sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
ENSAIO

Sousândrade e a imagem desbotada

A vida irregular de Sousandrade, somada às viagens e todo o dinheiro “perdido” resultaria num personagem envolto em caráter duvidoso. O fato de viver sozinho, numa parte distanciada da cidade, local para onde levavam mercadorias roubadas ou então chegavam as contrabandeadas, ajudou a fomentar a ideia que ele vivia de atividades incertas, sugerindo seu envolvimento com empreendimentos obscuros / ilícitos.
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A vida irregular de Sousandrade 1, somada às viagens e todo o dinheiro “perdido” resultaria num personagem envolto em caráter duvidoso. O fato de viver sozinho na Quinta Victória, numa parte distanciada da cidade, local para onde levavam mercadorias roubadas ou então chegavam as contrabandeadas, ajudou a fomentar a ideia que ele vivia de atividades incertas, sugerindo seu envolvimento com empreendimentos obscuros / ilícitos. Relatos e interpretações literárias indicariam ilegalidades, e o envolvimento em negócios malsucedidos, projetos utópicos e possíveis especulações financeiras (nas tentativas de enriquecimento durante o período em New York), o que contribuiu para consolidar uma imagem insólita. Sousandra aparece como “desajustado” ou “excêntrico”, criando um campo semântico de suspeição. Neste cenário, a associação com o contrabando surgiria por insinuação, não como afirmação.

Em 1970, o professor Rubem Almeida confirma, em entrevista à F. Williams, que Jerônimo José de Viveiros, cuja irmã frequentava o colégio de Maria Bárbara (filha de Sousandrade), “barafustando certa vez por uma parte fechada que havia no último andar do sobrado, encontrou uma armação de madeira que descrita em casa, foi interpretada como sendo a famosa Manguda” (Williams, 1976, p. 257). O que era a Manguda? Em 10/06/1891, a seguinte nota é publicada na Pacotilha:

Sousândrade.

“Há tempos noticiamos que um guarda que fazia sentinela em um dos bancos da cadeia pública, foi alta noite assaltado pela aparição de uma mulher-phantasma que dando-lhe forte abraço, deixou-o quase fulminado, desaparecendo em seguida. Sonho, pesadelo, ou outra qualquer visão do espírito, certo é que a sentinela foi encontrada por terra, quando a foram render, e recolhida no hospital, faleceu dias depois. Acabamos de saber que anteontem a terrível Manguda deu novamente um ar de sua graça, aparecendo a outro pobre soldado, que fazia sentinela à noite no referido flanco da cadeia. Não sabemos se a pavorosa aparição abraçou desta vez o digno mortal, mas contam-nos que, como o seu infeliz camarada, foi encontrado em posição horizontal, quase gelado, a balbuciar um único nome: – Manguda! Recolheram-no ao hospital. Morrerá?” (Pacotilha (MA); ed. 158; 10/06/1891; p. 03).

Em tom satírico, essa notícia carrega informações sobre a aparição fantasmagórica surgida em meio ao breu que comumente tomava conta do Largo dos Remédios e adjacências, visto que os únicos “dous lampeões existentes na praia do Genipapeiro tem se conservado apagados, durante as noites do dia 8 deste mez em diante.”

A segunda aparição ganha nome: MANGUDA, graças às mangas compridas de sua roupa. Rapidamente, inaugura-se nos jornais uma série de comentários e poemas, relacionados à figura da Manguda. O primeiro localizado é A MANGUDA.

A MANGUDA
Era noite e já bem tarde,
Singrava as águas do Anil
Batel veleiro, apressado,
Chegando à praia subtil.
Saltaram fora os remeiros,
Descarregaram o batel
De fardos, mercadorias,
Prestes juntaram o farnel
Receosos caminhavam
Como se andassem a toa
Espreitando a sentinela
Postada junto à Gambôa.
Alerta estou! brada ela,
Quando a MANGUDA velhaca
Passou-lhe diante dos olhos,
Nas costas levando a maca.
Pobre soldado bisonho,
Aturdido e tresnoitado,
Viu crescer a bicha horrenda
E ficou desnorteado.
Não lhe valeu o comblain
Do sabre nem se lembrou,
Caiu prostado no chão
E não mais, - alerta estou!
A bicha apressando o passo
Pôs-se ao fresco, no seguro,
Galgando o alto ocultou-se,
Esgueirando-se junto a um muro.
O CABO DA RONDA
(A Cruzada; 17/06/1891; ed. 204, p. 02)

