Com uma trajetória consolidada no cenário internacional, o artista visual maranhense Thiago Martins de Melo opera na vanguarda do debate contemporâneo sobre a decolonialidade e as poéticas da resistência. Sua produção recusa os limites bidimensionais da tela; nela, a pintura tensiona-se até a iminência da escultura e também para o cinema de animação, erguendo relevos e volumes onde a matéria se torna corpo político. Trata-se de uma obra atravessada por uma temporalidade anacrônica e urgente, onde os traumas do passado colonial e as fraturas do presente colidem. Longe de um exercício meramente contemplativo, o trabalho de Thiago é movido por uma cólera constitutiva — uma força estética e transformadora que reage aos apagamentos históricos estruturais.
Nesta entrevista reflexiva para a Revista Lume, o artista descortina o arcabouço intelectual, mitológico e sincretista que sustenta sua prática. Em um diálogo que cruza referências universais e ancestrais, ele nos convida a compreender a arte não apenas como representação, mas como uma trincheira epistemológica onde o tempo, a memória e a matéria se fundem.
Amigo pessoal, foi dele a arte visual do poster do longa-metragem As Órbitas da Água, que realizei em 2021 .Como eu, é filho de artista, convivendo com a arte desde criança. E é também maranhense. A entrevista foi realizada por telefone. Thiago estava em São Paulo, prester a abrir nova exposição.
Frederico Machado – Thiago, feliz que você seja o primeiro a ser entrevistado para esse novo projeto, a Revista Lume. Devido a nossa afinidade com o pensamento artístico e sermos de uma mesma cidade, acho que pode ser uma demarcação para a revista no futuro e um bom presságio. Um caminho sendo traçado para que seja uma revista de arte independente, com foco em autoralidade. Vamos lá: Suas telas trazem uma saturação cromática e uma violência gestual que recusam a domesticação estética eurocêntrica. Você enxerga o ato de pintar na América Latina contemporânea como um contra-ataque colonial, onde a tela se torna um espaço de disputa geopolítica e de cura espiritual?
Thiago Martins de Melo – Feliz também. Bom, acho que isso tem se tornado, pelo menos em parte, um discurso de uma esquerda identitária. Existe um certo contraste em relação a pintura europeia e a pintura dos trópicos ou do Sul Global, principalmente em relação ao Brasil, México, onde as cores são mais saturadas, onde movimentos como muralismo mexicano sempre foram muito políticos, já que essa é uma região de grande embate político. Agora isso não se viu muito na arte brasileira. A arte brasileira no século XX acabou tendo uma narrativa bastante ligada às elites. Tem movimentos bastante higiênicos até, bastante formalistas, inclusive o que se trata da pintura paulistana, que não acho que seja de modo algum uma representação do que seja a pintura brasileira ou na America Latina. Eu acho que quando eu comecei a minha produção, meu trabalho era meio alienista nesse sentido, porque ninguém pintava a figuração mais, entre os anos 1990 e 2000. A pintura era uma anti-pintura ou uma pintura essencialmente formal. Uma pintura que tratasse de narrativas que para muita gente era absurda. Ao mesmo tempo você tinha uma pintura muito forte e vigorosa na Europa, principalmente na Alemanha, nos anos 2000 com a Escola de Leipzig que tinha muita cor, muita força. Então acho que isso é um pouco relativo. Isso tem muito mais a ver com narrativa política e desejos nossos de que a arte tivesse mais relacionada com a arte de um povo. Eu tenho isso como uma questão moral, de ética, de maneira de pensar o mundo através do meu trabalho. Eu não acho que a arte tem que ser qualquer coisa. Arte é o que se entra em contato e eu, como artista, tenho naturalmente essa necessidade de tratar coisas que estão ao meu redor, que fazem parte da minha vida e de que eu possa interferir diretamente nisso. E a arte se dá no momento que eu encontro o público, que de alguma maneira, bem ao mal, entra em contato com esse conteúdo. Com relação a cura eu não tenho essa visão tão otimista. Eu acho novamente esse discurso identitário, que fala da colonialidade. Eu sou anti-colonial. Eu sou marxista-leninista então para min é uma questão mais de luta do que de cura.

