De acordo com a cronologia evolutiva do ser humano, no período da pré-história, houve uma sucessão de evoluções que desembocou no homem moderno – o Homo Sapiens. Antes desse grupo se tornar predominante e permanecer até os dias de hoje, existiram os neandertais – o Homo Neanderthalensis –, que conviveram com os sapiens antes de sua extinção. Contudo, algumas técnicas foram passadas aos sapiens. Uma delas é explicada por Sophie de Beaune no ensaio Da beleza do gesto técnico na pré-história. Nesse texto, a autora toma como ponto de partida os utensílios que apresentavam, na sua extremidade, uma lâmina talhada de pedra: as bifaces.
A autora analisa como os sapiens fizeram uso da técnica aprendida pelo contato com os neandertais, aprimorando-a e dando novos contornos e acabamentos aos utensílios bifaces. A tese de Sophie de Beaune é que o acabamento no talhe da pedra, como demonstram descobertas mais recentes desses artefatos, estaria relacionado à estética. Haveria, para os sapiens, uma aproximação entre o belo e a produção desses objetos, ou seja, quanto mais acabado, simétrico e pontiagudo fosse o utensílio, maior seria a preocupação estética dos sapiens.
É a partir do encontro entre esses dois grupos de descendentes diretos do homem moderno, bem como das similitudes e disparidades entre eles, que Paulliny Tort constrói seu mais novo romance. A autora, oriunda de Brasília, publicou anteriormente o ótimo livro de contos Erva Brava (Fósforo, 2021), com o qual ganhou o Prêmio APCA e foi finalista do Prêmio Jabuti em 2022, e Allegro ma non troppo (Editora Oito e Meio, 2016), seu romance de estreia.
Os imortais (Fósforo, 2026) é o segundo romance da autora e gira em torno de uma narrativa composta por múltiplas vozes e personagens. Aqui conhecemos o grupo liderado por Homem, um neandertal que está em busca de um lugar tranquilo, com animais para caça e um local para dormir. Esse grupo também conta com a Mulher, que invoca o fogo que cozinha os alimentos do grupo, e a Velha, uma líder espiritual que dita e confirma atos com base nos ensinamentos de seus ancestrais. Depois de uma caçada, durante a qual um dos integrantes quase morre, o grupo encontra um lugar para ficar por alguns anos. Mas, numa caverna na floresta, próxima a um vulcão – embora o grupo ainda não saiba disso –, eles encontram os sapiens, a quem capturam e matam, restando apenas uma senhora idosa e uma mulher grávida. A única sobrevivente é a filha dessa mulher, a Menina, cooptada pelo grupo e desprezada por ser considerada um símbolo de azar pela Velha. Ela aprende com o Homem a fazer as armas que os guerreiros usam para caçar, mas tudo muda quando os neandertais capturam outro sapiens.
Da busca do gesto e da linguagem
A primeira coisa que chama a atenção no romance de Paulliny Tort é sua ambientação, a maneira como a escritora contemporânea retorna à pré-história. Estamos diante de neandertais e de sua busca por comida, por modos de compreender o que está acontecendo e pela iminente extinção de sua espécie. Em todo esse contexto, há uma tentativa de colocar essas questões na linguagem e por meio dela. O modo como as personagens desse grupo caminha e descobre o mundo está relacionado à maneira como se dá a relação entre eles e a natureza, sempre no tatear e no campo de batalha em busca da sobrevivência.
Embora a ambientação seja primorosa e o mote narrativo já aponte um caminho novo e diferente do que encontramos na produção literária da atualidade, alguns temas surgem no romance como um espelho do nosso tempo. Ao se depararem com os sapiens, a relação com o inimigo, visto como um estrangeiro, é de combate e eliminação. Posteriormente, o aprendizado proporcionado pela Menina, a única sobrevivente, é sempre tênue, aceito por algumas pessoas do grupo e negado e ojerizado por outras. A Menina é uma personagem estranha ao grupo e, por isso, ao se deparar com o outro sapiens, passa a se identificar com ele, o que desperta nela um desejo de mudança.