Ao transcrevê-lo, Jerônimo de Viveiros atribui sua autoria à Luís Domingues. A narrativa satírica desenvolve uma ação noturna, com uma embarcação aportando sutilmente, o que destaca a atmosfera tensa e clandestina. Desde quando “começou a aparecer lá para as bandas do Genipapeiro, nos terrenos da ‘Quinta Vitoria’, propriedade e residência do solitário poeta Sousândrade, o autor do ‘Guêsa Errante’” (Viveiros, 1964, p. 20), a Manguda foi associada a “uma farsa bem arquitetada” (Ibidem), oriunda das movimentações relacionadas ao contrabando que aconteceria às margens do rio Anil.

Mais do que uma lenda ou travessuras noturnas, a Manguda fazia parte de uma sofisticada operação, utilizada por estabelecimentos comerciais a fim de evitar as taxas alfandegárias das mercadorias vindas dos vapores ingleses. Atualmente figura clássica no folclore popular ludovicense, a Manguda surge em 1891, sendo rapidamente “estabelecida em diversos pontos da cidade… Brevemente faremos revelações importantes e então verão os nossos leitores como a Manguda é ousada…” 1. Em 1935, Domingos Barbosa lembra deste período:

“Tinha ela grande estatura e era chamada Manguda provavelmente devido á extensão das mangas do seu trajo, que, – diziam – a brisa da noite sacudia e fazia estalar. Murmurou-se muito que a Manguda conduzia da praia para um determinado estabelecimento comercial, – que assim, espantando e afastando curiosos, se furtava a pagar impostos alfandegários – mercadorias de contrabando, importadas em vapores ingleses, e mais, que ela não era senão um empregado do dito estabelecimento, que se fazia gigante, adaptando às próprias pernas outras de pau. E caluniadores ainda insinuavam que o ‘medo’ e a ‘fuga’ da guarda da Cadeia decorriam de prévia e rendosa combinação com a Manguda. D. B”. (O Imparcial (MA); ed. 5070B; 22/12/1935; p. 04)

Um dos maiores poeats do Brasil, o “execêntrico” e “desajustado” Sousândrade.

A Manguda transformou-se em sátira da impunidade das Instituições corrompidas, cujas fronteiras entre a legalidade e ilegalidades era bastante tênue e obliquas. Rapidamente, a figura da Manguda adquire proporções alegóricas nos jornais, passando a representar uma crítica mordaz às instituições públicas burocráticas e corruptas, além de denunciar a vista grossa da polícia diante da Manguda, circulando livremente:

“A bicha é tão ousada que nem mesmo as tremendas barbas da Polícia, respeita! Lá mesmo, ao lado de quem tudo pode, fez ela guarida! Costuma a cuja dar seus passeios, duas ou três vezes, por mez. Sem a menor cerimônia, atravessa o Largo de S. João, desce a rua da Paz e desaparece no Largo do Carmo. É em pequena escala, é, mas… mas… é Manguda!” 1

“…a Manguda não respeita nem mesmo aqueles que tudo podem! A bicha é das Arábias…” 2

“Há dias vejo sair uma, d’um certo cercado. Passando pelo Quartel da Polícia, o soldado que está de espingarda no ombro faz continência. Esta é boa! Será tenente ou capitão?…” 3

O professor Rubem Almeida nos explica como era a artimanha:

“…um preparo que faziam para pôr sobre os ombros de um escravo que transportava contrabando do navio que estava lá em baixo, passando pela frente da cadeia. (…) as balas que porventura eram atiradas contra isso, pensando que a atingiram no peito, não atingiam. Era armação de madeira. Agora, em baixo, na altura do homem, é que estavam os contrabandos.” (Williams, 1976, p. 257-258).

