O interesse permanente despertado pela filosofia de Nietzsche não constitui um fenômeno recente. Por mais que durante quase toda a sua vida tenha passado quase invisível para grande parte da inteligência alemã e europeia, indiferença essa que não lhe passou despercebida e à qual ele não atribuía como causa a não ser a mediocridade de seu tempo ante a grandeza de sua obra, o pensamento nietzschiano não demorou muitos anos para se tornar uma das influências mais marcantes do século XX.
Mesmo em vida, ainda que de forma escassa, o pensador de Röcken não deixou de concentrar ao redor de si ouvidos atentos para suas palavras. Seu primeiro livro causou uma polêmica pouco usual para as obras de filosofia de sua época, e isso se deve, é claro, ao fato de que, até então, o jovem Nietzsche pertencer ao círculo restrito dos filólogos. Seus críticos, quase todos filólogos apaixonados, dentre eles seu ex-professor Ritschl, que não concordava com “sua interpretação da Grécia e sua defesa da importância da Grécia para a Alemanha”, foram-lhe impiedosos e, de alguma forma, já deixavam antever o que seria seu destino dali por diante.
Alguns deles, inclusive, chegaram ao cúmulo de ridicularizar a própria formação de Nietzsche, acusando-o de ignorar a leitura de Homero e Arquíloco e afirmando serem mentirosas e delirantes suas colocações sobre esses autores, como é o caso de Wilamowitz-Möllendorff. Nietzsche, entretanto, não se deixou abater, seguindo seu caminho rumo à filosofia e, de alguma forma, à poesia, ainda que os ataques sofridos tenham deixado cicatrizes em seu espírito. Como filólogo não chegaria muito longe, embora muitos afirmassem ser seu destino estar entre o primeiro time da filologia alemã. Não se pode medir a dimensão dessa perda. Entretanto, se ela for proporcional ao grande filósofo no qual se tornou, o lamento de seu velho professor não deixa de ter lá certo sentido.
No entanto, seu destino não eram os bancos escolares, tampouco as cátedras de filologia, ainda que fosse um brilhante filólogo e sua competência anunciasse um futuro muito promissor nesse campo. Como lembra Brinton: “Não fora ele, aliás, um máu [sic] professor, principalmente nos primeiros anos. Como conferencista, era menos acanhado e medroso, sentindo-se mais garantido pelo tablado. Falava com clareza e autoridade, embora sem talento oratório”. Entretanto, a essência de sua natureza não se adaptaria ao mundo asfixiante da vida acadêmica, contra o qual posteriormente ele se rebelaria, lançando sobre as instituições de ensino alemãs uma das críticas mais ácidas de sua história, apontando as contradições de sua estrutura, na qual o Estado reina soberano, como um Leviatã cínico, agindo quieto nas sombras, em nome de seus próprios interesses.

A obra de Nietzsche percorreu quase todas as questões filosóficas de seu tempo. Ante todas elas, mostrou-se ele um pensador implacável, jamais fazendo à mediocridade nenhuma concessão. E, dentro da vasta floresta na qual se moveu, sua filosofia sempre se manteve fiel, consciente de que a ela estava reservada uma tarefa grandiosa. Da filologia ao teatro grego e ao nascimento da tragédia, da moral ao Cristianismo, da metafísica à ciência, da poesia à racionalidade, para onde quer que dirigisse seu olhar fazia-o sempre com a exigência do erudito, a sensibilidade do pensador e a leveza do poeta. Carpeaux chega a comentar que “Nietzsche parece poeta porque a sua filosofia se dirige não só ao intelecto, mas a todo nosso ser. […] Esse poeta autêntico é um autêntico pensador”.
Seu estilo não só renovou a filosofia alemã, mas toda a filosofia ocidental posterior, que encontrou nele um exemplo de que a velha oposição entre emoção e racionalidade não encontrava mais asilo, não passando de um grande preconceito. O seu século, de certa forma, exigia um autor que fosse capaz de apreender e aprender todos os mecanismos que regiam (e, por vezes, ainda regem) as normas intelectuais, artísticas, históricas, morais e políticas. E ele cumpriu com maestria a sua missão, embora tenha pago um alto preço por sua vitória. Como ele mesmo afirmava: “De tudo o que se escreve, aprecio somente o que alguém escreve com seu próprio sangue. Escreve com sangue; e aprenderás que o sangue é espírito”.
II
Dificilmente se poderá avaliar a presença de Nietzsche na nossa cultura. Seus livros polêmicos e por vezes quase agônicos e delirantes estenderam suas raízes por todos os campos da inteligência ocidental. Se avaliarmos o alcance de livros como Assim falou Zaratustra, O Anticristo, Ecce Homo, A Genealogia da Moral e Vontade de Potência, que são tão somente alguns de seus títulos mais conhecidos, poderemos ter uma pálida imagem do filósofo de Röcken.
