Saí de casa faltando exatos cinco minutos para a limpeza agendada há mais de uma semana. De óculos escuros, camiseta e bermuda pretas, senti uma onda de calor me atingir assim que passei o hall de entrada. Atravessando a área comum, afundei por completo no ar quente e iluminado antes mesmo de ultrapassar a porta do edifício. Acelerei o passo enquanto a camiseta e os óculos esquentavam segundo a segundo. Sem reparar no trânsito ou nas pessoas que passavam, lamentei antecipadamente a longa subida que me aguardava.
Sendo uma rua de cinco quarteirões, a Cônego Bernardo, cruzamento da João de Deus Machado, nome pouco auspicioso onde moramos há pouco tempo, termina ou começa no meio da Avenida Lauro Linhares, e o final ou o início dela é uma rampa de noventa graus feita para seduzir skatistas do bairro, skatistas que encontram nesse oásis de asfalto inclinado esperanças renovadas em impulsos gravitacionais mais amplos –– quem sabe vitais.
O inverso também é verdade: sentia meus nervos pulsarem aquecidos e minha pele vibrar sob o sol das 11h enquanto escalava os menos de dez metros que me separavam da Avenida.
Uma vez nela, peguei a esquerda no ponto de ônibus. Fui me desviando das pessoas e calculei a distância entre os carros que passavam à direita e à esquerda. Fora da faixa, tomei impulso e atravessei correndo. No último segundo percebi que calculei mal, e o brilho prata de um carro passou zunindo nas minhas costas.
Há pouco mais de quinze dias me encontrava naquele mesmo edifício para uma consulta com outro dentista. Como não queria passar o Natal mastigando do lado esquerdo, resolvi procurar no Google e achei alguém atendendo aos sábados. Depois de uma discreta disputa pelo valor da consulta no WhatsApp — eu agradeci, mas me recusei a pagar o valor exigido pela “urgência” — ele me disse que, como estaria atendendo um paciente antes de mim, não me cobraria o preço do fim de semana.
De todo modo, era fim de semana, e o valor nem era tão absurdo assim, por isso fiquei me perguntando depois se não estava sendo mesquinho demais e se não era imprudente regatear com alguém que ia enfiar a mão na minha boca.

Quando entrei no consultório, tive a impressão, talvez pelo tipo de luminária refletida nos armários espelhados ou pelos puxadores dourados dos armários, puxadores com volteios e volutas, de estar numa loja de cosméticos. Foi o dentista ele mesmo quem abriu a porta para me receber. Abriu a porta e esticou o braço direito como um maître de restaurante chic apresentando o espaço. Fortinho e um palmo mais baixo do que eu, demorei um tempo para me decidir se ele parecia ou não gay. Tatuagens nos braços, cabelo undercut, barba rala por fazer. Além do que, ele cheirava a perfume caro.
O sotaque de Florianópolis às vezes me confunde, por isso resolvi deixá-lo na zona cinzenta da sexualidade — talvez fosse bissexual.
Mas se fosse o caso, percebi que, no nível das aparências, não fazia ideia onde se passava o limite entre ser bissexual ou gay, se havia mesmo algum limite ou se havia ao menos algum tipo de diferença perceptível. Enquanto pensava nisso, e por um desses acasos que justificam a existência de psiquiatras, acasos que nos fazem acreditar por um instante em deus ou numa ordem cósmica superior, pouco antes de sair para ver o outro dentista esse dentista me contatou. O bissexual hipotético me enviou não uma mensagem, não um áudio, mas um vídeo. Explicando pedagogicamente os riscos da pericoronarite para a câmera, ele me aconselhava a dar continuidade ao tratamento que iniciamos por acaso naquele sábado já esquecido.
Como não imaginar um complô? Como não imaginar que esse complô me colocava no centro inacessível de um destino a despeito de mim, me empurrando rumo a algo totalmente indefinido e mesmo perigoso? Eles atendiam no mesmo edifício com a diferença de alguns andares entre si! Como não sentir também culpa? Não era uma forma de traição passar em outro dentista quando ele me atendeu numa ensolarada véspera de Natal?
Repudiando a impessoalidade monetária do capitalismo tardio, ignorei a mensagem porque estava atrasado, mas nem por isso deixei de pensar no vídeo. Ele segurava a câmera olhando fixo para uma versão abstrata de mim; olhando fixo a lembrança que talvez lhe viesse à mente enquanto falava sobre a minha negligente saúde dentária.