Muitos poemas foram escritos após a nota sobre a Manguda em 10/06/1891.  Todos assinavam (nomes verdadeiros ou pseudônimos), além de começar e terminar no mesmo dia. Exceto um extenso poema, publicado a partir de 30/06/1891. Para compreendê-lo, é necessário ler a provocação feita por um leitor do jornal A Cruzada, três dias antes:

“Só de uma cousa se fala com insistência: é da Manguda que ás deshoras faz medo ás sentinelas da Cadeia, vagando nas proximidades da Quinta Victoria. Se eu tivesse a certeza de ser atendido pelo autor do Gueza, pedir-lhe-ia que fosse alta noite observar o estranho fantasma, afim de ter assunto para mais um canto do seu poema. Um diálogo do Gueza com a Manguda seria de efeito surpreendente, não d’essa poesia de contrabando com que nos mimoseiam alguns poetastros, trovadores mesquinhos, a insultarem o luar com seus cantos desafinados e versos claudicantes, de um erotismo porco. Atenda-me o proprietário da quinta Victoria, ele que como poeta sabe honrar o seu posto, como tanto o recomendou aos empregados da nossa edilidade. – Gustavo Teixeira.” (A Cruzada (MA); ed. 212; 27/06/1891; p. 02-03, grifo meu).

A provocação de Gustavo Teixeira surtiu efeito: neste contexto, se dá a publicação do poema A MANGUDA- poemeto heroe-comico, logo após o desafio proposto. Sem assinaturas, é o único que continua por pelo menos quatro edições, ficando incompleto. Publicado nos jornais da cidade, este possível poema de Sousandra permaneceu oculto, perdido no tempo. A primeira parte já começa com o protagonista sousandradino:

A MANGUDA
(poemeto heroe-comico)
Scisma sosinho o Gueza. Alta a lua nos ceos
Atira pelo azul farrapos dos seus veos,
E a brisa ciciando, aromas e perfumes
Arrasta no passar, d’envolta com queixumes.
A hora é da visão d’espectral Manguda.
Phantasma colossal de forma dura, ruda,
De braços e de mãos e pernas e canelas
Que matam de terror as pobres sentinelas,
Espectro de feição e de porte formidando,
Aventesma real e não de contrabando.
Scisma sosinho o Gueza. Eis s’acerca a visão
E falla ao bom do Gueza em voz de rabecão
O poeta sente frio e treme não de medo
Ao ver o grão phantasma, a Manguda em segredo;
Ergue-se magro e alto, a juba sacudindo,
Em quanto a grã Manguda assim vai prosseguindo;
Vês que sou a Manguda, não sabes?
No porão eu nasci. D’um vapor,
Pelos mares caminho segura,
Uns soldados matei de terror.
Na tarifa não tenho logar,
O Virgílio ignora quem sou,
Té o Nunes a mim desconhece,
Nunca o fisco de mim se lembrou.
            Tu, ó Gueza, que vives sosinho,
            Boas carnes comendo já frias,
            Já de mim conseguiste o carinho,
            Já gostei de te ler as poesias.
Se soldados persigo, feroz,
É que são toleirões collosaes,
Medo, medo, porem minha voz
É cousinha que gera metaes.
            Vou-me embora já basta de prosa,
            Vou buscar umas roupas de lã;
            Só de noute trabalho zelosa,
            Não me veem andar de manhã.
E sosinho o poeta deixou o phantasma
Na sombra a sumir-se em verde mangal,
Soffrendo no posto accessos de asthma,
O Gueza erradio em mundo immortal.
                                   (Continua.)[4]

Quem repassa uma informação importante sobre a autoria deste poema é o colunista Joaquim Antônio, ao afirmar no dia seguinte que “Souzandrade, [andava] na sua constante meditação a respeito da Manguda”,[5] mostrando que o poeta compreendia a potência simbólica deste personagem, não somente como um produto folclórico, pois a Manguda passou a ocupar o imaginário intelectual da cidade, como símbolo das tensões entre autoridade e subversão.