As razões para tamanha influência são diversas e por vezes beira a hilaridade e o ridículo. Mas como ser moderno e ao mesmo tempo não ser ridículo? Pois Nietzsche é propriamente o filósofo da modernidade. Sua fragmentação, sua capacidade de síntese, sua forma assistemática de pensar e seus impressionantes ataques ao mundo moderno não constituem um estilo, mas um sintoma. Não lhe seria possível pensar senão assim. Não poderia deixar aos seus contemporâneos senão uma potente mensagem de repreensão. E isso no mesmo século que viu desabrochar uma verdadeira revolução científica, que prometia antes progresso do que fracasso. Pode-se assim precipitadamente acreditar ser ele um filósofo pessimista, como geralmente é lembrado.
A classificação seria correta se os fatos não nos revelassem o contrário. As descobertas de Alfred Nobel e de Oppenheimer não forneceram ao iludido homem contemporâneo o sonhado progresso. Sua consequência resultou nos massacres de Hiroshima e Nagasaki e nos campos de concentração de Auschwitz. Um homem não pode ser considerado pessimista por apontar as mazelas de seu tempo. Como Dostoiévski (de quem, aliás, era um leitor ávido), Nietzsche foi um profundo e atento realista. Nada escapou a seus olhos cansados, atacados por suas enxaquecas crônicas e as leituras de Stendhal. Ele é, assim como classificou Dante em seu Crepúsculo dos Ídolos, a hiena que verseja nas sepulturas, com a diferença de que, no caso do pensador alemão, essas sepulturas ainda aguardam seus mortos. Nietzsche apenas anuncia esses sepulcros, que guardarão seus contemporâneos e seus sucessores imediatos.
De todos os campos em que atuou, é geralmente na literatura, na filosofia moral e na crítica cultural que é mais lembrado, sem prejuízo de sua desconcertante filosofia, ainda que, nele, ela não fosse senão um pretexto para a escrita. E, em verdade, ao lado de Schopenhauer, Goethe, Freud, Heine, Walter Benjamin, Herman Hesse, Heinrich von Kleist e Kafka, foi um dos mais competentes estilistas de sua língua. Não em vão seus textos nos causam um impacto tão profundo quanto um bom romance ou um bom poema nos pode causar. Seu poder de síntese, a acidez e precisão de seus aforismos, e a beleza e alcance de suas imagens são desconcertantes. Não por acaso sua velha casa em Sils Maria, na Suíça, tornou-se um lugar de visitação quase sagrado, para o qual acorreram intelectuais de todos os campos do globo, em busca do célebre enfermo de Turim. É curioso esse tipo de adoração cega e que beira o fanatismo. O próprio Nietzsche certamente rechaçaria tamanho entusiasmo e o classificaria de idolatria, e atribuiria esse comportamento a uma mentalidade plebeia e de rebanho. Foi ele mesmo quem certa vez escreveu: “apenas agora vos ordeno que me percais e que vos encontreis; e somente quando me tiverdes todos negado, voltarei para vós”. E tendo a acreditar que esses fiéis adoradores jamais tenham alguma vez se encontrado.

Alguns dentre eles (somente os mais predestinados) ainda conseguiram encontrar nesse demolidor de ídolos matéria-prima suficiente para suas obras, como é o caso de Níkos Kazantzákis e Thomas Mann. Zorba, o grego é um livro mais nietzschiano do que muitos do próprio Nietzsche. É quase uma versão grega do Zaratustra, sem o tom ao mesmo tempo messiânico e agônico dessa obra. Em todo caso, conserva dela aquela exaltação da vida e esse “gosto de viver” que Zaratustra apresenta.
Zorba não desce da montanha. Está plenamente estabelecido e confiante na planície, onde pode dançar impunemente e beber seu vinho sem maiores complicações. Seus animais, ao contrário do célebre personagem nietzschiano, não são a águia e a serpente. Nesse aspecto, Zaratustra se parece mais com Dante do que propriamente com Zorba. Zaratustra sabia dançar, mas a dança era-lhe, antes, um pretexto, ao passo que Zorba baila celebrando a vida, na tocante ingenuidade de acreditar que ela é bela.
Zaratustra é uma lança em riste contra o Cristianismo e tudo que é cristão. Suas pregações poderiam muito bem sair da boca do próprio Nietzsche. E, quando ouvimos o sábio persa falar, é a imagem do próprio filósofo de Röcken que suas palavras evocam. Nietzsche usa sua face para falar de Deus. Com isso escreveu uma obra ousada, uma das mais belas e importantes de seu século. Mas, ao despir-se dessa máscara, seu pensamento entrou em crise e colapsou.
