quarta-feira, 29 de julho de 2026 |
REVISTA LUME • JORNALISMO EDITORIAL
CINEMA

A fabulosa máquina do tempo

A luz da imaginação [ou A fabulosa imaginação humana]

A fabulosa máquina do tempo, de Eliza Capai, é um filme luminoso.
Chamá-lo de documentário seria amputá-lo de sua dimensão mais bela, a
aposta no poder da fantasia infantil para recriar o mundo.

Rogers are blown out of their trajectory into an orbit which freezes his life support system and returns Buck Rogers to Earth five hundred years later. Photo by @Bianca Blauth

Sua estratégia de construção e exposição é enganosamente simples.
Consistiu em estimular meninas entre 8 e 12 anos da cidadezinha de
Guaribas, no interior do Piauí, a investigarem o passado de suas famílias e projetarem o futuro que imaginam ou almejam. A máquina fabulosa do
título é a imaginação dessas meninas.

Ao dar vez e voz a um punhado de crianças no final da infância e na
pré-adolescência, a diretora cria uma obra a muitas vozes, sem se colocar
acima de suas personagens, mas se deixando levar, por assim dizer, pelas
angústias, medos e desejos delas próprias. O resultado é não menos que
encantador.

Entre conversas, brincadeiras e encenações promovidas pelo grupo,
emergem questões sociais e culturais profundas, que vão muito além da
carência material, entre elas o reiterado machismo da nossa formação, que
reduz a mulher ao trabalho doméstico e confere ao homem o poder de
decisão e a liberdade de movimentos a que ela não tem acesso.

For the next hour, sit quietly and we will control all that you see and hear. You are about to participate in a great adventure. Image by 愚木混株 @Cdd20

São tocantes as entrevistas que as meninas realizam com suas
respectivas mães. Muitas destas fugiram de casa ainda adolescentes para

casar, afrontando o autoritarismo paterno, mas caindo, elas próprias, numa
situação semelhante. Em seus relatos, desenha-se uma realidade dura, sem
luz elétrica, sem gás, e em que a água precisava ser buscada no rio e a
lenha no mato.

Mas as meninas não aceitam passivamente esquemas arcaicos. Uma
delas, ao mencionar o mito bíblico da criação de Eva a partir de uma
costela de Adão, diz: “E se ela tivesse nascido direto do barro?” Outra
declara preferir ter um cachorro a ter um marido, porque “marido é chato,
cachorro não”.

Docendi omnesque salutatus mel ut. Mel tota aperiri blandit ei. Duo detraxit efficiantur at, te vis amet alia. Ea mel iusto interpretaris. Homero nusquam pertinax an ius

Um misto de temor e expectativa cerca a iminência de “se tornarem
mocinhas”, com a primeira menstruação. Elas receiam deixar de ser
crianças, a exemplo de uma das mais velhas, que menstruou e “agora não
brinca mais, só fica no celular”.

A presença crescente das igrejas evangélicas na região vem à tona
nas conversas, nas imagens de fachadas dos modestos templos e em um
culto. Tudo é filmado respeitosamente, sem imposição de um ponto de
vista crítico, mas também sem condescendência. Numa das poucas
conversas em que ouvimos a voz da própria diretora, uma das meninas lhe
pergunta: “Qual é o seu pecado?” A diretora responde com franqueza: “Eu
não acredito em pecado”. E a menina, na lata: “Esse é o seu pecado”.

Essa relação tanto quanto possível horizontal, sem hierarquia, é um
dos grandes trunfos do filme. Há um respeito escrupuloso pelos valores e
sentimentos de cada personagem retratada. A certa altura as garotas cantam e dançam um funk ou coisa que o valha com letra alusivamente
pornográfica. Questionadas pela diretora, fica claro que elas não entendem
a alusão grosseira de versos em que “leite” faz as vezes de esperma. Para
elas, tudo é diversão inocente.

O estabelecimento de uma relação de afeto e confiança conflui para a
encenação, pelas próprias meninas, dos futuros que imaginam para si: uma
quer ser enfermeira; outra, professora; uma terceira, criminalista; outra
ainda, atriz… Comoventemente, uma diz que quer ser “empregada”. E cada
uma delas vive diante das câmeras o seu futuro sonhado. Poucas vezes o
cinema chegou a justificar de forma tão sublime a surrada expressão
“fábrica de sonhos”.

Uma coisa chama a atenção: os homens estão virtualmente ausentes,
com exceção de um pastor evangélico e de alguns irmãos menores das
protagonistas. Não deve ter sido só por uma questão de escolha e recorte.

Tudo indica que os homens da região param pouco em casa, seja em função
do trabalho ou “da cachaça” (palavra repetida muitas vezes nas conversas e
nas encenações das meninas).

Uma cartela final, antes dos créditos, informa (e eu chequei) que o
município de Guaribas, em que tudo se passa, era no começo deste século o
que tinha a pior colocação nacional no Índice de Desenvolvimento
Humano, com uma alta taxa de analfabetismo, entre outras mazelas. Em
2003 o município abrigou o projeto piloto do programa Fome Zero, que
mudou radicalmente o quadro, aumentando o índice de alfabetização e
fazendo despencar o de desnutrição e mortalidade infantil. Todas as
pessoas retratadas no filme são beneficiárias do Bolsa Família.

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