A segunda parte foi publicada alguns dias depois, no mesmo tom:

A Manguda
(POEMETO HEROE-COMICO)
       (continuação)
Do mar soprando branda a brisa perfumada
Oscula a ramaria, ardente apaixonada,
E as aguas do Anil encrespando ligeira
Entôa um murmúrio, harmônica, feiticeira,
Recolheu-se o Gueza à casa, silencioso,
Sem medo da Manguda e todo pezaroso
De ver que há visões, espectros denodados
Nascidos de um vapor bem dentro dos costados.
Alem no mar de prata alveja branca vela,
Um barco que desliza, e vê-lo da janella
O vate que medita ainda na visão.
“É barco da Manguda” eis diz com convicção,
“É elle que nunca o fisco em lides encontrou.
“O bote qu’a tarifa alegre se roubou.
“É elle, sim, é elle, vejamos onde aporta.
De novo sahe o Gueza, à praia vai descendo
Enquanto o barco aporta, à margem se cosendo,
E pasma o vate a ver uns fardos e caixões,
Descarregando alli com muitas precauções,
À popa do barquinho, a Manguda lobriga
Feroz e carrancuda, audaz e inimiga.
Ella que o vê alli, prorompe em gritaria
E brada “Vai-te, ó Gueza! affoga essa poesia
“De tudo examinar em ancias de curioso.
“Em vez de valentão, quizera-te medroso.
“Vou dar-te um bom conselho: - Abre os teus ouvidos
“Escuta-me a lição com modos comovidos.
Das façanhas audazes, só minhas,
Muita gente já fama levou.
Accusada e estando innocente
D’umas favas que nunca bispou.
O que fiz, eu que sou a Manguda,
Só a mim, acredita, aproveita;
É preciso que saibas da cousa,
Cabe a ti pôr calumnia desfeita.
Dize ao mundo, em poema ou em prosa,
O que digo a ti mesmo em segredo,
És valente e á turba aleivosa
Conta o caso sem sombra de medo.
E não queiras também levar fama,
Te negando a dizer o que digo;
Mette a bocca sereno no mundo,
E eu conto na terra comtigo.
E cessou de falar a espectral visão
Emquanto estava o Gueza immerso em attenção,
Amigo da verdade, ouvindo a sua voz
Calumnia a fustigar, a calumnia atroz,
E disse altivamente: Escuta-me, ó visão,
Farei o que pediste. Estou com comichão
D’em pratos limpos por a tua bôa história;
Satisfeita serás, ó Manguda inglória,
E ao mundo ensinarei essa sabia lição.
Voltou p’ra casa o Gueza e fez uma canção.
(Continua)[6]

            A essa altura, o colunista Joaquim Antonio, visivelmente incomodado, volta a reclamar dos “tipógrafos cá da casa”, expondo ironicamente o ambiente da redação d’A Cruzada. Em tom de sátira e impaciência, admite “já não os posso aturar. De noite o Bumba do Sr. Bayma, a Manguda do Gueza e de dia estes endemoniados compositores”.[7] Ao nomear a “Manguda do Gueza”, não deixa dúvidas do vínculo entre o poema e a figura sousandradina. Este destaque insinua que a publicação havia se tornado um evento do jornal. Mesmo com o incômodo declarado, a terceira parte do poema é publicada poucos dias depois, reafirmando sua popularidade e a possibilidade de que a publicação estivesse sendo conduzida com prioridade, fortalecendo a ideia de que “A Manguda – poemeto heroe-cômico” possuía status, em razão da autoria ilustre.

A Manguda.
POEMETO HEROE-COMICO.
       (Continuação)
Em livre, bela estrofe, em verso burilado,
O Gueza fez vibrar a lyra, enthusiasmado;
A canção lhe brotou dos lábios sonorosa,
Um canto varonil e musa melodiosa,
E foi essa canção o que transcripto vai
Com vênia do auctor, dos versos terno pai:
Eu vi a Manguda no mundo correndo,
Soldados na terra de medo morrendo,
E eu sem medo;
Vi calumnias os homens manchando;
Com a mancha de mil contrabando
E sei o segredo.
            Sou quem sahe das cousas funereas,
            Sou quem vio Manguda, misérias,
                        Umas cousas de gosto;
            Não me aterram, porém, os espectros,
            Nem dos reis as corôas e sceptros,
                        Ficarei no meu posto.
            Deixem todas a bocca do mundo
            A cantar o vulto jocundo
                        Da Manguda atrevida;
            Eu desfaço as mentiras boatos,
            Da poeira limpando os sapatos
                        Na minha bôa vida.
            Não se zanguem commigo inocentes
            Os que levam dentadas dos dentes
                        Da gente invejosa;
            Cá estou a defesa a fazer-lhes,
            A justiça mandando dizer-lhes:
                        A fama é mentirosa.
            Vou á terra levar o descanço,
            Não me assustam cousinhas pequenas,
            A Minerva sagrei uns altares,
            A verdade direi n’esta Athenas.
Calou-se o puro Gueza, heroe das aventuras
A quem verso sorri e sorriem venturas,
Callou-se então o vate e um cuculo canoro
Começou a cantar, radiante e sonoro.[8]