Liberado pela atendente, coloquei meu rosto no leitor e recebi um olhar da tela que não parecia em nada com o meu. Por um instante me senti substituído, um único instante de não reconhecimento que fez com que o retorno do meu rosto e do meu olhar de sempre me trouxesse alívio — aquele tipo de alívio frio que dá nova vida à ameaça. Passei a catraca e subi com outras três pessoas, que imaginei serem os pais com o filho. Ao chegar no quarto andar — eles desceram no segundo — virei à esquerda e, no fim do corredor, vi o nome da clínica: Focus.
Na porta, uma placa de “Entre sem bater”.
Por que Focus? Um ano antes havia marcado uma limpeza naquele mesmo consultório, e me fiz a mesma pergunta sem obter resposta: por que Focus?
Poderia imaginar uma clínica oftalmológica com esse nome. Até mesmo, no limite, um otorrino — um foco sonoro parece estranho, mas aceitável. Qual o sentido do foco para um dentista?
Imaginei um dente fora de foco, impreciso, borrado. Imaginei uma arcada dentária irregular na qual cada dente contribuía para a sensação geral de caos na boca. A ausência de foco mordendo na lateral, mordendo, sem querer, a língua e as bochechas numa autofagia meio grotesca. Imaginei alguém que não conseguia mais falar pela falta de foco da língua, mole ou dura demais para os contorcionismos silábicos do português.
Abri a porta no fim do corredor e vi, do outro lado do balcão, o topo da cabeça da secretária. Conforme me aproximei, uma jovem de vinte e cinco anos foi se revelando. Encolhida como uma criança que escorregou sem querer numa vala e ficou a tarde toda abandonada ali, a voz dela saiu meio ansiosa e meio anestesiada como anestesiados e ansiosos eram os corredores do edifício, o brilho tranquilo do céu, o ritmo daquela terça-feira sem promessas, inventada apenas para existir no calendário.
O doutor me atenderia em breve, ela me disse.
Assim que me sentei no sofá, percebi que era daqueles molengas, com almofadas destacáveis. Tentava me equilibrar, afundando e escorregando como numa prancha de surf, numa almofada bege com padrões retangulares quando vi a placa do homenzinho sobre a porta à esquerda, uma das três portas do hall.
Pensei em ir ao banheiro, mas me impedi por um tipo de pudor cronológico. Por que alguém usaria o banheiro assim que entrou? Conforme pensava, o pudor se tornava topológico. Por que ir ao dentista para usar o banheiro? O que a secretária pensaria de mim? A pessoa que acabou de chegar e precisa usar o banheiro seria com certeza interpretada como incontinente ou algo ainda mais grave envolvendo fraldas precoces ou…
Mantive-me quieto no sofá e senti, enfim, a pontada nas costas.

Procurei algum foco que não me levasse a pensar na possibilidade de cirurgia, na hérnia pressionando o disco em L3 e L4, na discopatia em quatro discos, nas outras hérnias menores apenas aguardando a oportunidade para estourarem e vazarem pelos respectivos anéis pressionando loucamente meus nervos.
Foquei na tela de vinte polegadas onde duas mulheres, uma loira e uma ruiva, conversavam.
Por um momento não identifiquei o programa, e esse esforço, o esforço de puxar na memória o passado televisivo da minha adolescência, me levou a esquecer a dor –– ou melhor, me levou a fingir que esquecia enquanto a ameaça da dor e da futura paralisia pela dor continuavam lá como um plano de fundo ainda mais ameaçador por dominar a cena toda com sua presença borrada.
Assim que a câmera focou no rosto da loira, reconheci quem era: a eterna Ana Maria Braga.
Entrevistando uma mulher trans, a palavra “redesignação de sexo” aparecia em rosa no canto inferior esquerdo da tela. A mulher narrava sua transição e ambas falavam de hormônios, dos ônus e dos bônus de tal escolha — a mulher disse com essas palavras — salientando que outras pessoas optavam por não tomar. Apesar do horário próximo ao almoço, a temperatura fresca da sala, o silêncio cortado por aquelas duas vozes calmas meio que confabularam para que eu sentisse sono.
Para me manter acordado, já que seria humilhante correr o risco de roncar naquela sala silenciosa ou roncar ao lado de outro paciente que talvez chegasse sem aviso, tentei adivinhar a idade da Ana Maria Braga abstraindo seu penteado sofisticado, que me remetia a filmes de adolescentes repicadas dos anos 90 ou cartazes de bandas punks. Falhei em me decidir por um número.
