Luchino Visconti não escondeu — e nunca pretendeu, pelo que consta — a sua verve vocacional para contar grandes histórias sobre decadências irrecuperáveis, sejam elas do tempo, como em “Morte em Veneza”, sejam familiares, como em “Rocco e Seus Irmãos”. Em seu épico “O Leopardo”, de 1963, Visconti escolhe contar, por meio de suas lentes, a sangrenta e gloriosa história da unificação da Itália enquanto país. Anteriormente separada por territórios independentes entre si, a Itália só surgiu, mais ou menos como a conhecemos hoje, no fim do século XIX.

O cineasta, é claro, como é próprio do seu cinema, usa o fato histórico não para criar um épico de guerra e exaltar um suposto mito da fundação de seu país, mas para contar algo que, para ele — e, por que não dizer, para todos nós —, é muito mais impactante e inevitável do que a pátria e tudo aquilo que ela representa. A unificação da Itália, aqui, nada mais é do que um artifício que o artesão da câmera usa para nos lembrar da inexorável passagem do tempo e de como ela nos derruba, escolhendo lutar, em vão, contra ela ou não. Afinal, ela é a única coisa que podemos dizer, com segurança, ser invencível. Nesse sentido, a escolha estética e narrativa de Visconti fica clara ao tomar posse de uma história que se reputa tão violenta e sangrenta e não mostrar grandes cenas de batalha, mas se concentrar única e quase exclusivamente nos personagens principais, seus relacionamentos e desenlaces. Embora haja uma breve sequência de combate, Visconti jamais faz da guerra o centro dramático do filme.
Falemos, então, de Don Fabrizio, personagem central do longa. Homem aristocrático, bonito e vívido, vem de uma longa linhagem e possui uma família e uma reputação ilibada, dentro de suas próprias convenções, que lhe permitem ser religioso e, ainda assim, manter casos extraconjugais sem que isso pese em sua consciência. Nada mais italiano — ou europeu — do que isso. Isso não o impede, é claro; antes, o faz mais consciente do que acontece à sua volta. Pode-se dizer que Fabrizio é o mais lúcido dos personagens do longa, uma vez que parece perceber, antes de todos, o que já deveria estar estampado: o mundo mudou. Talvez, mas só talvez, não haja mais espaço para velhos felinos como ele. Seu sobrinho, Tancredi, representado pela sempre bela figura de Alain Delon, serve como um espelho para ele, refletindo certa amargura por sua juventude e idealismo, algo há muito perdido por Fabrizio. Tancredi é jovem, forte, vigoroso e tem plenas certezas de suas forças. É o felino novo, disposto a lutar pelo seu lugar ao sol e por sua vitória, que acredita ser seu destino manifesto.
Apesar de certo desdém e ressentimento por essa figura em total controle de suas forças, Fabrizio, chefe do clã desses felinos guerreiros, ama e deseja o melhor ao seu sobrinho. Há, sim, um quê de agridoce entre os dois, mas muito mais pelo patriarca sentir-se passado para trás pelo tempo do que pela inevitabilidade de um animal mais novo surgir para fazer-lhe frente. É interessante, portanto, a nada sutil escolha dos atores para os papéis dos protagonistas. Por que, para representar a fundação do novo sob as ruínas do antigo, não escalar um veterano ator americano, Burt Lancaster, que já havia experimentado seu apogeu, dando espaço para um jovem e bonito Alain Delon, francês que representava a vanguarda de um cinema que imaginava poder tomar a antiga popularidade da arte em que os americanos outrora dominavam com folga — ao menos até o surgimento e o respiro de novidade que a Nova Hollywood trouxe de volta?

Entra em cena, então, a figura angelical, até em seu nome, de Angélica, representando, mais do que sua juventude, a burguesia que selará, de vez, a união entre aristocracia e burguesia. Don Fabrizio, como não poderia deixar de ser, encanta-se por ela. Mas, felino velho que é, com garras carcomidas, presas moles e já domesticado pela vida e por sua esposa, não possui chances com ela. Recai, portanto, sobre os ombros esplendorosos e ainda indomados de Tancredi a responsabilidade de unir o útil ao agradável. Derrotado, porém resignado, Fabrizio sai de cena, mas não sem, presumidamente, relembrar as proféticas palavras de seu sobrinho: “Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude.”
E tudo muda para continuar o mesmo. Ao final do filme, notamos, com certa tristeza, amargura ou, quem sabe, até mesmo com o mesmo sentimento agridoce de Don Fabrizio, que, em mundos de leopardos, por vezes, precisamos nos comportar mais como elefantes, que sentem a morte espiritual de seu tempo e vão, aos poucos, deixando-se ficar para trás, para que o resto do bando siga em frente sem eles, sem jamais ser um estorvo para o novo que sempre vem, mesmo que seja para continuar tudo como está.