Neste mesmo dia, foi publicada a seguinte nota, registrando com tom satírico e quase delirante o que pode ser considerado o auge da febre da Manguda na cidade:

“Ainda a Manguda: Pelo Cais da Sagração já circula a Manguda, com grande estupefação dos moradores dali e de um pobre burro que, a cochilar junto duma carroça, em um cercado pouco cheiroso, viu passar uns tantos caixões de bagagem da dita que, dizem, se veste com muito luxo. Aquele burro tem raiva do imposto em ouro que não o deixa dormir. Depois das sentinelas da cadeia – os burros.” (A Cruzada (MA); ed. 222; 10/07/1891; p. 03).

            O poeta não deixou escapar essa informação, e na quarta parte publicada do poema, incorpora explicitamente a cena do burro:

A Manguda.
POEMETO HEROE-COMICO.
       (Continuação)
Em alto casarão um velho pardieiro
Cantava o bom do cuco um canto, prazenteiro,
Um canto de ventura, um sonoro cantar
Cheios de trillos mil, d’um alegre trinar,
Tal como no Cassino a musica se desata
Em sustenido ou bemol, n’uma doce volata
Quando do amador o gosto musical
Explode n’um morceau sublime, festival,
E todos põem-se a ouvir e com attento ouvido
O concerto mavioso esthetico, divertido
Cantava o bom do cuco amena cançoneta
Dizendo ser da vida uma extranha pela
As cousas da Manguda e da feroz visão
Fallon d’esta maneira em divina canção:
            A Manguda foi sonho, senhores,
            Em Mangudas não creiam, por Deus;
            É pilheria do largo dos amores,
            A chalaça de bichos sandeus.
            Se Manguda existio algum dia
            No Palacio em que moro viveu,
            Foi contracto depressa desfeito
            E Manguda tristonha morreu.
            Não se occupem do pobre phantasma
            Que phantasma, coitado | se foi;
            Teve a sina de triste caipora,
            Não viveu como o bumba meu boi.
            Se a Manguda ainda vive, senhores,
            A rojar como roja o tatu,
            É sahir lá do largo de amores
            Ir á praia passear do Caju.[9]
            As deshoras na praia sinistra
            Surgem fardos e tristes caixões;
            A Manguda se ergue medrosa
            E n’um burro já deu empurrões.
            Pobre burro! Tristonho sombrio,
            Co’as orelhas em pé, bem acesas.
            Vio caixas surgir, preciosa,
            Um caixão encerrando miudezas.
            Como cuco que as cousas relata
            Fraternizo co’o burro, coitado!
            Por Manguda, na noute bem alta,
            Á somneca feliz arrancado.
            Não se pode viver n’este mundo
            Té os burros Manguda consome;
            Encarece o capim n’esta terra
            E burricos se matam de fome.
            Zoologista que sou de patente
            Compaixão vos imploro p’ra, os burros;
            Se não querem que o cuculo canoro
            Vá no canto imitar tristes zurros.
Calou-se o bom do cuco. Além na vasta praia
Do Cajú deserta a Manguda desmaia:
O cuco descobrira o segredo, a massada
E ficou a visão em tudo atrapalhada.
                        (Continua).[10]

Todos os fragmentos do poema seguem um tom irônico, carregado de intertextualidades (Virgílio, Minerva), alegorias mitológicas, sátiras e críticas sociais, recursos recorrentes na poética de Sousandra. O próprio personagem Gueza é retomado como interlocutor e observador da Manguda, sugerindo fortemente que tenha sido escrita por Sousandrade, que possuía o hábito de narrar acontecimentos reais em sua poética. Além do estilo dos versos, com uma cadência clássica misturada à oralidade irônica, expressões populares, inversões sintáticas e o uso de neologismos, elementos fortemente compatíveis com a poética sousandradina. Bem como os jogos meta-poéticos e a oscilação entre o épico e o grotesco, características da matriz criativa do autor d’O Guesa, poema que funciona como um porto ilegal do moderno: tudo entra, nada é declarado, e não há alfândega estética. Nesse sentido, Sousandra é o nosso contrabandista de línguas, gêneros literários e ideologias.

