quarta-feira, 29 de julho de 2026 |
REVISTA LUME • JORNALISMO EDITORIAL
TEATRO

Dois papas

Entre o risco e a concessão.

Encenação da peça do neozelandês Anthony McCarten, Dois Papas tende a seduzir o espectador por meio de uma dramaturgia envolvente na exposição de conflitos íntimos que reverberam na esfera mundial; de uma concepção espacial que procura conciliar a inventividade cenográfica com a inclusão de projeções; e, principalmente, do duelo interpretativo entre os atores Zécarlos Machado e Celso Frateschi. Cabe analisar cada um desses elementos.

Dois Papas, peça de Anthony McCarten com direção de Muniz Canaan.

Em relação à peça, Dois Papas cumpre uma função importante ao
reaproximar o público do teatro de texto, que, nas últimas décadas, teve seu
valor minimizado dentro do panorama da produção de mercado. Ao longo
de cerca de duas horas, a plateia assiste, em cenas extensas, aos diálogos
enérgicos entre os personagens. Uma configuração que contrasta com a
velocidade desenfreada dos dias de hoje.

Mas a peça de McCarten não impõe obstáculos à apreciação do espectador.
Ao abordar o embate entre personagens reais – o conservador Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI) e o progressista cardeal Jorge Mario Bergoglio (o futuro Papa Francisco) –, McCarten dá vazão a uma estrutura esquemática, deixando à mostra a construção dramatúrgica.

Nas sequências introdutórias, o autor apresenta os religiosos, o modo como pensam e o que planejam para os anos seguintes: primeiro destaca a conversa entre Ratzinger, então Papa, e uma amiga freira, Irmã Brigitta, momento em que ele sinaliza que deseja renunciar ao posto; depois, numa cena espelhada, Bergoglio interage com outra freira, Irmã Sofia, e também anuncia uma guinada – no caso, a decisão de se aposentar. Essas cenas não existem na adaptação para o cinema: o filme de Fernando Meirelles (2019) com roteiro a cargo de McCarten (que assinou ainda um livro sobre os Papas).

For the next hour, sit quietly and we will control all that you see and hear. You are about to participate in a great adventure. Image by 愚木混株 @Cdd20

Nas passagens posteriores, o dramaturgo coloca os protagonistas frente a frente. No encontro inicial entre ambos, realça o contraponto ideológico e a resistência de Ratzinger em aceitar o recolhimento de Bergoglio; e, quando os dois retomam o contato, o autor frisa que os religiosos não simbolizam polos tão opostos quanto aparentam a princípio, em especial a partir das revelações sobre o passado de Bergoglio.

Esse texto desembarca na cena em montagem dirigida por Munir Kanaan. No que se refere à ambientação, o espetáculo se distancia de uma moldura tradicionalmente realista. As formas brancas de tamanhos diversos que constituem a cenografia de Eric Lenate conferem singularidade plástica. Ao invés de composto por objetos atados aos seus sentidos literais, o cenário representa um bem-vindo estímulo à imaginação do espectador. O resultado, porém, nem sempre é funcional, a julgar pela alteração na disposição cenográfica em dado instante da montagem, quando imagens documentais, apesar de oportunas, são acionadas para preencher uma espécie de lacuna no andamento da cena. A priorização da cor branca é ideal para as projeções (videomapping de André Grynwask e Pri Argoud), que sugerem alguma localização da ação no tempo e no espaço e/ou complementação de informações sobre os personagens, mas a possível fricção entre a abstração da cenografia e a concretude das imagens não chega a se estabelecer.

Docendi omnesque salutatus mel ut. Mel tota aperiri blandit ei. Duo detraxit efficiantur at, te vis amet alia. Ea mel iusto interpretaris. Homero nusquam pertinax an ius

Nas demais criações, os figurinos de Carol Roz colaboram, por meio das vestes e das cores distintas, para o jogo de aproximação e afastamento entre os protagonistas. A iluminação de Beto Bruel oscila entre a suavidade e os rompantes de explosão. E a trilha sonora de Dan Maia acentua a quebra de uma austeridade naturalmente pertencente ao universo dos personagens. O atrativo central da encenação, contudo, está no trabalho do elenco. Zécarlos Machado e Celso Frateschi interpretam, respectivamente, Ratzinger e Bergoglio. Os atores demonstram notável domínio da palavra, habilidade decorrente das experiências que acumularam em carreiras ligadas ao teatro de grupo (Machado no Grupo Tapa, que celebra o texto, Frateschi no Núcleo Independente, socialmente combativo). Zécarlos Machado imprime a formalidade característica de Ratzinger, rompida, em alguma medida, no diálogo com Irmã Brigitta. Celso Frateschi reforça a abertura para o humor de Bergoglio, particularidade que relativiza o convencional retrato de autoridade da figura religiosa. Nas personagens coadjuvantes, Eliana Guttman insere nuances em atuação segura como a devotada Irmã Brigitta e Carol Godoy empresta fervor juvenil à Irmã Sofia. Dois Papas traz à tona, através da oposição (atenuada na parte final) entre Ratzinger e Bergoglio, as transformações geradas pela passagem do tempo. Há quem acompanhe em maior ou menor intensidade os ventos de mudança, variação perceptível nos posicionamentos ideológicos dos Papas. Os costumes não se mantêm os mesmos, a exemplo da conexão dos jovens com os aparatos tecnológicos apontada por Irmã Brigitta. McCarten assume um certo e saudável risco ao não ceder aos apelos imediatistas do aqui/agora. Propõe ao público o resgate ou a consolidação do elo com a dramaturgia. Entretanto, faz concessões, manifestadas na construção excessivamente calculada da peça. A montagem de Munir Kanaan adere a essa flutuação. Oferece ao espectador a escuta da palavra em frequência menos acelerada, mas sem perder de vista facilitações, como as projeções que amenizam uma eventual aridez. Seja como for, o espetáculo se justifica plenamente como veículo interpretativo para dois sólidos profissionais.

DOIS PAPAS – Texto de Anthony McCarten. Direção de Munir Kanaan.
Com Zécarlos Machado, Celso Frateschi, Eliana Guttman e Carol Godoy.
TUCA (R. Monte Alegre, 1024 – São Paulo). Sextas e sábados, às 20h,
domingos, às 18h. Ingressos: R$ 180,00 e R$ 90,00 (meia-entrada).
Temporada: de 31/07 e 27/09.

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