[…] O corpo pega embalo, é arremessado com vontade na ribanceira e rola como um tronco, não como uma pessoa, não como a curandeira que salvou o pequeno. Engolida pelas samambaias, a grisalha desaparece. Só uma pena negra fica flutuando no ar. Não é um sepultamento, mas um descarte. A Mulher sabe que jamais dariam a qualquer parente, nem ao pior deles, um destino assim, porém, estrangeiros não contam. (p. 72)
Essa mudança que ocorre na Menina abala as certezas sobre si e sobre sua relação com o espaço ao seu redor. A transformação subjetiva está atrelada às mudanças no espaço físico: o vulcão que entra em erupção, a busca por esse outro estrangeiro e o encontro com outros indivíduos de sua espécie. Os tremores de terra e as fissuras provenientes dos caminhos magmáticos estão ligados à personagem e ao seu desejo de sair daquele lugar: “Tudo é sangue. O mundo está sangrando” (p. 131).
Além do tema da estrangeiridade, tão recorrente nos dias atuais, com a quantidade de imigrantes que adentram países de todo o mundo por inúmeros motivos, a questão da mulher também se relaciona com o presente. Mulher, a Velha, a mãe da Menina e a outra idosa do grupo dos sapiens são constantemente colocadas em segundo plano, descartáveis por vezes, vistas como objetos, estupradas e com suas decisões sempre questionadas pelos homens, que possuem cargos e exercem a função de provedores na hierarquia do bando.
Paulliny Tort é muito assertiva quando aponta a atualidade de sua representação da pré-história, pois é por meio desse retorno ao passado que podemos compreender melhor o presente e suas intrincadas relações de gênero, nas quais a mulher é sempre colocada em posição de inferioridade em relação ao homem. Além disso, como as personagens ainda não dominam o ato de nomear e sua linguagem é rudimentar, elas são caracterizadas por sua função e pelo que são dentro daquele lugar: as cozinheiras, a Mulher, a Velha, a Menina, os Inimigos e assim por diante.
Dentro do possível, daquilo que as palavras e os gestos permitem, daquilo também que é tolerável, a Mulher contou que existiram e talvez ainda existam pessoas iguais a ela, embora soe muito vago, porque a menina jamais viu outra gente que não esta e mesmo outros iguais a estes nunca viu, de modo que é impossível imaginar esse povo que seria seu, assim como é difícil imaginar a planície e os cavalos que vivem nas paredes e que os caçadores descrevem nas fogueiras, mas o que ela menos entende é como veio parar aqui. Quem era a sua mãe? Ela não pertencia a um clã? (p. 100-101)

Essa busca pela linguagem, de balbucio em balbucio, entre os neandertais, como se observa nas letras e sons que iniciam os capítulos do livro, sofre um corte brusco diante das outras formas de ver e interpretar o mundo dos sapiens: os desenhos na parede, o som da flauta, sua relação com o fogo e os modos outros de usar as armas. Sophie de Beaune, pesquisadora mencionada no início do texto, conclui que os sapiens estavam mais focados na “integração ao meio ambiente” do que com o tempo gasto “à sua subsistência”. Isso significa que dispunham de mais tempo para produzir objetos estéticos, como aponta a pesquisadora, ou, nas palavras de Paulliny Tort: “[…] então os caçadores teatralizam muito. Contorcem caretas, imitam cavalos, contam histórias, argumentam – a menina acha interessante” (p. 125).
Nas quatro partes que dividem o romance, percebemos esse movimento crescente, como se os sapiens fossem perdendo o protagonismo e estivéssemos diante de uma seleção natural, na qual sobreviveria o mais forte e mais preparado para lidar com o ambiente hostil e tão precário da pré-história. Assim, a Menina representa essa mudança; o que veio antes vai morrendo ao longo do romance, enquanto outros sucumbem à precariedade do lugar. É o caso do Homem, que sai da posição de líder do grupo para se amalgamar à natureza, num poético e belíssimo devir-cavalo: “Ele parecia muito feliz, muito feliz. Sem se levantar, bate com os punhos no chão e diz algo que significara: o cavalo habita em mim” (p. 134).
Paulliny Tort invoca um passado tão distante e comum a todos, marcado pelo surgimento dos sapiens e pelo convívio com os neandertais, para abordar problemáticas tão presentes nos dias de hoje, como se aquilo que encontramos e presenciamos no agora fosse um eco do passado. Para isso, a autora cria, recria, fabula e inventa um romance de múltiplas vozes, com seus próprios modos de se comunicar – com o corpo, com a flauta, com a arma de caça, com os desenhos na parede, com o fogo e afins. A narrativa conduz o leitor por uma história tão bonita e inventiva, marcada pelo cuidado com a linguagem. Tort é uma artesã, e seu romance é um trabalho artesanal com a matéria que escolhe abordar, similar aos movimentos repetitivos e precisos dos sapiens ao fabricar as bifaces. Com toda certeza, ouviremos falar desse livro por muito tempo.