Entre 70 e 90?
Falavam da cirurgia da mulher na Tailândia, do atendimento psicológico, do pré-operatório diante da mesa farta e ampla onde bolos de fubá amarelinhos recheados com goiabadas brilhantes, queijos suculentos, cafés e quitutes diversos ganhavam ainda mais cor e forma sobre o branco imaculado da toalha. A mulher disse que a redesignação é um processo doloroso, mas que jamais se arrependeu, e tomou um cafezinho.
Nenhuma delas comia nada.
A mulher também disse que postou na internet todo o processo para que outras pessoas tivessem coragem, para que não se sentissem sozinhas nesse momento importante e amedrontador.
Aos poucos fui perdendo o fio da conversa, que se confundia agora com o ar-condicionado, com as batidinhas agradáveis dos dedos da secretária sobre o teclado, a minha respiração pesada, tudo empurrado para o ruído de fundo indistinto. Com os olhos quase fechados, quase dormindo, percebi que, abaixo da televisão, na saliência do mesmo móvel, alguns livros e revistas se encontravam ali. Um deles tinha o significativo título de “As pessoas se fodem por um motivo”. Também revistas de viagem e “O caçador de pipas” — aparentemente a obra padrão de consultórios.
Dos cinco ou seis volumes, o único que me atraiu foi um do Ari Toledo sobre os textículos dele.
Ao reler o título, me lembrei de uma viagem, já totalmente apagada da minha memória, para o Pantanal. Com meus avós, a minha tia e a minha mãe, viajamos, quando eu tinha nove ou dez anos, para as Bodas de Ouro de uma tia-avó que nunca mais vi. Na verdade, não me lembrava nem mesmo do nome dessa tia-avó, apenas do contorno dela pegando uma trilha à esquerda com uma vara de pesca na mão. Lá, no Pantanal, fiz sucesso com as piadas apimentadas de um livrinho do Ari Toledo clandestinamente trazido entre os gibis, que meu pai comprava ou trocava todas as semanas para mim.
Além dos diversos carros de parentes, alguns fretaram vans, e outros, convidando inclusive conhecidos distantes e desconhecidos tácitos, acabaram por fretar um ônibus. A festa duraria o fim de semana, mas quase todos passaram a semana toda. Sem estrutura necessária para receber tanta gente, a fazenda parecia prestes a colapsar com imensas filas para os banheiros e duchas tomadas diretamente em mangueiras; colapsar com fraldas e mamadeiras de recém-nascidos que se multiplicavam por toda parte como se nascessem da mata ou do pomar. As refeições atrasavam muito então frutas eram arrancadas do grande pomar para amenizar a fome, do qual nem os minúsculos abacaxis ainda verdes restaram.
Nessa viagem tive minha primeira experiência em meio a pessoas desconhecidas. Pessoas desconhecidas que dormiam e acordavam e comiam e bebiam e falavam e gritavam aos montes ao meu redor. Também me apaixonei pela primeira vez. Ela era loira e tinha treze anos. Não me lembro do seu nome, mas na despedida fiquei segurando sua mão do lado de fora do ônibus, com ela pendurada na janela mais ou menos como nos filmes.
Quando me levantei para pegar a revistinha do Ari Toledo, ainda perdido entre lembranças de um passado desaparecido, mal tive tempo de me despedir da minha futura ex-esposa, que seguia pela estrada de terra logo em frente, ou me despedir deles, ainda encostados no Monza prateado sob um sol tremendo, meus avós, mortos há anos: o dentista abriu a porta e, avançando como um fantasma, veio na minha direção com o braço estendido.
Sentado no consultório, me lembrei do que havia me chamado a atenção nele.

Falando com paciência de professor construtivista, alto, magro, descendente de japoneses, ele se dirigia a mim se equilibrando numa linha quase impossível de ser sustentada. Sem me infantilizar, ele destacava as palavras como se as escrevesse numa lousa. Tão calmo e dono dos seus movimentos, tão calmo e controlado quanto um monge, nenhum gesto parecia desperdiçado, nenhum gesto usado apenas para enfatizar, nenhuma informação sobressalente, expletiva, ou com aquela exuberância discursiva, de sabor bem brasileiro, que empana as palavras numa camada suplementar de afeto. Ainda assim, ele não era frio ou distante, ou era distante num sentido bastante específico, atenciosamente profissional.