Frederico Machado – Você transita frequentemente entre a bidimensionalidade da pintura e o volume da escultura. Como essas duas linguagens se tensionam no seu processo? A escultura surge para dar corpo ao que a tinta não consegue reter, ou a pintura é que tenta achatar uma realidade tridimensional?
Thiago Martins de Melo – O meu trabalho sempre teve uma relação forte com essa questão da pintura expandida. Então sempre teve essa coisa da base ser a pintura, mas ela se expandia tanto no espaço quanto no tempo, no caso das animações stop motion, de pintura. Isso também vem de referências e de um período onde eu me formei como artista, onde a pintura expandida era um conceito bastante forte dentro da pintura que existia. Então transformar e trazer essa urgência, trazer a imagem ou esse mundo, esse universo, para fora da janela e para esse mundo, para essa realidade que nós compartilhamos na realidade tridimensional e com essa outra dimensão que é o tempo, isso é muito importante. Muito comum no meu trabalho. A própria pintura mesmo, quando ela estava na bidimensionalidade, ela já tem uma relação de camadas de texturas que leva esse trabalho a uma tridimensionalidade. Quer dizer, pra isso daí se tornar uma relação de escultura, e mesmo da animação, dos filmes de stop motion, de pintura, foi um passo rápido. E isso se deu principalmente depois que eu comecei a me dedicar exclusivamente à arte, e ao que eu faço nos últimos, sei lá, 15, 16 anos, que é me dedicar completamente a esse ofício. E daí essa transição e essa relação de fronteiras e de limiares entre dimensões, ela se libertou totalmente, ela se concluiu. Mas eu continuo trabalhando nisso.
Frederico Machado – Quando você migra da pintura para o cinema de animação em stop motion, a imagem estática ganha tempo, ritmo e narrativa. Que correntes cinematográficas — pensando no experimentalismo, no Cinema Novo ou no cinema marginal — alimentam a sua sensibilidade como realizador?
Thiago Martins de Melo – É, talvez essa seja a pergunta mais complexa de falar: referências. O meu interesse na animação do stop motion, ela não vem só da arte contemporânea. Existem muitos artistas, um exemplo talvez mais conhecido, seja o Kentridge, de artista contemporâneo que trabalha com o stop motion, também faz filmes pequenos, curtos, stop motion. Mas o meu interesse por narrativa visual, ele se estende ao cinema e as grafics novels, as histórias em quadrinhos também, quer dizer, novelas gráficas, a própria literatura. Eu vou te falar que muito da animação experimental que a gente vê no século 20 foi uma grande influência. Você vê muita coisa de material soviético, você vê muita coisa também da história do cinema, da época dos cinematógrafos. Você vê muita coisa do cinema mudo, quer dizer, eu acho que o tempo em que o cinema não estava tão inundado por uma espécie de formato que hoje a gente tem tanto no mainstream como também no cinema autoral, eu acho que aquilo que ainda não estava muito formatado, você vai ver isso no expressionismo alemão, algumas coisas assim da história, eu acho que isso me influencia mais porque eram caminhos, digamos, radicais no sentido, de que todo começo de uma linguagem, ela está muito ligada ao que é essa raiz, esse começo, então as possibilidades são inúmeras, eu acho que isso me atraiu mais. Agora assim, o Brasil também tiveram cineastas e teve um cinema que também me chamou, sempre me atraiu muito, né? E aí eu vou dizer, a figura do Glauber Rocha, principalmente daquilo que se trata do ímpeto experimental dele, e aí eu não estou aí julgando toda a sua produção, mas alguma parte da sua produção, e essa coisa dele de pensar o cinema também como som e imagem, quer dizer, os meus filmes não têm diálogo também, mas boa parte da animação do século XX também não tinha, se você ver as transições experimentais, quer dizer, ainda existe aí um caminho, eu sempre me interessei também muito pelo próprio cinema do Leste Europeu. Você vê o Zulawski, que é um cara que eu gosto muito. Aí a gente vai pensar também no cinema mais ocidental, o cinema de Cronenberg sempre foi uma referência, quer dizer… Mas eu não vejo diretamente a ligação desses artistas, desse cinema, diretamente no meu trabalho, eu acho que tudo isso é uma míriade de referências de um universo, às vezes, mais, digamos, narrativo, de simbólico, do que necessariamente estético. Por exemplo, quadrinho, eu sempre fui muito influenciado por quadrinho europeu, quadrinho marginal brasileiro, underground, então tudo isso sempre me