Nascido no Rio de Janeiro, o multi-instrumentista, arranjador e compositor Carlos Malta celebra 50 anos de uma carreira artística brilhante e fundamental para a cultura nacional. Conhecido internacionalmente como o “Escultor do Vento”, Malta domina com maestria toda a família de saxofones e flautas, além de resgatar as tradições brasileiras por meio do pife e explorar instrumentos étnicos orientais.
Sua trajetória confunde-se com a própria evolução do cenário instrumental contemporâneo. O ponto de virada na sua formação artística aconteceu em 1981, quando passou a integrar o lendário grupo de Hermeto Pascoal, o “Bruxo”, parceria duradoura que projetou o músico nos principais festivais de jazz do mundo. Ao longo das décadas, consolidou colaborações marcantes com grandes ícones da MPB, incluindo nomes como Lenine, Guinga, Robertinho Silva, o duo Duofel e a Orquestra Brasil Jazz Sinfônica.
A discografia do músico reflete uma busca incessante pela pluralidade e pela identidade brasileira. Seu álbum solo de estreia, O Escultor do Vento(1997) — recentemente relançamento de forma remasterizada nas plataformas digitais —, inaugurou um estilo autoral inconfundível. Outros registros fundamentais, como Pimenta (2000), dedicado à obra de Elis Regina, e Pixinguinha Alma e Corpo (2000), demonstram sua profunda reverência aos mestres do país. À frente de projetos inovadores como o Carlos Malta e o Pife Muderno e a banda Coreto Urbano, ele descentralizou o uso dos sopros, unindo o erudito ao puramente popular.
Nesta entrevista exclusiva para Frederico Machado, Carlos Malta revisita suas cinco décadas de contribuição para a música, analisa o legado de suas parcerias históricas e reflete sobre o papel da educação musical e do sopro como tradutores da alma do Brasil.
Frederico Machado – Malta, o sopro é o primeiro gesto musical da humanidade: a transformação do elemento vital, o ar, em estética. Para você, que transita entre o flautim, os saxofones e instrumentos de raiz como o pífano, o ato de soprar é um exercício prioritariamente físico, místico ou intelectual? Como esses três eixos se equilibram na sua rotina de criação.
Carlos Malta – O sopro e o canto são os sons pirimordiais que vêm com a gente e desde a gestação estamos, no ventre da mãe, ouvindo os sons de fora da barriga, com o filtro do liquido amniótico. O som é indicativo de vida, sentir a vibração sonora é uma das vertentes para o nascimento. A pessoa sai do ambiente aquático para o terrestre, tudo é novo de novo, o idioma dos pais, canções de ninar, o som ao redor, tudo é físico, intelectual e místico, nas medidas de percepção de cada indivíduo.
Frederico Machado – Sua vivência de treze anos na mítica “filarmônica” de Hermeto Pascoal é frequentemente descrita não como a participação em uma banda, mas como uma imersão em uma universidade existencial. De que maneira o conceito de “Música Universal” moldou a sua percepção sobre as fronteiras entre o erudito e o popular, o sagrado e o profano?
Carlos Malta – Foi um presente da vida, a realização de um sonho, fazer Música Universal com Hermeto. Li aos 12 anos uma reportagem na revista POP, intitulada “ Leve a vida na flauta”. Dizia como era delicioso tocar flauta, que podia tocar no meio do mato, ou numa banda. Havia fotos de flautistas da “ pesada” entre eles o Hermeto. Com 20 anos cheguei na casa do Campeão com meu sax soprano e disse a ele “ vim na igreja, vim rezar”. Tocamos a tarde toda! Li partituras escritas por ele das mais diversas dificuldades, como se nem percebesse que ele me observava atentamente. Dias depois ele me ligou me convidando pra integrar o Grupo. Cheguei com “ pouca idade mas com grande maturidade musical”ele me disse, porque eu interpretava e improvisava com brasilidade e originalidade. Sempre gostei de ir nos recitais de música contemporânea, sons muito diferentes habitam minha alma musical. Passei 12 anos dedicando meu sopro a dar forma a obra de Hermeto, um legado pras novas gerações.

