quinta-feira, 22 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

Amanhã eu morri sozinho, de Lucas Barros

Amanhã eu morri sozinho é um bom romance de estreia, com nuances e um uso muito consistente do fluxo de consciência e do romance de formação, trazendo à tona demandas da juventude contemporânea e das infâncias de corpos dissidentes e fora do padrão, com muita sobriedade e limpidez, sem esconder nada
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Na historiografia da literatura, existe o que os críticos e pesquisadores denominam de romance de formação, que surge na Alemanha no final do século XVIII e tem como precursor o livro Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Johann Wolfgang von Goethe. A partir desse livro, houve uma produção romanesca pautada no percurso de uma personagem, por vezes começando na infância e seguindo até a idade adulta, ao longo do qual o leitor acompanha os percalços e o amadurecimento da personagem.

Em Romance de formação: caminhos e descaminhos do herói (Ateliê Editorial, 2020), Marcus Vinicius Mazzari, um dos principais pesquisadores do tema no Brasil, explica que esse empreendimento de desenvolver a personagem, traçando um trajeto de acompanhamento da sua formação, não cai em desuso, ao contrário, modifica-se com o tempo e incorpora modificações importantes, de acordo com as demandas sociais do contexto em que autor está inserido. Se outrora era comum um desfecho positivo, no contexto moderno e contemporâneo, o âmbito social pode mudar esse cenário final.

É sobre o romance de formação que se firma e se sustenta o romance de estreia de Lucas Barros, Amanhã eu morri sozinho (Intrínseca, 2026). O autor pernambucano, nascido em Garanhuns, é formado em Comunicação Social pela UFPE e ganhou notoriedade com seus conteúdos literários na internet, nos quais indica obras e faz críticas para seus seguidores. O romance gira em torno de Caetano, cuja trajetória acompanhamos desde o momento em que dá significado à falta paterna e ao longo de suas vivências escolares, marcadas pelas violências sofridas por ser um sujeito gordo, até a construção de sua relação com a morte. Essa relação, constante em sua vida desde a tenra infância, vai ganhando novos tons e percepções com o crescimento do protagonista. Em seguida, Caetano sai do ensino fundamental e adentra o ensino médio, quando precisa desenvolver estratégias de sobrevivência para esconder o corpo e se proteger do seu algoz, Artur.

Contudo, essa postura defensiva, expressa no uso do casaco e em uma postura encurvada, deságua na relação com sua mãe, uma delegada na cidade de Garanhuns, e nas tentativas de emagrecimento, que ocasionam a bulimia, transtorno alimentar discutido a partir da perspectiva de um corpo masculino. A narrativa também acompanha sua fuga, após o ensino médio, para outra cidade, onde se insere num relacionamento conturbado com Augusto. Tudo isso resulta num encadeamento de colapsos vividos pela personagem principal ao longo do livro, mas que ganha força na reta final da narrativa.

DOS DILEMAS DO CORPO

Lucas Barros começa o livro narrando a morte, que a personagem principal nomeia como mortE. A certeza de que o fim está próximo e a angústia que isso causa estão no cerne da construção de Caetano. Mas outro ponto importante de ressaltar é que, ao começar o romance descrevendo a morte e seu lugar na existência, o autor indica ao leitor que a falta provocada pela morte física e simbólica reverbera até o final do romance.

“Não há solidão maior que ser a morte, algo sem começo, nem meio, nem fim. Quando tudo se tornou tudo já existia a morte. Para que tudo se torne nada, é preciso que exista morte. É ela que dá os fins, mas também quem obriga novos começos. Dentro dessa solidão, precisou encontrar uma maneira de punir a nós, os humanos, fazendo morada nos pensamentos de alguns, como eu, tomando conta, se esparramando pelas mentes desaviadas.” (p. 12)

Caetano tem seu desenvolvimento narrado por meio de crises que se instauram desde cedo. O corpo é um tópico importante, pois, ao representar um corpo gordo e o incômodo que ele causa àqueles que possuem um corpo padrão, inserido nas normas estabelecidas, a narrativa evidencia uma relação de poder na qual Caetano é violentado constantemente no âmbito escolar.