Ele respondia a cada uma das minhas questões com tanto cuidado que me senti confortável inclusive para sanar dúvidas que jamais sanei com outro dentista. Conforme falava sobre a placa para bruxismo, nem mesmo quando falei sobre a limpeza, que na verdade eu tinha me esquecido de agendar, ele se surpreendeu.
“Mas podemos fazer, claro. Você pode se sentar. Prepararei os instrumentos”, ele me disse.
Conforme ele arrancava pedaços de tártaro, pedaços que caíam como na minúscula demolição de um muro, vi que no céu muito claro um urubu rodava, rodava uma e outra vez, e ele passava o aparelho, que chiava e raspava soltando água, e eu secava com o tubo de sucção azul enquanto o urubu rodava e rodava, refazendo o percurso inicial numa elipse perfeita, astral, e ele continuava a limpar dente a dente como se apagasse a poeira de refeições esquecidas, destruindo também ecos de risos e conversas e olhares enquanto passava e repassava o aparelho de som agudo e desagradável; e o urubu ainda rodava, rodava, até que não rodou mais, partindo para longe.
A desaparição sem aviso do urubu me inquietou, por isso me mexi na cadeira, e o dentista respondeu com um gesto que poderia ser interpretado como autoritário, mas autoritário sem força, de inspetor de jardim infantil. A partir desse gesto dele, e bem aos poucos, o texto para o “Belezas emprestadas”, título ele mesmo emprestado de Montaigne para a minha coluna, começou a ganhar forma — não o texto, mas a insinuação de uma linha.
Comecei a seguir parte dessa linha, ainda obscura, descontínua, me projetando fora do consultório, já aqui, em lugar nenhum.
Distante da experiência e sem saber ao certo de que modo descrevê-la ou o que escolher dessa descrição ou qual parte manter ou arrancar, a linha chegava e partia numa velocidade inacreditável. Distraído, eu seguia os fragmentos desses “ensaios encenados” desejando uma forma outra sob as imagens refletidas em cenas falsamente autoficcionais, desejando algo muito além da mera reprodução cotidiana ou das suas opiniões, quando o tubinho de sucção foi saindo da minha boca, e o dentista me lembrou da minha responsabilidade com um novo toque no braço.
Finalmente eu tinha conseguido irritá-lo?
Com voz tranquila, ele me disse:
“Vamos fazer uma pausa para você não se cansar muito.”
Desta vez polindo, também dente a dente, com uma micro-enceradeira, eu continuava a pensar nessa encenação, a performance de um eu contemplativo, no sentido de Plotino, um eu contemplativo e inesperado encenando uma visão. Por não mais se encontrar em si, era uma visão difícil de expressar, visão para sempre deslocada, para sempre deslocada da sua origem. Enquanto ele finalizava a limpeza, eu continuava a delimitar o palco onde tudo deveria aparecer, mas sem achar o tom adequado, sem acessar nenhuma voz verdadeira, ironicamente contemporânea ou melancolicamente ansiosa. Se fosse sincero comigo mesmo, sabia que nada me levaria ao texto real, tão mais pobre por ser real, e eu restaria preso ao preâmbulo da cena, cena emprestada de algum lugar ignorado, sem medidas ou nomes, como numa sala redonda sem portas nem janelas.
Atento à dor que voltava a se instalar, a sala tinha, agora, pelo menos um hóspede.
Sem nenhum caminho viável que me propiciaria a passagem da sala à verdade efetiva do mundo, do texto enquanto coisa existente, eu continuava contemplando aquele céu claro e luminoso. Paralisado e sem voz, jamais escreveria, nunca, nunca mais, e percebi o quanto de equívoco havia nessa ideia de texto, de escrita, de metalinguagem. Todo mundo sabe que se trata de outra coisa, pensei, ecos silenciosos de belezas emprestadas, índices que não dançam de bom grado numa cena. Para além das frases, que não existiam nem jamais existiriam, continuava a seguir não o texto, mas a linha, a única coisa que importa. O fio é a ânsia que ignora sua realidade de fracasso, pensei. Sim, vontade de concretizar o artifício sob a palavra nos procedimentos mais regulares da vida ou como forma de quebrar a regularidade da vida capturando belezas emprestadas de outras vidas sob essa única vida. É a vontade de desaparecer naquilo que se recusa a ser escrito, que se recusa por não pertencer ao aspecto dimensional do tempo ou do espaço, pelo fracasso expressivo próprio ao limite, à escrita, ao eu.
