A fabulosa máquina do tempo, de Eliza Capai, é um filme luminoso.
Chamá-lo de documentário seria amputá-lo de sua dimensão mais bela, a
aposta no poder da fantasia infantil para recriar o mundo.

Sua estratégia de construção e exposição é enganosamente simples.
Consistiu em estimular meninas entre 8 e 12 anos da cidadezinha de
Guaribas, no interior do Piauí, a investigarem o passado de suas famílias e projetarem o futuro que imaginam ou almejam. A máquina fabulosa do
título é a imaginação dessas meninas.
Ao dar vez e voz a um punhado de crianças no final da infância e na
pré-adolescência, a diretora cria uma obra a muitas vozes, sem se colocar
acima de suas personagens, mas se deixando levar, por assim dizer, pelas
angústias, medos e desejos delas próprias. O resultado é não menos que
encantador.
Entre conversas, brincadeiras e encenações promovidas pelo grupo,
emergem questões sociais e culturais profundas, que vão muito além da
carência material, entre elas o reiterado machismo da nossa formação, que
reduz a mulher ao trabalho doméstico e confere ao homem o poder de
decisão e a liberdade de movimentos a que ela não tem acesso.

São tocantes as entrevistas que as meninas realizam com suas
respectivas mães. Muitas destas fugiram de casa ainda adolescentes para
casar, afrontando o autoritarismo paterno, mas caindo, elas próprias, numa
situação semelhante. Em seus relatos, desenha-se uma realidade dura, sem
luz elétrica, sem gás, e em que a água precisava ser buscada no rio e a
lenha no mato.
Mas as meninas não aceitam passivamente esquemas arcaicos. Uma
delas, ao mencionar o mito bíblico da criação de Eva a partir de uma
costela de Adão, diz: “E se ela tivesse nascido direto do barro?” Outra
declara preferir ter um cachorro a ter um marido, porque “marido é chato,
cachorro não”.

Um misto de temor e expectativa cerca a iminência de “se tornarem
mocinhas”, com a primeira menstruação. Elas receiam deixar de ser
crianças, a exemplo de uma das mais velhas, que menstruou e “agora não
brinca mais, só fica no celular”.
A presença crescente das igrejas evangélicas na região vem à tona
nas conversas, nas imagens de fachadas dos modestos templos e em um
culto. Tudo é filmado respeitosamente, sem imposição de um ponto de
vista crítico, mas também sem condescendência. Numa das poucas
conversas em que ouvimos a voz da própria diretora, uma das meninas lhe
pergunta: “Qual é o seu pecado?” A diretora responde com franqueza: “Eu
não acredito em pecado”. E a menina, na lata: “Esse é o seu pecado”.
Essa relação tanto quanto possível horizontal, sem hierarquia, é um
dos grandes trunfos do filme. Há um respeito escrupuloso pelos valores e
sentimentos de cada personagem retratada. A certa altura as garotas cantam e dançam um funk ou coisa que o valha com letra alusivamente
pornográfica. Questionadas pela diretora, fica claro que elas não entendem
a alusão grosseira de versos em que “leite” faz as vezes de esperma. Para
elas, tudo é diversão inocente.
O estabelecimento de uma relação de afeto e confiança conflui para a
encenação, pelas próprias meninas, dos futuros que imaginam para si: uma
quer ser enfermeira; outra, professora; uma terceira, criminalista; outra
ainda, atriz… Comoventemente, uma diz que quer ser “empregada”. E cada
uma delas vive diante das câmeras o seu futuro sonhado. Poucas vezes o
cinema chegou a justificar de forma tão sublime a surrada expressão
“fábrica de sonhos”.
Uma coisa chama a atenção: os homens estão virtualmente ausentes,
com exceção de um pastor evangélico e de alguns irmãos menores das
protagonistas. Não deve ter sido só por uma questão de escolha e recorte.
Tudo indica que os homens da região param pouco em casa, seja em função
do trabalho ou “da cachaça” (palavra repetida muitas vezes nas conversas e
nas encenações das meninas).
Uma cartela final, antes dos créditos, informa (e eu chequei) que o
município de Guaribas, em que tudo se passa, era no começo deste século o
que tinha a pior colocação nacional no Índice de Desenvolvimento
Humano, com uma alta taxa de analfabetismo, entre outras mazelas. Em
2003 o município abrigou o projeto piloto do programa Fome Zero, que
mudou radicalmente o quadro, aumentando o índice de alfabetização e
fazendo despencar o de desnutrição e mortalidade infantil. Todas as
pessoas retratadas no filme são beneficiárias do Bolsa Família.