fascinou. Porque o que me interessa como artista visual, isso é uma coisa que nas artes visuais a gente pode se dar o luxo, é experimentar e tentar e sempre poder trabalhar com limites, limiares. E esse aspecto de buscar algo que seja radical faz parte da produção de arte contemporânea, apesar de que cada dia a mais a gente tem visto que o mercado tem tomado cada vez mais força e a gente tem visto uma produção muito orientada para a questão mercadológica, que é uma desgraça, infelizmente. Cada vez que um artista se rende a esse discurso, é a arte que morre no meio do caminho. É a possibilidade da liberdade artística, ela vai indo cada vez mais pro ralo. Mas eu te digo que a minha influência no cinema de animação stop motion, ele vem de toda parte. E basicamente do cinema, da animação experimental, da história do cinema, até mesmo do cinematógrafo, dos experimentos de animação do final do século XIX, quer dizer, tudo aquilo que está em limiares, sempre me influenciou.

Frederico Machado – Suas obras possuem uma cadência quase musical, uma polifonia de elementos que operam em sobreposições. A música entra no seu processo criativo apenas como um catalisador de estados de espírito no ateliê ou você a utiliza como uma estrutura formal para ditar o ritmo e a velocidade das suas pinceladas?
Thiago Martins de Melo – Olha, eu vou te falar que a música é importante pra mim fora da pintura. Acho que é uma linguagem que eu tento até fugir um pouco dela quando eu produzo. Eu vejo minha obra mais em silêncio. Na verdade eu vejo um barulho forte nela, mas não é um barulho, eu não sei, não é sonoro o negócio, está entendendo? Eu sinto sim, quando vejo imagens eu lembro de som de tambor, de guitarras atonais, eu sinto algumas coisas de notas, mas isso está no campo mais do sensível, do que necessariamente eu buscar ouvir doom trabalhando. Eu não ouço progressivo trabalhando. Então assim, eu lembro de uma frase do Miró, muito louca, acho que era conversando sobre Jean Genet, com o Dali. Eu não sei se eu estou equivocado, mas era uma conversa com o Dali, o Miró dizia que ele nunca recorria a música quando ele estava querendo criar, que ele preferia bater a cabeça na parede várias vezes até que uma ideia viesse a recorrer a música. Tudo bem, deve ter falado isso de bom humor e até com uma imagem mais drástica, mais dramática, para explicar a relação entre a música e a arte. Mas muita gente utiliza. Acho que a música também te leva a um estado de espírito. E aí eu acho interessante, na pré-produção ou quando você está buscando uma imagem, está estudando, ela pode ser um caminho pra isso. Mas te digo que quando eu estou produzindo, eu recorro muito mais a, sei lá, estou escutando tipo livro, audiolivro, sabe, tendo espécies de aula de línguas. Eu sei que tem gente que trabalha com essa linha de performance e pintura, mas aí eu acho que é uma outra coisa, mas a ver com a questão gestual já do processo de pintura mesmo. No meu caso não, no meu caso não. Inclusive o modo como eu pinto às vezes pode parecer até confuso para quem está de fora, porque como eu trabalho com composições muito grandes, às vezes eu estou mexendo aqui, eu paro. Eu vou mexer aqui, às vezes eu trabalho com três obras e saio de uma pra outra. Às vezes não tem uma cadência racional. Então eu acho que eu fico um pouco com o Miró, sabe? Não de bater a cabeça até sangrar, mas de não recorrer muito a música pra isso. Agora, nos meus filmes, eu sempre tive a sorte de recorrer a pessoas que são compositores e músicos de primeiro gabarito, sejam marenhenses, ou seja, aqui de São Paulo, seja de qualquer outro lugar, ou do Rio, por exemplo, como foi o meu último filme, pessoas incríveis que fizeram produções maravilhosas em minhas obras. E eu sempre deixo, meio que, são pessoas que eu já conheço a produção, então eu deixo, meio que entregue a obra, pra que essa seja uma contribuição real. E eu basicamente apenas direciono uma outra coisa, daquilo que eu não gostaria que a minha obra tivesse, porque eu também sou chato com isso. É… eu sou chato com algumas coisas de sonoridade, né. Música é uma coisa que me é muito caro e eu não gosto de que a minha obra tenha uma musicalidade que não tenha a ver com o meu trabalho. Então todos os meus filmes têm uma musicalidade aprovada por mim nesse sentido e que… aprovada no sentido de que, puta, muito bom, eu já escolhi as pessoas por afinidade. E eu acho importante. Porque eu acho que o meu filme especificamente precisa de som, ele é imagem e som, basicamente.