Tudo parecia mais vivo nesse fio invisível deixado pelo urubu, pelos meus avós, pela minha futura ex-esposa sem nome, pelo Pantanal; mais vivo também pelo mero fato de que a terça-feira passaria esquecida, que alguém de mim viveria outra vida se por acaso…
Como não tinha nenhuma outra solução, terminada a limpeza, enquanto combinávamos os próximos passos do tratamento para bruxismo, tentei fixar cada um dos objetos para descrever um pouco aqui.
A dentadura de fibra de vidro, semelhante a uma dessas de Dia das Bruxas, gargalhava sobre a mesa lateral em L ao lado de um suporte duplo para pastas com documentos saindo um pouquinho. Três ou quatro prêmios, ou o que imaginei serem prêmios, em globos de vidro e suportes de mármore (ou granito), se apoiavam na mesa próximos à parede. Diversos diplomas brigavam por espaço, no centro, o de Cirurgião Dentista pela Universidade Estadual de Londrina, e, à direita, um duvidoso, dessas “universidades”.
No nicho acima, fotos de família repousavam em sequência, quatro delas.
Da esquerda para a direita, um casal de senhores japoneses, que imaginei serem os pais, olhava sério para a câmera; e uma japonesa mais baixa e jovem, que imaginei ser a irmã, compensava a seriedade dos pais com um ar expansivo. Ao lado, o dentista, bastante diferente sem máscara ou touca, camiseta larga, ainda mais magro, com uma mulher que imaginei ser sua esposa, de cabelo ruivo intenso ou rosa, e um bebê. Eles estavam numa mata, talvez fazendo trilha.
Na foto ao lado, não me lembro do fundo, apenas dos rostos: o bebê muito branco e molenga nos braços dele; e em primeiro plano segurando a câmera, a mulher com traços orientais, ou que imaginei orientais pelo lápis de olho e pelo contexto.
Na última, sentados apenas os dois, um deck com mar e montanhas ao fundo.
Ao sairmos da sala, notei que a secretária, enfeitiçada pela tranquilidade do dentista, enfeitiçada, consciente ou inconscientemente, pelo seu tom de voz, imitava os gestos lentos, pausados, significativos dele, exemplares como se imobilizados em relevo sobre um friso.
Era essa a palavra que me faltava: exemplar.
Tudo nele tendia a essa palavra. Tudo tendia à marca paciente de um abandono deliberado muito semelhante à resignação, à banalidade metódica, porém dela se diferenciando por uma despretensão afirmativa e responsável que se observava a caminho de se arrogar sem jamais se arrogar. Ele poderia estar num outro contexto que o gesto seria o mesmo: seguro, uniforme, confiável e correto. Poderia ser arrancado dali que continuaria a se expressar exemplarmente. Poderia ser levado para longe que o seu destino continuaria a lhe pertencer, porém inapreensível por sua transparência correta, idêntico como a moral de fundo de uma parábola infantil que, acessível talvez apenas para ele, se torna mais e mais secreta, mais e mais turva conforme a compreendemos.
Sem nenhuma daquelas camadas de sujeira fossilizada que me davam, às vezes, prazer em esfarelar com a unha ou com a ponta da língua, desci do elevador. Saí no corredor em frente a uma loja de roupas femininas com cinquenta por cento de desconto e segui pelo corredor em direção à rua. Passei em frente ao Supermercado Imperatriz, que fica no mesmo edifício. Passei e voltei para dar uma olhada.
Era ele?
Agachado numa gôndola de chocolates, ao lado de uma mulher com uma criança, estava o outro dentista, o do vídeo, que não me viu. Antes que ele me visse, fui saindo do edifício, mas percebi que tinha esquecido meus óculos no consultório. Peguei o elevador de novo e voltei rapidamente. Bastou colocar os óculos para ser transportado para outra realidade, como se escondesse meus olhos filtrando as cores na esperança de filtrar a própria realidade.
Já na Avenida Lauro Linhares, fui caminhando apressado sob um sol esmagador e ameacei atravessar novamente fora da faixa. Alguém então gritou me chamando a atenção quando um brilho prateado apareceu: recuei no exato momento que uma moto passou acelerando.
Atrás de mim, estava o dentista, com mulher e filho, sacolas de compra na mão, provavelmente indo almoçar. Sem me reconhecer, ele sorriu.