sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

Castigo Divino, Sergio Ramírez

Clássico da literatura nicaraguense é lançado no Brasil pela primeira vez, e faz um retrato marcante do país às vésperas do golpe que instaurou uma ditadura.
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É possível se ler Castigo Divino, obra-prima do nicaraguense Sergio Ramírez, pela chave do romance de investigação. E está tudo ali: uma narrativa situada nos anos de 1930, sobre uma série de crimes cuja a culpa recai sobre um jovem advogado. As mais de 500 páginas, com tradução de Bruno Cobalchini Mattos, são como um documentário sobre as diversas investigações e julgamento do possível culpado.

Nesse sentido, é um romance que navega pela águas da incerteza. Pergunta se é possível narrar na pós-modernidade. Publicado orginalmente em 1988, e agora lançado no Brasil pela editora Pinard, o livro é composto pelos vários pontos de vista que tentam elucidar os crimes – três envenenamentos por estricnina, na cidade León, na costa oeste do país. 

A narrativa tem fôlego. Ramírez transita com destreza entre passado e presente, criando vozes narrativas distintas que nos chegam por meio de depoimentos, entrevistas, artigos de jornais e um narrador um tanto onisciente que joga com a crença e a descrença da leitora e do leitor. Inspirado num crime real, é um true crime sofisticado para além das obviedades do gênero.

Há, no entanto, uma outra possibilidade muito mais complexa e interessante em Castigo Divino. Esse é um livro sobre a hipocrisia e imoralidade da elite financeira e política. Um retrato mordaz de uma América Central (Latina, também) em sua decadência moral e mecanismos legais para opressão e manutenção de poder. Por meio do retrato local, Ramírez pinta um vasto painel de questões políticas e sociais caras ao continente. 

A superestrutura é um aparato oficial e tácito que mantém tudo de pé, e transforma as coisas para que continuem as mesmas. O acusado dos crimes é Oliverio Castañeda, um dândi e poeta conquistador, que, com sua mulher, se muda para León, e é acolhido na casa de Dom Carmem. A primeira a morrer envenenada é exatamente a mulher Castañeda, seguida, pouco depois, por uma das filhas do anfitrião, e, por fim, ele mesmo. 

Castañeda se torna o principal suspeito, e logo é preso e condenado pela opinião pública, embora o julgamento ainda não tenha acontecido. O tal castigo divino serve como ferramenta para se manter a ordem social. É preciso dar o exemplo quando o crime acontece dentro dos próprios limites de uma elite. A oligarquia é capaz de tolerar desvios da norma, desde aconteçam longe do palco da vida pública. A investigação e julgamento de Castañeda expõem, ainda que maneira involuntária, as mazelas das classes sociais mais elevadas da cidade.

A trama se passa às vésperas do golpe de Anastasio Somoza García, que instaurou uma ditadura na Nicarágua, comandada por sua família de 1936 a 1979, com ajuda dos Estados Unidos. O caos moral e a decadência narrados no livro espelham as condições materiais e históricas que se davam no quando do golpe de estado. A manipulação das narrativas, o apoio da Igreja Católica e a conivência da lei permitem a proteção da elite de León e sua estadia no poder. 

Sergio Ramírez, autor da obra-prima nicaraguense Castigo Divino.

O próprio Ramírez tem uma trajetória politica bastante ativa, fazendo oposição ao governo de Anastasio Somoza, ao final dos anos de 1970, e fez parte do Junta de Governo de Reconstrução Nacional, depois da Revolução Sandinista, de 1979, e chegou a ser vice-presidente do país, quando Daniel Ortega foi eleito em 1984, mas se afastou do governo ao perceber que os ideas da revolução eram manipulados para se instaurar um governo totalitário. Há poucas semanas, o próprio Ortega, que voltou ao poder em 2007 e dali nunca mais saiu, afirmou que não permitirá novas eleições no país. 

Em 2021, Ramírez, teve de se exilar em Madri, ao ser acusado, pela Justiça e o Ministério Público da Nicarágua, de “incitação ao ódio” e “atentado contra a integridade nacional”, e posteriormente foi despojado arbitrariamente de sua nacionalidade nicaraguense pelo governo de Ortega. E tudo isso só mostra a atualidade e a pungência de sua crítica à sociedade nicaraguense em Castigo Divino.  

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