Frederico Machado – Há uma dimensão ritualística muito forte na música ancestral e popular que se conecta diretamente com o transe. Você busca que o espectador, ao confrontar suas pinturas e instalações, atinja esse mesmo estado de suspensão e arrebatamento que a música sacra ou de matriz africana proporciona?
Thiago Martins de Melo – É paradoxal dizer isso, você produz e a arte se dá em contato com o outro, porém você não produz para o outro. Pode parecer, mas é assim que a arte funciona. O artista ele não produz para o público. Ele espera o público, o público vai estar lá, mas ele não produz para esse público. Eu espero que as pessoas tenham sim, uma experiência de encontrar imagens que ressonem no seu inconsciente, na sua vida. Que esse trabalho tenha um diálogo, seja de repugnância, seja de aceitação, que essas imagens não passem incólume. Eu acho que a coisa que eu menos gostaria. Isso é uma preocupação que eu tenho, de criar imagens que enriqueçam o imaginário coletivo, que tenham uma ressonância no dia a dia, no cotidiano, na maneira de enxergar o mundo. E aí é a minha parte, digamos, utópica, imaginar que a minha obra de alguma maneira possa enriquecer o vocabulário visual das pessoas, o arcabouço visual das muitas pessoas. Com relação a transformar, isso já aconteceu de pessoas me falarem isso, mas aí isso está além da minha obra. Eu não tenho isso como objetivo. Eu acredito até, dos meus estudos de magia, por ter minha ligação com o ocultismo e a mão esquerda, que signos tem uma importância no mundo. Que o verbo ele é a manifestação do desejo. Que a imagem ele é o sigilo, o signo, ele é a manifestação do desejo nessa realidade. Ele é um código. E que quando uma pintura ou uma imagem é dita, ela também está representando uma amálgama de emoções, de significado, e quanto mais contato esse signo, essas imagens, esse signo pictórico tem em relação a outros indivíduos que a estão vendo, isso vai se alimentando uma egregora. Isso eu acredito totalmente. Agora, se a pessoa vai estar em transe, bom, eu acho que isso tem mais a ver com um indivíduo. Eu não busco isso. Eu busco manifestar a minha vontade no mundo, e a arte é a manifestação da minha vontade no mundo. Apesar de que eu ainda estou tentando buscar o que é a minha verdadeira vontade, assim como muita gente nesse mundo. E eu acredito que a arte vai me levar a isso. E ela me leva a isso, de pouco a pouco, através do meu trabalho. Quando existe indivíduos sensíveis, tem uma ressonância do signo a qual eu desenvolvi com suas verdades, é meio possível que essas pessoas tenham uma espécie de catarse. Isso ocorre no cinema, isso ocorre no teatro, isso ocorre na música, e também nas artes visuais. Então, alguém se emocionar com um trabalho, entrar talvez num estado de transe, pode ocorrer. Acho que na manifestação artística geral, de qualquer linguagem, no cinema, na música, no teatro, sabe, nas performances, isso é algo que pode ocorrer. Mas isso está além da minha obra, não tem a ver comigo, isso não é algo que… isso não é algo que é intencional. Eu nem creio tanto nessa possibilidade, sabendo que ela é possível sim, mas não é uma intenção da minha parte.

