A 12 de agosto de 1824, o Diário Fluminense publica uma lista de novos Cavaleiros da Ordem Imperial do Cruzeiro. Os nomes vêm um a seguir ao outro, sem destaque especial para nenhum: “José de Castro do Canto e Mello” e, logo depois, “Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, Official Maior Graduado da Secretaria de Estado dos Negocios do Imperio.”
Nenhum dos dois sabia, nesse dia, o que o nome do outro viria a significar. A mesma honra, o mesmo dia, dois caminhos até ela completamente diferentes.
O homem que subiu com a irmã
José era irmão de Domitila de Castro, amante de D. Pedro I. Luiz era funcionário público, bibliotecário de formação, sem parente nenhum no leito do imperador. Um por proximidade de sangue, outro por ofício, ainda que nem tudo o que vem a seguir se ex‐ plique só por essa diferença.

José sobe nos anos seguintes: Sargento-Mor em 1824, Coronel do Estado-Maior do Exército e Oficial da Ordem do Cruzeiro em 1827, um duplo salto de patente e de hon‐ raria no mesmo ano. Em 1828, casa com a própria sobrinha, Francisca, filha de Domiti‐ la do primeiro casamento dela. Não há decreto que diga “promovido por ser irmão de Domitila”, os documentos falam de patentes e de serviço militar. Mas a concomitância é difícil de ignorar: ele sobe justamente nos anos em que a irmã está no auge, e aprofunda o laço com ela, pelo casamento, no ano anterior a tudo desmoronar.
Em 1829, tudo muda. D. Pedro I casa com Amélia de Leuchtenberg, e a posição de Domitila na corte desmorona. Nesse mesmo ano, José é “licenciado por motivos de saú‐ de” e reformado como Brigadeiro. Os documentos não escrevem a palavra “queda”, es‐ crevem “saúde”, mas a coincidência de calendário fala por si.
A queda, porém, não é seca. José mantém o título de Gentil-Homem da Casa Imperial por mais treze anos, até ser destituído dele em 1842, ano também da sua morte. A curva é uma descida longa e lenta, não vertical, que começa em 1829 e só termina treze anos depois.
O homem que ficou onde estava
Luiz, no mesmo período, não se move.
Em 1827, continua Oficial-Maior graduado da Secretaria, o mesmo posto que já tinha em 1824, ainda atrás de Theodoro José Biancardi no lugar efetivo. Não há indício de mudança nesse cargo nem em 1828, nem em 1829, nem em 1830. Quatro anos para‐ do no mesmo degrau, atravessando sem se mexer exatamente os anos em que José sobe, casa, e cai.
A 18 de outubro de 1829, um dia depois da cerimónia oficial do casamento de Pedro I com Amélia, Luiz recebe a Comenda da Ordem de Cristo, por petição própria, pelos serviços de escrever a Constituição e lavrar os Termos do Juramento. A proximidade das datas é sugestiva, mas não é prova de causa. O decreto não menciona o casamento, e não há como saber se a data foi escolha deliberada ou apenas o calendário normal de despachos daquele outubro.
O verdadeiro salto de Luiz vem depois, e vem de outro poder. A 19 de abril de 1831, doze dias depois da abdicação do próprio D. Pedro I, a Regência Provisória promove-o a Oficial-Maior efetivo, no lugar deixado por Biancardi. Não foi o imperador que subiu Luiz. Foi quem veio depois dele.
Duas curvas, o mesmo ponto de partida
José sobe com o mesmo Pedro que o descarta. Luiz atravessa esse Pedro inteiro, o casamento dele, a abdicação dele, e sobe só quando já não há Pedro nenhum no trono.
Não há correspondência entre os dois, não há registo de que alguma vez se tenham cruzado fora daquela lista de agosto de 1824. O que os liga é só isso: um dia, uma lista, duas linhas seguidas de nomes. A partir daí, um sobe pela irmã e cai com ela, devagar. O outro sobe pelo ofício, sem irmã nenhuma para cair.