Considerando que a autoria do poema seja de Sousandrade, uma estrofe em especial o vincularia à Manguda (e aos contrabandos). Leremos novamente:

Se Manguda existio algum dia
No Palácio em que moro viveu,
Foi contracto depressa desfeito
E Manguda tristonha morreu.

A mensagem é explícita: Se existiu alguma Manguda, era na Quinta Victória que ela morava. Mas o contrato foi rapidamente desfeito. Mesmo assim, a relação entre o Guesa e a Manguda estaria selada no imaginário popular. Como afirma Rubem Almeida:

“…dá pra desconfiar que Sousandrade, de qualquer maneira, tivesse relação com os contrabandistas, que eram também de origem estrangeira. (…) por causa daquilo que vinha balançando e que alta noite passava, vindo do lado da Quinta da Vitória. Veja bem: de onde o navio estava ancorado, ficava próxima à Cadeia” (Williams, 1976, p. 258).

Embora houvesse a promessa de que o poema continuaria, esta foi a última publicação. O tema foi esfriando, ao mesmo tempo em que cessaram as aparições da Manguda (após o distrato?). O poeta pede que os leitores esqueçam da Manguda, pois ela não existe mais. Essa época coincide com o anúncio de sua esposa, Marianna, de que “teria cassado todos os poderes” concedidos a ele, como marido. É provável que o imbróglio matrimonial tenha sido uma preocupação maior para Sousandrade, naquele momento.

Entre 1892 e 1898, existem algumas referências esparsas à Manguda, sempre ironizando: “Porque será que os lampiões próximos das praias não se acendem? Respondam-nos a Manguda”.[11] Em 1899, o periódico ludovicense O Abelhudo acusa “que a Manguda anda passeado na praça do Comércio” e “que a Manguda atravessava ontem o apicum, que fica por traz da quinta do Medeiros”,[12] ou seja, a Quinta Victória de Sousandrade.[13] O Abelhudo continua fazendo referências às supostas aparições da Manguda até março de 1899, sempre em tom escarnecedor. Anos depois, jornais lembravam da “célebre manguda que há annos deu que falar na antiga ‘Quinta Victoria’, á praça da Justiça”,[14] acusando o total desaparecimento da dita, pelo menos até 1920. Mas essa é outra história… 

Referências
VIVEIROS, Jerônimo de. História do Comércio do Maranhão (1896-1934). São Luís: Associação Comercial do Maranhão, 1964.
WILLIAMS, Frederick G. Sousândrade: vida e obra. São Luís: SIOGE, 1976.
Jornais
A Cruzada – São Luís, (MA)
 A Pacotilha – São Luís, (MA)
O Abelhudo – São Luís, (MA)
O Imparcial – São Luís, (MA)
Publicador Maranhense – São Luís, (MA)

[1] A Cruzada; ed. 219; 07/07/1891; p. 03.
[2] A Cruzada; ed. 287; 28/09/1891; p. 03.
[3] Pacotilha, ed. 095; 23/04/1892; p. 03.
[4] A Cruzada (MA); ed. 213; 30/06/1891; p. 02.
[5] A Cruzada (MA);  ed. 214; 01/07/1891; p. 03
[6] A Cruzada (MA); ed. 217; 04/07/1891; p. 03.
[7] A Cruzada (MA); ed. 220; 08/07/1891; p. 03.
[8] A Cruzada (MA); ed. 222; 10/07/1891; p. 03.
[9] A “praia do Cajú” ficava bem próxima ao Largo dos Remédios, no centro de São Luís.
[10] A Cruzada (MA); ed. 226; 15/07/1891; p. 03
[11] A Pacotilha (MA); ed. 021; 25/01/1893, p. 02.
[12] O Abelhudo (MA), ed. 18; 05/02/1899; p. 02.
[13] Antes de Sousandrade adquirir a propriedade, em 1866, o local era conhecido como “Fábrica do Medeiros”.
[14] Pacotilha (MA), ed. 175; 25/07/1905, p. 01.

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