Frederico Machado – Ao expor em grandes centros do hemisfério norte, você sente que o seu trabalho opera como uma espécie de “antropofagia às avessas”, levando a cosmogonia e a denúncia do Sul Global para tensionar os próprios espaços que historicamente colonizaram a nossa visualidade?
Thiago Martins de Melo – Olha, eu acho que apesar do avanço da extrema-direita no mundo, ainda é muito aberta a discussão sobre isso. Eu tento fazer isso a partir do meu próprio caminho, e eu sempre tive uma boa repercussão acerca da minha obra nesse sentido. Referindo-se àquilo que a gente fala sobre o Brasil. Isso não tem nada a ver com curadores brasileiros, não tem nada a ver com isso, isso tem a ver com a minha obra no exterior. Tanto que o interesse, pra até uma certa legitimação do meu trabalho, antes do Brasil, se deu por curadores estrangeiros. Se deu por Bienal de Lyon, se deu por exposições que eu fiz na Europa, antes do Brasil saber quem eu era. Então, existe infelizmente uma coisa no Brasil que é de você ainda ter que se firmar. E lá fora, se você tem uma obra que se diferencia daquilo que é dito como arte brasileira. E engraçado é que hoje, depois de todo esse processo, existe um monte de artista que me tem como referência, mas não cita o meu nome, lógico, porque eles têm quase a minha idade, então eu compreendo muito bem isso. Mas é que existe essa coisa também de você não se encaixar naquilo que é o modelo do que eles querem de artista no Brasil. Então eu acho que lá fora eu sou um latino, entendeu, eu sou um artista latino tratando dessas questões. Lá fora eu sou um intelectual da pintura. Lá fora das artes visuais brasileiras, lá fora, sobre qualquer tema que eu quiser, posso falar e ser respeitado. Lá fora existe um respeito, estou falando da Europa, um respeito pela voz do artista. E eu não vejo esse respeito no Brasil, eu vejo uma manipulação muito forte de curadores fabricando artistas, de galerias fabricando artistas, então o que eu posso te falar é que é uma experiência muito boa no exterior. Lógico, já ocorreu do público, e aí já é público mesmo, censurar um trabalho. Eu fiz um trabalho na Bienal recente na Suécia, foi na cidade de… ai, agora não esqueci, não, porra. Porra, esqueci. Do lado de Gothenburg, é… puta… Boras, é Boras, da Bienal de Boras, que é do lado de Gothenburg. Grupos neonazistas de extrema direita jogarem tinta preta no mural que foi comissionado pelo pela Bienal de Boros para mim. Então eu fiz um mural grande que tratava do universo da quimbanda, da espiritualidade, falava de guerra, de muita menção a guerra religiosa principalmente no Oriente Médio, e ao mesmo tempo da religião do imaginário… De uma religiosidade ativa marginal que é a quimbanda brasileira, que é uma religião de guerra, de mão esquerda. E isso levou a uma radicalidade de um público, de tomar ação e jogar tinta preta. Mas eu fui amplamente apoiado pela comunidade artística e local. Mas são exceções desse tipo de coisa que ocorre em qualquer lugar. E isso é ótimo porque mostra que o trabalho está causando discussão. Isso ativa o trabalho. A sociedade tem opiniões diferentes. Existem. Os indivíduos de ação, indivíduos de ação tanto para o bem quanto para o mal, sem querer ser moralista, mas enfim, usando essa analogia. Esses indivíduos resolveram jogar tinta preta. Foi a maneira que eles tiveram de ação, de prejudicar o mural. O mural foi restaurado logo em seguida e continua lá. Então só para te falar.. Mas em geral, vem mais de um público do que de uma elite artística, qualquer tipo de tensão. E essa tensão é aceita como parte da obra. Então eu vou te falar que eu nunca sofri nada nesse sentido. Pelo contrário, eu sempre tive muito boa experiência e sempre fui muito querido nesse sentido da minha trajetória no exterior mais do que do Brasil.
