quarta-feira, 29 de julho de 2026 |
REVISTA LUME • JORNALISMO EDITORIAL
CINEMA

O Profundo Silêncio de Scorsese

Há poucos cineastas no Ocidente que podem se orgulhar de ter uma filmografia tão extensa e prolífica quanto Scorsese. E há menos ainda que podem se gabar de manter uma qualidade constante em seus trabalhos. Em seus mais de 60 anos de carreira, dificilmente será possível encontrar sequer um filme objetivamente ruim, em que pese o gosto pessoal daquele que se atrever a procurar.

Alguns o consideram um gênio absoluto do cinema. Eu, particularmente, não. Um grande mestre sim, muito acima da média, mas não um cineasta que causa maiores deslumbramentos do que outros de seus pares. Na visão de alguns, talvez eu cometa uma heresia ao dizer que considero, dentre aqueles da sua geração, Francis Ford Coppola como melhor. Seja como for, o que não se pode negar é a sua paixão pela sétima arte, visível tanto nos esforços que empreende para preservar a história do cinema quanto na recusa em abandonar sua causa, ainda que em idade avançada. Mas esse é um tema para um outro texto, talvez.

Portanto, deixemos o aparte para lá e voltemos ao assunto que nos cabe. Falávamos de Martin e da sua grandiosa obra. É difícil escolher apenas um preferido em meio a tantos filmes inesquecíveis. Muitos dirão Taxi Driver, tantos outros ficarão com os Bons Companheiros, uma parcela razoável gritará lá do fundo seu apreço por Touro Indomável e haverá até alguns hipsters que jurarão de pé junto que bom mesmo é O Rei da Comédia. Concordo com todos. E também discordo. Fico entre dois não mencionados aqui: Depois de Horas (1985), uma comédia esquisita, e o mais recente Silêncio (2016). Ambos, aliás, representam muito bem uma
das facetas mais impressionantes do diretor: a sua capacidade de filmar gêneros e temas tão variados, sempre de forma magistral. Ele tem o que em inglês se chama de “range” — ou seja, uma amplitude para contar histórias diversas, sem nunca parecer fora do seu próprio quadrado. Seu quadrado, ao que parece, possui vários metros quadrados.

Em se tratando de Silêncio, essa sua amplitude se mostra ainda mais evidente e encantadora. Se Scorsese é muito lembrado por seus filmes de máfia, explosões, disparos de armas de fogo, músicas altas em boates ou festas barulhentas com arremesso de anões em corretoras da bolsa, é no silêncio de Silêncio que podemos ver o melhor dele. Na ausência da pirotecnia e do agito, a câmera do nova-iorquino passeia pelos cenários bucólicos do Japão do século XVII, homenageando, aqui e ali, o cinema de Akira Kurosawa, um dos seus grandes mestres. Em diversas passagens do filme, a lacuna de sons extravagantes fala muito mais alto e preenche a
tela de uma maneira que a maioria dos cineastas não conseguiria nem com os melhores equipamentos de áudio à disposição.

O silêncio do título, aliás, não se refere apenas ao som introspectivo e aos diálogos sussurrados pelos católicos japoneses e os padres portugueses que se escondem das autoridades do xogunato para praticar sua religião proscrita. Obra mais profundamente religiosa de Scorsese, o longa dialoga diretamente com a vida do diretor. Católico de criação, mas com reservas e dilemas com a religião, tem uma relação complexa com ela, algo que transborda para o filme. O silêncio aqui também é o silêncio de Deus, aquele som, a um só tempo, ensurdecedor e inaudível, que só aqueles que buscam escutar a voz do Criador de todo coração são
capazes de seguir tentando ouvir, mesmo que o ensejo possa nunca vir a acontecer. É assim com o personagem principal, Padre Rodrigues — lindamente interpretado por Andrew Garfield, no que talvez seja o seu melhor papel — e é, presumivelmente, assim também com o próprio Scorsese.

