Alguém já disse que o policial é o gênero que condensa de maneira mais vívida as contradições sociais e os conflitos morais dos indivíduos – desde que não caia no maniqueísmo rasteiro “mocinho x bandido”. Um longa-metragem e uma minissérie nacionais comprovam isso, por caminhos diferentes.
Assalto à Brasileira, de José Eduardo Belmonte, que entra em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira, trata de reconstituir em chave tragicômica um evento real: o assalto a uma agência do Banestado, em Londrina, em dezembro de 1987.

Era dia de pagamento, às vésperas do Natal, e a agência estava lotada. Clientes e funcionários foram feitos reféns e ficaram durante horas sob as armas de um grupo meio atrapalhado de assaltantes. A polícia cercou o local, a televisão passou a transmitir o drama ao vivo – enfim, todos os ingredientes de um acontecimento midiático típico de uma grande cidade.
A situação remete a filmes bem diversos – Um Dia de Cão (1975), de Sidney Lumet, O Plano Perfeito (2006), de Spike Lee, a série La Casa de Papel (2017-21), etc. –, mas ganha aqui uma sólida ancoragem no contexto histórico-social em que tudo acontece, a saber: o Brasil urbano meio enlouquecido dos anos Sarney. Inflação descontrolada, remarcação de preços da noite para o dia, “fiscais do Sarney” tentando tapar o rombo com um esparadrapo.
No filme de Belmonte, o protagonista improvável, ou um deles, é um homem colhido pelo acaso no centro do furacão: o jornalista desempregado Paulo (Murilo Benício). Ele está no banco no momento em que chegam os assaltantes e vê ali a chance que tem de voltar ao mercado de trabalho, pois tem um “furo” nas mãos. Acaba se tornando um misto de negociador e de estrategista.
O componente da malandragem, do jogo de cintura, está presente também em outro personagem negociador, o comandante Fonseca (Paulo Miklos), que comenda a operação policial de enfrentamento aos assaltantes. Os líderes do assalto, Moreno (Christian Malheiros) e Barba (Robson Nunes), nem sempre estão de acordo entre si nem consigo próprios.

A habilidade de Belmonte, um cineasta prolífico que já experimentou inúmeros gêneros com resultados desiguais, consiste em manter em equilíbrio a tensão e a comicidade, com base no controle do ritmo e na eficácia do elenco. Com isso, seu filme é ao mesmo tempo um policial, uma crônica social e uma sátira política. Em seu concentrado de espaço-tempo vêm à tona fraturas sociais e raciais, dilemas éticos, o papel da mídia e, não menos importante, a (dis)função social dos bancos. Afinal, como dizia Brecht, o que é roubar um banco comparado a fundar um banco?
Já a minissérie Delegado, de Leonardo Lacca e Marcelo Lordello, que estreou na semana passada no Canal Brasil e terá sete episódios semanais, é um mergulho vertiginoso numa delegacia de polícia do Recife. O que torna essa exploração especialmente interessante é que ela é empreendida por um jovem idealista de classe média, o recém-nomeado delegado Felipe (Johnny Massaro).
A estratégia de apresentar a realidade policial da periferia recifense pelos olhos de um novato propicia uma identificação quase imediata do espectador: descobrimos junto com Felipe não apenas o funcionamento “extraoficial” da delegacia, mas todo o complexo e poroso relacionamento entre a lei e o crime numa metrópole brasileira.

Isso se dá sem perder de vista as contradições e ambiguidades de todos os personagens, do delegado Felipe a seu auxiliar Marmota (o ótimo Rubens Santos), da empresária benemérita Dagmar (Hermila Guedes) à delegada (e namorada eventual de Felipe) Débora (Alice Carvalho).
A julgar pelos primeiros três episódios, exibidos no recente Festival de Brasília, a série tem mais cara de cinema do que de televisão, por seu ritmo, por seus enquadramentos, por sua atenção aos detalhes.
A primeira sequência é exemplar: Felipe chega a uma repartição da polícia para tomar posse de sua primeira arma corporativa. O funcionário encarregado de entregá-la verifica nos arquivos que ela pertenceu ao mítico Biu Doidão, um controverso policial matador, que fazia um risco no cabo da pistola a cada pessoa assassinada. Em breves e expressivos flashbacks vemos Biu em ação, matando gente, e depois sua própria morte, na cama, com os miolos estourados.
O funcionário diz a Felipe que até hoje não se sabe se ele foi assassinado ou se disparou acidentalmente a própria arma, que guardava sob o travesseiro. Mas, num movimento sutil de câmera, a filhinha de Biu vê que há uma janela aberta – por onde, imaginamos, o assassino pode ter entrado. Essa fricção entre o que se diz e o que se mostra não é muito comum em séries e novelas. É, essencialmente, cinema – e bom cinema.