Frederico Machado – Sua mostra recente trouxe uma explosão de tons incandescentes. Essa ‘cólera’ que dá título à exposição é um sentimento destrutivo ou, pelo contrário, uma energia vital necessária para a refundação do mundo através da arte?
Thiago Martins de Melo – Ah, esse foi um título dado pelo curador Germano Dushá, eu acho que ele fala de cólera. Eu acho que isso tem a ver tanto com a questão do caráter expressivo do trabalho, tanto com relação à temática política e de fogo que existe a obra, quanto na espiritualidade, que é uma espiritualidade de mão esquerda, com a quimana, com a espiritualidade de luta, que tem o elemento do fogo muito forte. Porque foi uma exposição retrospectiva que o Germano fez, então assim, todas as obras que ali estavam eram obras de vários momentos distintos da minha carreira, tinha obra de 15 anos de carreira. E fez esse recorte. E quando ele fala de cosmogônio colérico, isso também tem um pouco a ver com a maneira como o meu próprio pensamento de formação do mundo, que é bastante gnóstico, no sentido da compreensão gnóstica do caos. Antes da criação, antes da formação de um mundo, que aí vem para um pensamento judaico-cristão gnóstico, vamos dizer assim, que é considerado herético, que também tem envolvimento nisso. Então, acho que ele acabou trazendo esses dois caminhos, de uma formação de um mundo que tem, lógico, a minha terra, que é o Maranhão, a América Latina, a América do Sul, como o ponto central, afinal de contas, todo artista é centrado em si mesmo em relação ao mundo, e o meu ponto é esse. O mundo onde nasci e por isso que tem tanta homenagem. Tem até duas obras, por exemplo, dedicadas à Dona Tereza Légua, que é um espírito de Codó, que me auxiliou muito na minha vida. É minha mãe espiritual maranhense, é um espírito. Muito poderoso, muito cultuado na região do Maranhão, da Amazônia e do Piauí e até em São Paulo. Eu acho que esse título tem mais a ver com essa união de coisas, que o Germano, essa tradução do Germano desse universo meu, e eu acho que ele está correto. Minha obra é feita, de certa maneira, de uma cólera produzida com fogo. Existe uma oração que a gente faz no Maranhão que fala do fogo. Que o fogo é o portador das transformações. Que ele também é o destruidor do mundo, mas ao mesmo tempo em que ele pode destruir o mundo, ele também cria as revoluções, ele cria as mudanças. Ele está falando do elemento fogo como transformador, como aquele que dissolve, que consome aquilo que tem que ser consumido. Mas que também é a base para as transformações do mundo. Sem o fogo não tem civilização. E com o fogo também se destrói civilizações. Então tem isso também, é uma coisa mais para se pensar.
Frederico Machado – O filósofo Walter Benjamin falava sobre o conceito de “tempo de agora” (Jetztzeit), um momento em que o passado e o presente se chocam para abrir uma fenda revolucionária. Olhando para a totalidade da sua produção artística até aqui, você sente que a sua arte busca esse estalo no tempo? O que você espera que reste na retina e na alma do espectador quando as luzes da galeria se apagam?
