Pode parecer paradoxal: Nosso segredo, de Grace Passô, vencedor do recente Festival de Gramado, trata essencialmente de luto, mas é um sopro de vida e frescor no cinema brasileiro atual.
Uma sinopse crua, mas enganosa (como todas), diria que é a história de uma família negra de classe média baixa, ou de trabalhadores remediados, que lida com a perda prematura e repentina do pai. Enquanto cada um dos membros elabora essa falta à sua maneira, a própria casa, na periferia de uma grande cidade, parece se manifestar, apresentando crescentes rachaduras, vazamentos de lama, tremores, panes na eletricidade, ruídos estranhos.

Mas não se trata de um filme convencional de terror, onde essas coisas acontecem por algum motivo sobrenatural. Aqui, é como se a casa catalisasse e materializasse o que está no interior dos personagens e eles não conseguem expressar. É, de certo modo, a erupção do segredo guardado e silenciado a que se refere o título. Tem mais a ver, talvez, com A queda da casa de Usher, de Edgar Allan Poe, do que com os filmes de sustos juvenis norte-americanos.
Nosso segredo trafega com desenvoltura e segurança por vários gêneros, ou antes, por vários ritmos e tons dramáticos. Começa com uma conversa filosófica e um tanto misteriosa num carro de aplicativo, entre o motorista Gilson (Robert Frank), um dos filhos do falecido, e um passageiro idoso, igualmente negro (o músico, compositor e pesquisador baiano Mateus Aleluia).
Depois de deixar o passageiro em sua casa, na periferia, Gilson se vê encalacrado numa rua estreita, atrás de um caminhão de lixo. Mas esse momento de típica contrariedade urbana logo se converte em seu oposto quando Gilson põe para tocar o CD que o passageiro lhe presenteou. Ouvimos então (sem saber se está no disco ou se faz parte da trilha “extradiegética” do filme) Geraldo Azevedo cantando a delicada “Caravana”. Conjugada com os gestos amistosos e sorrisos enviados por um dos garis ao motorista quando o caminhão começa a andar, a música produz um momento de indefinível poesia, um laço humano fugaz, traduzido na luz oblíqua do final de tarde.

Um dos grandes méritos do filme, a meu ver, é o de não se fechar em explicações, não paralisar a pulsação da vida para transmitir mensagens ou declarações. Ao contrário, ele acredita na força de suas imagens, instiga o espectador a fazer sua própria leitura, mantém aberto o leque de possibilidades. É nisso, entre outras coisas, que Nosso segredo destoa da pegada didático-militante que tem prevalecido em nosso cinema.
Os temas do racismo e da desigualdade social afloram naturalmente, sem abafar os dilemas pessoais, as dores intransferíveis de cada personagem. Não são “tipos”, são indivíduos multifacetados, cheios de desvãos e arestas – como a casa, aliás. Estamos longe do simplismo maniqueísta das telenovelas e telesséries.
Na minha leitura parcial e provisória, a força motora, a chave mestra do que acontece na casa é a imaginação do menino Tutu (Efraim Santos), o caçula da família. Numa cena aparentemente de cotidiano banal, ele vê na TV um programa de vida selvagem em que se defrontam um hipopótamo e um jacaré. O jacaré acaba devorado. Em outra passagem, Tutu se serve do encanamento de PVC da casa para conversar com uma amiga imaginária, que talvez nem seja propriamente imaginária. Melhor seria dizer: uma amiga que a imaginação torna real.
Mas toda interpretação é redutora e tende a fechar outros caminhos possíveis. Como num filme de David Lynch, importam mais as sensações, o trânsito entre a realidade prosaica, a imaginação, o sonho, a memória. Cada sequência tem uma força intrínseca e irredutível, não está lá só para servir de elo narrativo.

O admirável é que Nosso segredo surgiu a partir do texto teatral Amores surdos, de autoria da própria Grace Passô, mas é puro cinema, na inventividade e precisão dos enquadramentos e movimentos de câmera, no uso sutil e pouco convencional do som e da música, na atuação enxuta das atrizes e atores (todos excelentes, do pequeno Efraim Santos ao veterano Mateus Aleluia).
Em seu primeiro longa-metragem, depois do curta República e do média Vaga carne, Grace Passô comprova que, além de grande atriz, é uma tremenda cineasta.