justamente porque não pretende ser. Ele não tem projeto de poder, não deseja prestígio, não quer enriquecer e não pretende convencer ninguém de que é melhor do que os outros. Seu patrimônio é uma maneira de estar no mundo. 

O mito do Dude representa, para a América de hoje, uma espécie de resistência existencial: a possibilidade de não transformar a vida numa competição permanente. Em um país no qual sucesso, produtividade, dinheiro e visibilidade continuam funcionando como medidas de valor, ele oferece uma pequena desobediência: talvez não seja obrigatório vencer.

Walter Sobchak, interpretado por John Goodman, é seu contraponto perfeito. No meu texto original, escrevi que Walter simbolizava “a falência da América, órfã do discurso da violência como panaceia para as mazelas políticas”. Continuo acreditando nisso. Veterano do Vietnã, Walter carrega a guerra consigo. Precisa de regras, precisa ter razão, precisa identificar inimigos, precisa reagir. Onde o Dude aceita o caos, Walter tenta dominá-lo. Onde um se afasta da competição, o outro transforma qualquer situação numa batalha. Em 1998, Walter podia parecer uma caricatura. Hoje, sua agressividade, sua necessidade de estar sempre certo e sua incapacidade de aceitar a ambiguidade parecem menos distantes de uma sociedade americana marcada pela polarização e pelo confronto permanente.

É nesse ponto que Donald Trump entra nesta releitura. Não porque o milionário Jeffrey Lebowski seja um retrato antecipado de Trump — isso seria uma aproximação fácil demais —, mas porque existe entre eles uma afinidade cultural. 

O Big Lebowski é o homem da propriedade, do dinheiro, da autopromoção, da aparência de sucesso e da convicção de que riqueza e poder lhe conferem autoridade. Trump construiu sua persona pública sobre elementos semelhantes: a riqueza transformada em marca, a celebridade transformada em capital político, a imagem do vencedor e a insistência em apresentar-se como alguém que domina o jogo. O contraste com o Dude é quase perfeito. Um precisa ser “Big”; o outro é simplesmente “the Dude”. Um precisa convencer o mundo de que é importante; o outro parece não se importar com isso.

A relação entre Trump e O Grande Lebowski, portanto, não está numa suposta previsão. Está na transformação, em linguagem política, de características que os Coen já haviam convertido em caricatura. A autopromoção, o ressentimento, a obsessão pelo sucesso, a teatralização da identidade, a necessidade de vencer e a construção permanente de inimigos estavam presentes naquele universo. O que mudou foi sua escala e, sobretudo, o lugar que essas características passaram a ocupar na vida pública americana. Os Coen dessacralizavam essas figuras; décadas depois, algumas delas passaram a ocupar o centro do palco.

O mito do Dude funciona como contraponto a essa América da grandiloquência. Trump quer ser grande. O Dude não precisa. Trump constrói sua identidade sobre a ideia de vitória. O Dude sobrevive à derrota. Trump transforma o próprio nome em marca. O Dude é apenas “o Cara”. Não é preciso fazer dele um herói político para perceber a força simbólica dessa oposição. O Dude representa uma América que não quer necessariamente ganhar, uma América que talvez esteja cansada da obrigação de ser vencedora, uma América que procura alguma forma de dignidade fora da lógica do poder.

E há algo especialmente bonito no trio formado pelo Dude, Walter e Donny. Donny, interpretado por Steve Buscemi, quase nunca consegue terminar uma frase. Walter o manda calar a boca. Dude mal parece perceber sua presença. Mesmo assim, os três continuam juntos. O boliche é o território dessa pequena comunidade. Ali, por algumas horas, as diferenças parecem suspensas. Todos podem jogar, todos podem perder, todos podem beber e todos podem voltar para casa. Num país cada vez mais dividido, essa amizade precária talvez seja uma das mensagens mais discretamente políticas do filme: ainda é possível conviver com aqueles que não pensam como nós.

A bola de boliche continua sendo, para mim, a melhor imagem para resumir o filme. Ela desliza pela pista, pode atingir o alvo ou cair na canaleta. O Dude também desliza pelo caos que o cerca. Não controla os acontecimentos, não compreende completamente as forças que o movimentam e não tem pretensão de dominar o jogo. Mas continua avançando. 

É significativo que, quase três décadas depois, Paul Thomas Anderson tenha retomado esse espírito em One Battle After Another (2025). Leonardo DiCaprio interpreta Bob Ferguson, um ex-revolucionário desorganizado, marginal e frequentemente chapado, que precisa voltar à ação para proteger a filha. O próprio DiCaprio afirmou que Jeff Bridges em O Grande Lebowski foi uma influência direta para a construção do personagem. Jeff Bridges também reconheceu a aproximação entre os dois: personagens que, à primeira vista, parecem preguiçosos ou incapazes de oferecer alguma coisa ao mundo, mas que, examinados de mais perto, revelam uma profundidade maior.

A referência de Anderson é reveladora. Bob Ferguson parece uma espécie de descendente do Dude que foi obrigado a voltar para a História. O Dude podia permanecer à margem porque o universo de O Grande Lebowski transformava a América em delírio. Bob vive num mundo em que o passado político retorna para cobrar seus compromissos e em que uma filha o obriga a abandonar a passividade. A inspiração está ali, mas o contexto mudou. O Dude podia simplesmente permanecer. Bob precisa agir.  Ainda que atabalhoadamente.

Talvez seja essa a melhor maneira de compreender a viagem de O Grande Lebowski desde 1998. O filme não previu Donald Trump, não previu as redes sociais, não previu a atual polarização americana. Mas percebeu uma sociedade fascinada pelo dinheiro, pelo poder, pela violência, pela aparência e pela necessidade de vencer. Os Coen não fizeram um filme político no sentido convencional. Fizeram algo mais estranho e, por isso mesmo, talvez mais duradouro: colocaram a América num estado lisérgico e permitiram que suas contradições aparecessem através do absurdo.

Quando escrevi meu primeiro texto, terminei dizendo que o Dude era “o filho doidão que os americanos escondem e os irmãos Coen trazem à tela sem reverência, mas com extrema simpatia”. Hoje eu manteria essa imagem, mas acrescentaria que esse filho deixou de ser escondido. A América o adotou. Vestiu seu roupão, repetiu suas falas, criou festivais, organizou partidas de boliche, inventou uma filosofia, transformou seus personagens em fantasias e fez do filme uma espécie de território de pertencimento. 

O mais curioso é que o Dude continua sendo cultuado por aquilo que, em princípio, deveria torná-lo irrelevante. Ele não venceu. Não ficou rico. Não mudou o mundo. Não se tornou uma pessoa melhor segundo os critérios tradicionais. Não quer ser grande. E, talvez justamente por isso, tornou-se grande.

A América de hoje continua abrigando o Big Lebowski, Walter e o Dude. Continua existindo a América que quer ser poderosa, vencedora e reconhecida; a América que transforma tudo em combate; e a América daqueles que preferem simplesmente permanecer à margem. A diferença é que, quase trinta anos depois, o personagem marginal tornou-se um mito central da cultura popular.

Talvez seja essa a razão pela qual O Grande Lebowski continue tão vivo. Os Coen não ofereceram uma resposta para a América. Fizeram algo mais inteligente: retiraram-na do pedestal, colocaram-na numa pista de boliche e debocharam dela. E, ao fazer isso, encontraram um personagem capaz de sobreviver à sua própria história.

The Dude abides. 

O Dude permanece.

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