Thiago Martins de Melo – Eu acho que sim. Bom, primeiro que o tempo pra gente é uma grande ilusão, né? A gente tem a noção de que vive num momento onde enxergamos o agora, mas esquecemos que o agora é produto de um passado recente e a base de um futuro que aí vem. Então a gente vive preso de certa maneira em uma bolha que compreende como se a gente tivesse isolado de certa maneira de algo que veio antes. Eu não gosto de ficar olhando muito pra trás. Quando penso história, eu não estou olhando com saudade. Eu estou olhando o que que está ocorrendo hoje, porque eu tento me manter no presente, pra que eu tenha poder, e certo poder de decisão das coisas que vão ocorrer no meu futuro. Mas eu mantenho o olho atrás com uma maneira de análise. Eu tenho muito cuidado com isso. Eu não alimento saudosismos e nem lamentações. Isso pra mim é deletério. A gente olha para frente e olha para o agora. A gente olha para o agora, na verdade. Então, a minha obra, ela tenta também mostrar um pouco isso, que o passado, o presente e o futuro, só agora, que tudo aquilo continua. Que o fato de uma revolução ter ocorrido há tanto tempo, as reverbeações de hoje, mostram que ela continua em ação. Que o fato de ser fruto de um processo de violência no passado, ele continua em ação hoje. Porque nós continuamos tratando das mesmas questões. Quem nós somos como civilização? O que é essa civilização nova? O que é ser sul-americano? O que é fazer parte sul-global? O que é ser Brasil? O que é ser Amazônia? O que é ser Maranhense? Quer dizer, a gente tenta entender dentro de uma construção de história que é determinada pelo tempo, que esse tempo às vezes também é utilizado como maneira de nos alijar dessas questões. E a pintura, ela vem como meio de mostrar, é só, cara, tudo ocorre agora. Essa talvez seja uma das coisas mais simbólicas da pintura, como você mesmo colocou nas perguntas anteriores. Ela é essa linguagem de tudo que ocorre agora. Tudo ocorre agora. Não tem passado, não tem futuro, não tem um presente dentro do tempo da pintura. Ela existe agora. Uma pintura realizada no século 16, século 15, ela continua agora, ela está viva agora também. E o rosto daquele indivíduo, de um indivíduo que ali vê o outro indivíduo representado, ele está em comunhão com ele, como se fosse o agora, assim como no cinema, assim como na literatura. É possível compreender a visão de um escritor, a visão de um mundo, a maneira como ele compreende a humanidade, a partir dos seus escritos, que podem ter sido escritos há 3 mil anos, há 2 mil anos atrás. Do começo da nossa literatura, da nossa cultura ocidental com os gregos, por exemplo. O tempo inteiro tem um recorte e eu utilizo essa ideia também em termos espiritualistas, como reencarnação, por exemplo, para mostrar uma mesma figura agindo da mesma maneira em vários tempos diferentes, com corpos diferentes, com gênero diferente, como ocorreu em meus filmes anteriores. Então, eu acho que é isso.
Frederico Machado – Para fechar: se a sua pintura — com toda a sua densidade de cinema, música e mito — fosse uma única palavra ou um manifesto para as próximas gerações de artistas latino-americanos, qual seria?
Thiago Martins de Melo – Olha, uma única palavra para mim… é tão difícil, cara… eu… eu não sou um sábio, sabe… sábio para mim é aquele cara que consegue… é aquele cara que consegue resumir… sintetizar… uma verdade e um signo… um ideograma… uma cor… sabe… eu não sou esse cara… eu sou o cara do caos… eu sou o cara do… do barroco… sabe… que tenta encontrar forma… e razão… no caos… mas eu vou te dizer que a única palavra que me passa é a palavra do ímpeto inicial de tudo… e para mim tudo, tudo, tudo começa com uma centelha… que é uma centelha de energia… que é uma centelha… é o fogo… eu acho que… é a partir do fogo que as coisas vêm… quando você encontra o fogo… o teu fogo interior… a tua chama… que a gente chama a chama negra. Que chamam que está chamando de Ti, que é o fogo, isso tem que ter. E que toda obra ela tem que ter essa centelha escondida. E essa centelha escondida ela é encontrada por aquele que tem olhos para ver, ouvidos para ouvir, tá entendendo? Esse que tem ouvidos para ouvir e olhos para ver, é esse cara que vai encontrar a centelha na obra. Que é aquela parte de Ti que ficou nela. Então eu vou dizer que é fogo. Acho que seria essa palavra, a palavra seria fogo.
Principais exposições individuais de Thiago Martins de Melo:
“Cosmogonia Colérica”, curadoria de Germano Dushá, Fundação da Memória Republicana Brasileira e Chão SLZ, São Luís, Maranhão, Brasil (2025); “Revoluciones en Relieve: Nuevas Obras de Thiago Martins de Melo”, curadoria de Royce W. Smith e Jorge Antonio Fernández Torres, Museo Nacional de Bellas Artes/Arte Universal, Havana, Cuba (2024); “Resistência”, curadoria de Gunnar B. Kvaran, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, Brasil (2023); “Necrobrasiliana”, curadoria de Denise Mattar, Museu Nacional da República, Brasília, Brasil (2019); “Bárbara balaclava”, curadoria de Moacir dos Anjos, Fundação Joaquim Nabuco, Recife, Brasil (2016).