A falta instaurada pelo pai e, posteriormente, pela não adequação aos espaços que ocupa levam o protagonista a se reestruturar de formas outras, escondendo-se e evitando as pessoas ao redor. Quando adentra o ensino médio, após um período sem amizades no ensino fundamental, a situação muda aos poucos, mas, assim como o próprio processo de entendimento de si, essa mudança apresenta altos e baixos. Aquilo que se manifesta em crises existenciais e na vontade de morrer ganha um comportamento materializado no corpo, no ato de colocar para fora o que come, como uma metáfora para retirar de si o que incomoda e o que machuca.

“[…] A fragilidade com que tudo mudou me fez lembrar da impermanência das coisas, tudo era frágil, temporário, a morte era a única que permanecia, que não tinha fim porque era o próprio fim, que não tinha começo porque era o próprio começo, e era entre esse começo e fim que o que restava acontecia.” (p. 113)

Logo, suicídio e bulimia estão ali compondo uma personagem que se constrói ao longo do romance. O fluxo de pensamento como estruturação da narrativa é um ponto forte de Barros e aparece de forma muito segura, permitindo que o leitor perceba os signos, as repetições discursivas (algumas em demasia), a falta que não se preenche e o ato de vomitar que não resolve nada. Associada a esse contexto e inscrita no corpo da personagem, há a morte, personagem fantasmática que está o tempo todo dentro da narrativa, demandando e movimentando o enredo, viva, ativa e exaustiva.

Lucas Barros também empreende uma narrativa que, por vezes, não explica muito, deixando lacunas intencionais no texto e associando os lapsos e silêncios a mecanismos de defesa. O autor cria uma personagem com muitas camadas, cujos contextos e situações de vida se transformam com o passar do tempo, mas cujas experiências acabam aprofundando um emaranhado de questionamentos e crises do qual Caetano, ao final, não consegue sair.

É um livro marcado por não ditos no plano físico, mas em cujo plano interno há gritos, sussurros e falas reprimidas. Caetano cresce em meio aos problemas e questões que o acometem. O que se espera é uma resolução dessas demandas, mas isso não acontece e, em momento algum, há a pretensão de que aconteça – e que bom. A narrativa provoca no leitor o incômodo de estar diante de um protagonista que não quer melhora, apenas fuga.

“O que eu sentia era um vazio grande, como se me faltassem pedaços. Se fosse fazer um desenho de mim mesmo, desenharia um homem todo esburacado. Buracos irregulares e escuros distribuídos pelo corpo e um buraco maior, bem profundo, no meio do peito. Era ali que o vazio parecia maior, assim como a dor também.” (p. 226)

A fuga de Caetano também está associada à passagem e à vivência do tempo. Nas duas partes que dividem o livro, “vida (morte)” e “morte (vida)”, existem dinâmicas distintas na relação de Caetano com o que está vivendo. Na primeira, há uma descrição dos atos de violência e da casa, e parece que tudo está marcado por um ritmo mais lento, próprio das cidades fora dos grandes centros urbanos, como Garanhuns. Na segunda parte, há uma dinâmica mais acelerada dos acontecimentos, com idas e vindas no tempo, acontecimentos sobrepostos, brigas e pensamentos acelerados. Afinal, o protagonista está no ápice do processo de definhamento do corpo e da mente. Os títulos das partes apontam para essa relação entre viver e morrer. Não tem como abordar a morte sem falar de vida.

Lucas Barros também dinamiza o uso dos tempos. Passado, presente e futuro estão num bailado ao som das causas e consequências dos atos, intensificados pelo não dito e pela paralisia diante de uma melhora. Caetano é um personagem memorioso, com medo do amanhã e que não vive o presente, sempre há algo que o impede do gozo: “Que fizessem o que quisessem, ser tomado por desejo era suprir meu desejo” (p. 197). O fluxo de personagens, com suas aparições e desaparições, também pode estar relacionado aà dificuldade do protagonista de se fixar no presente e elaborar o que está vivendo. Por vezes, isso pode dar a impressão de que os coadjuvantes não são desenvolvidos ou são meros acessórios. 

Amanhã eu morri sozinho é um bom romance de estreia, com nuances e um uso muito consistente do fluxo de consciência e do romance de formação, trazendo à tona demandas da juventude contemporânea e das infâncias de corpos dissidentes e fora do padrão, com muita sobriedade e limpidez, sem esconder nada, sem recorrer a uma linguagem encobridora ou a um final bobo. Lucas Barros escreve abrindo uma cova, arriando o caixão e enterrando seu personagem, mostrando uma verdade inconveniente, mas importante.

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