Frederico Machado – Muitos músicos relatam que o método de Hermeto exigia uma desconstrução do ouvido ocidentalizado. Qual foi o maior choque conceitual ou técnico que você sofreu ao entrar naquele universo e como você se reestruturou como solista após essa experiência?
Carlos Malta – Curiosamente minha forma de tocar influenciou o jeito de Hermeto compor. Eu e Marcio Bahia (baterista e percussionista) entramos com novos talentos para Hermeto compor as coisas que ele imaginava. Houve uma grande mudança no som do Grupo . A gente tinha que estudar e ensaiar bem para alcançar o que o texto musical exigia. Superação e entrega são atributos de força e inteligência emocional, e isso é essencial para um artista.
Frederico Machado – Sua assinatura está gravada na obra de ícones com estéticas radicalmente distintas, de Gilberto Gil e Edu Lobo a Guinga e Lenine. Ao entrar no ecossistema criativo de compositores tão idiossincráticos, como funciona o cálculo entre a preservação da sua identidade como instrumentista e a entrega absoluta à visão do outro?
Carlos Malta – Tenho a sorte de ser admirador destes artistas todos com quem toquei. Fazer parte do universo deles é dar vez e voz ao melhor de mim que enalteça o todo. Cada artista me solicita uma energia diferente , que sempre vem de minha ideia ou forma de interpretar, e sentem-se a vontade para “editar “ o que produzo.
Frederico Machado – A improvisação no jazz e na música brasileira costuma ser vista pelo público como um momento de total liberdade espontânea. Contudo, intelectualmente, sabemos que ela exige um rigoroso mapeamento geométrico e harmônico em tempo real. Como você descreve o processo mental do improviso no ápice do palco? É um raciocínio lógico ultrarrápido ou um estado de transe onde a técnica se torna inconsciente?
Carlos Malta – Improvisar é como viver. Temos um tempo após o outro, ideias e atitudes, pensamentos e tudo isso colabora para elaboração de um dia vivido ou um solo improvisado. Muita gente prepara o solo, verifica os acordes, o ritmo, o clima, a intensão, a extensão, a interação e intensidade, mas improvisação é algo que deve surpreender o próprio solista! Por trazer algo novo e inusitado, um silencio magicamente tocado. O ideal é tocar sempre conectado “em transe”, ter a escuta muito especial e deixar fluir seus impulsos estéticos.
Frederico Machado – Se você pudesse isolar um único momento de comunhão máxima no palco em toda a sua carreira — um instante em que a música pareceu transcender a própria matéria —, qual seria e por que ele ficou marcado na sua memória?
Carlos Malta – Em 2011 fui convidado pela Embaixada do Brasil para tocar na China, em Pequim, num dos mais consagrados teatros da capital, o Forbidden City Music Hall. Meu grupo “Pife Muderno” que viajou comigo é um conjunto que alia flautas de bambu e metal a percussão brasileira e deixou a plateia chinesa em êxtase. A performance foi tão espetacular que resultou no CD duplo CARLOS MALTA E PIFE MUDERNO AO VIVO NA CHINA. A reação do público surpreendeu o próprio embaixador Clodoaldo Hugueney, que nos convidou como parte das atividades da embaixada brasileira. Foi um desses momentos mágicos.

Frederico Machado – A música instrumental brasileira possui uma sofisticação que funde o impressionismo harmônico europeu, a síncopa e o polirritmo africanos e a melancolia indígena. Você acredita que o Brasil de hoje ainda exerce aquela “antropofagia cultural” proposta por Oswald de Andrade, ou nos tornamos consumidores passivos de estéticas globais pasteurizadas.
Carlos Malta – Em 2012 eu com meu Pife Muderno fomos tocar nos EUA, em Nova Iorque, no CARNEGIE HALL, era um festival com curadoria do Gilberto Gil, que é fã da nossa banda. Estávamos mostrando esse Brasil que resiste, original e originário, impactando a plateia com uma vibração musical de qualidade e espiritual.
Frederico Machado – Com o projeto Coreto Mudernoe o Pife Muderno, você trouxe a música de raiz e a tradição do sopro nordestino para o ambiente urbano e contemporâneo. Qual é o limite ético e estético para dialogar com o folclore sem cair no purismo estéril de museu e, ao mesmo tempo, evitar a estilização caricata ou mercantilista?
Carlos Malta – Sou um pintor musical, meus grupos Coreto Urbano e Pife Muderno são pinturas vivas que trazem e traduzem um espírito coletivo com indivíduos que se destacam, personagens que tocam o coração da plateia. Temos que ser autênticos para não cair na caricatura, deixar o seu critério de bom gosto e bem feito, o resto é consequência.
Frederico Machado – O Brasil é frequentemente diagnosticado por historiadores como um país que sofre de amnésia crônica e institucionalizada. Assistimos ao descaso com acervos, ao apagamento de velhos mestres e à ditadura dos algoritmos nas plataformas digitais. Como intelectual da nossa cultura, você enxerga esse esquecimento como um acidente de percurso ou como um projeto político estruturado de desmonte identitário?
Carlos Malta – Vejo por outro angulo com publicações e projetos dedicados a grandes mestres sua obra. Vivemos num país diverso e muito disperso, o som da massa é “ bancado “por coisas que se utilizam da música para lucros imediatos e vendas de shows superfaturados, isso é business, nada a ver com arte ou cultura. Temos que informar e formar novas plateias, trazer a boa mpb pras juventudes , revelar a música dos povos originários. O Brasil não conhece o Brasil … é preciso conhecer!

Frederico Machado – Essa falta de pontes oficiais de memória ameaça diretamente a renovação do público e a formação das novas gerações de músicos. Você teme uma fratura exposta na árvore genealógica da música brasileira, onde os jovens percam completamente o cordão umbilical com a nossa era de ouro (Pixinguinha, Moacir Santos, Baden Powell)?
Carlos Malta – Existe uma parcela da juventude que está antenada. Vejo grandes talentos hoje com as redes mostrando que nada está parado, tudo se move rapidamente. Dia desses vi o Rafael Beck, jovem flautista da pesada, dobrando um vídeo comigo nos tempos do Hermeto, o “Frevo novo”, que música difícil!! O Rafael tocou cada notinha !! Fiquei imaginando o percurso dele pra aprender essa música. É tempo, horas de escuta e pratica, muita pratica! Não tem truques, é ralar pra tocar bem, em qualquer geração, não conheço um grande artista que faça diferente disso.
Frederico Machado – Para encerrar, Malta: diante deste cenário de asfixia mercadológica, dispersão digital e apagamento histórico, qual é a missão política do seu sopro hoje? O que move o “Escultor do Vento” a continuar resistindo, ensinando e subindo nos palcos?
Carlos Malta – Desejo seguir “esculpindo o vento” encantado e encantando, com a Música a me guiar,pois tenho fé e ela não vai falhar! Nunca falhou, essa é nossa reza, nossa missão, nossa meta é fazer a beleza brotar onde não se vê, é revelar as surpresas que a arte tem pra dar. Sigo minhas intuições e minha antena que me levam a percorrer caminhos que só o som pode me levar. Quem me ouvir, sentirá!