Participou de inúmeras exposições coletivas no Brasil e no exterior, destacando: “Amazonia Açu”, Americas Society, Nova York, EUA (2025); 1ª Bienal das Amazônias, “Bubuia: Águas como fonte de imaginações e desejos”, MAMM – Museo de Arte Moderno de Medellín, Colômbia (2025), Chão SLZ, Maranhão, Brasil (2024) e Centro Cultural Bienal das Amazônias, Belém, Pará, Brasil (2023); 8ª Borås Art Biennial, “Layers, Loops, Lines”, Borås Art Museum, Borås, Suécia (2024); 38º Panorama da Arte Brasileira: “Mil Graus”, MAC/USP – Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, Brasil (2024); “Remedios: Where new land might Grow”, C3A Centro de Creación Contemporánea de Andalucía, Córdoba, Espanha (2023); “Atos de Revolta: outros imaginários sobre independência”, MAM Rio – Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (2022); 3ª Frestas – Trienal de Artes, “O rio é uma serpente”, SESC Sorocaba, São Paulo, Brasil (2021); “Queermuseu – Cartografias da diferença na América Latina”, Santander Cultural, Porto Alegre, Brasil (2017); “Panoramas do Sul, 20° Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil”, São Paulo, Brasil (2017); 12ª Biennale de Dakar, “The City in the Blue Daylight”, Dakar, Senegal (2016); “New Shamans: Contemporary Brazilian Arts from the Rubell Family Collection”, Rubell Museum, Miami, EUA (2016); “Soft Power: Arte Brasil”, Kunsthal KAdE, Amersfoort, Holanda (2016); “Histórias da Infância”, MASP – Museu de Arte de São Paulo, São Paulo, Brasil (2016); “The World is Made of Stories”, Astrup Fearnley Museum of Modern Art, Oslo, Noruega (2015); 10ª Bienal do Mercosul, “Mensagem de uma Nova América”, Santander Cultural, Porto Alegre, Brasil (2015); “Imagine Brazil”, DHC/ART Foundation for Contemporary Art, Montreal, Canadá e Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil (ambas em 2015); Musée D’art Contemporain de Lyon, Lyon, França (2014) e Astrup Fearnley Museet, Oslo, Noruega (2013); “The Poetry In Between: South-South”, Goodman Gallery, Cidade do Cabo, África do Sul (2015); 31ª Bienal de São Paulo, “Como (…) coisas que não existem”, Pavilhão da Bienal, São Paulo, Brasil (2014); 12e Biennale de Lyon, “Entre-temps… Brusquement, et ensuite”, Musée D’Art Contemporain, Lyon, França (2013); entre outras.
Entre as coleções permanentes estão: ARoS Aarhus Kunstmuseum (Aarhus, Dinamarca); Astrup Fearnley Museum of Modern Art (Oslo, Noruega); Fundação Joaquim Nabuco (Recife, Brasil); IAGO – Instituto de Artes Gráficas de Oaxaca (Oaxaca, México); ICA Miami – Institute of Contemporary Art (Miami, EUA); Ilmin Museum of Art (Seul, Coréia do Sul); MAC USP – Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (São Paulo, Brasil); MAM Rio – Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Brasil); MAR – Museu de Arte do Rio. Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Brasil); MASP – Museu de Arte de São Paulo (São Paulo, Brasil); MNBA – Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro, Brasil); Museo Nacional de Bellas Artes/Arte Universal (Havana, Cuba); PAMM – Pérez Art Museum Miami (Miami, EUA); Pinacoteca do Estado de São Paulo (São Paulo), Brasil; Rubell Museum (Miami, EUA); TBA21 – Thyssen-Bornemisza Art Contemporary (Viena, Áustria); entre outras.