Antes de mergulhar neste silêncio desesperador, o padre jesuíta Sebastião Rodrigues se encontra em uma situação extrema e, por isso mesmo, heroica. Junto de seu outro companheiro, o Padre Francisco (Adam Driver), também jesuíta, são enviados pela Ordem ao Japão em busca de seu mestre que, ao que tudo indica, cometeu apostasia, renegando a fé católica. O problema, no entanto, não é apenas encontrar seu mentor e fazê-lo resgatar sua antiga fé, mas fazer isso em um país em que o catolicismo está banido e é passível de execução. Ir para lá como padre, então, se torna uma sentença de morte. Em meio a sua busca pelo Padre Ferreira (Liam Neeson), os dois jesuítas são recebidos pelos cristãos japoneses, sempre de maneira conspiratória e vigilante, buscando escapar das autoridades japonesas. Dentre esses cristãos japoneses, encontra-se Kichijiro, uma figura muito curiosa e indecifrável, mas por isso mesmo emblemática. De todos os praticantes japoneses da religião ocidental, Kichijiro é sempre o mais propício a
renegar a sua religião para salvar a pele, algo que acontece algumas vezes durante o filme.

O Padre Rodrigues, por sua vez, começa a enxergá-lo, com o passar do tempo, com um quê de desprezo por sua atitude covarde e herética. Com sua moral elevada, tem dificuldades em conceber e perdoar as figuras dos apóstolos Pedro e Judas em uma só pessoa, algo contraditório em si mesmo, pois saber perdoar os fracos e falhos é prerrogativa sine qua non para todos os cristãos, que dirá dos sacerdotes. Se Jesus não veio para os sãos, mas para os doentes; não veio para os justos, mas para os pecadores, não seria, portanto, Kichijiro o mais cristão dos cristãos, capaz de pecar e, mesmo assim, buscar de todo o coração o perdão em Deus,
quantas vezes forem necessárias? É a pergunta que o próprio Padre teme responder.

O dilema do jesuíta, no entanto, é ainda maior do que compreender essa figura. Capturado e aprisionado pelo xogunato, o personagem de Garfield se recusa a cometer apostasia. Ele não tem medo da morte, do cativeiro ou da privação de alimentos. De peito aberto, abraça o seu destino para não renegar Aquele a quem deve tudo, em uma atitude beatífica em tudo diversa de Kichijiro. Mas tudo se torna pior quando o objeto de tortura deixa de ser ele. Para fazê-lo renegar sua religião, as autoridades
começam a massacrar e assassinar outros cristãos japoneses, até que o Padre resolva dar fim àquilo, com o “simples”, porém altamente simbólico e espiritual ato de apostatar.

Preso nesta via crucis, Rodrigues sofre mais do que nunca ao observar as suas negativas resultarem em mais dores e sofrimentos. Seria tão fácil pisar no fumie e encerrar o martírio, não? Não para ele. Do seu ponto de vista, seria a mais alta traição, consigo e para com Deus. E o que o próprio Cristo Jesus faria nesta situação é a pergunta que inevitavelmente vem à mente. Renegaria a si próprio e sua divindade, enganando a si e ao mundo — algo de que é incapaz, por definição — ou deixaria inocentes sofrerem em seu lugar? Um paradoxo insolúvel, ao que parece. Mas Padre Rodrigues não é Cristo e, quebrantado, ouve a voz silenciosa do
Redentor — ou pensa ouvir para aliviar sua consciência? — e finalmente apostata para dar fim ao tormento dos outros, sem, contudo, encerrar o seu próprio, que o acompanhará até o fim da vida, agora como um cidadão japonês e expatriado de seu próprio nome e cultura.

O filme se encerra com sua morte, em um funeral que segue o rito budista. Ao final, a câmera se aproxima e, protegida entre suas mãos, vemos uma cruz de madeira entalhada, revelando que, até o fim, Rodrigues permaneceu Padre em sua alma, mesmo que no mais absoluto silêncio do seu espírito.

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