Todos esses aspectos não estão no Zorba de Kazantzákis e, no entanto, todos nele podem ser encontrados. Aqui, a influência da forma superou o conteúdo, o que é perfeitamente compreensível, pois Nietzsche é a própria revolta feita carne, o apóstolo de um mundo em agonia, que já em seu tempo ensaiava suas últimas palavras.
Algo totalmente diverso se operou em Thomas Mann. O elegante e por vezes prolixo romancista de A Montanha Mágica não herdou de Nietzsche o amor à polêmica e à revolta. Mann pertence à tradição dos grandes eruditos da Alemanha, àquele mesmo grupo que Herman Hesse ironiza em O Jogo das Contas de Vidro, com a considerável diferença de ter Mann direcionado seu poderoso arsenal ao campo literário. Isso, contudo, não o livrou das garras de seus críticos, que viam nele um burguês acomodado, um impostor literário e um decadente. Carpeaux, por exemplo, o considerava um “filósofo sem ideias”. Todos esses ataques são exagerados, ainda que possamos concordar com eles em pontos isolados.
Entanto, esse filósofo sem ideias soube como poucos interpretar a triste e lenta agonia de sua época, e algumas de suas obras são quase transposições romanescas de algumas das principais obsessões de Nietzsche. Seu Doutor Fausto é tão niilista quanto Nietzsche poderia ser. Seu Tadzio é a recriação romanesca do ideal de beleza buscado por Nietzsche, com a diferença de que, no caso do filósofo alemão, essa beleza se expressasse em caracteres musicais, e não literários. Estava antes encarnada na música de Wagner e na Carmen de Bizet, dois dos principais santos do altar nietzschiano, para o qual a música, assim como para Beethoven, era a suprema revelação, acima de toda sabedoria e de toda filosofia. É uma opinião ousada e discutível, é verdade. Mas isso não está em questão.
Algumas das discussões centrais de A Montanha Mágica trazem à baila pontos significativos do pensador de Ecce Homo, só que sem o seu poder de síntese. Aqui um ponto sensível. Ao contrário do que possa parecer, a alegada prolixidade de Mann não é involuntária. Livros como Morte em Veneza provam que, quando a síntese é necessária, Mann a utiliza com maestria. O caso é que grandes ideias necessitam por vezes grandes espaços. E não se pode tratar de um problema como o nazismo em poucas linhas sem que isso tenha alguma coisa de negligência e irresponsabilidade.
O próprio Nietzsche, que se orgulhava de seu poder aforístico, não o utilizou ao compor sua obra mais célebre, Assim falou Zaratustra. A ela, dedicou um tempo razoável, sendo uma de suas obras mais extensas. Mesmo um mestre do aforismo reconhece que esse gênero de recurso não é o mais apropriado para ideias complexas. Mann seguiu esse caminho. Mesmo nesse sentido foi um discípulo atento de Nietzsche, ainda que se julgasse um devoto de Schopenhauer.
Seus romances são vastos porque o campo que precisam percorrer é vasto. Mario Vargas Llosa, que foi um dos últimos adeptos do romance como um painel da complexidade humana, defendia a tese segundo a qual grandes romances são romances grandes. A ideia, que a princípio poderia parecer descabida, torna-se cada vez mais plausível ao nos darmos conta de que a esmagadora maioria dos grandes livros da literatura ocidental é de fato composta por livros volumosos, e integram essa lista obras como Dom Quixote, Decamerão, Guerra e Paz, A Comédia Humana, Crime e Castigo, Gargântua e Pantagruel, O Vermelho e o Negro, Os Miseráveis, Em Busca do Tempo Perdido, Moby Dick, Cem Anos de Solidão, Os Mais, Grande Sertão: veredas, Oliver Twist, Conversa no Catedral e uma infinidade de outras grandes obras. Em todas elas, a extensão do pensamento, por alguma razão, equivale ao número de páginas.
Mann sabia disso, assim como o próprio Nietzsche era consciente desse fato. O apelo de Nietzsche ao aforismo é seu canto do cisne. É como se nos dissesse que não há mais espaços para grandes ideias e que querê-las encaixar nesse mundo novo é como tentar aprisionar um elefante dentro de uma caixa.

III
Se me fosse permitido fazer um elogio desse homem atormentado, eu simplesmente diria que, de todos os intelectuais de seu século, foi ele talvez o mais lúcido. Esse homenzinho enfermo, que, ao não poder vencer sua doença, resolveu então amá-la (e nisso empreendeu um esforço comovente), essa alma agônica, que era frágil como cristal e perigosa como uma espada, o pastorzinho de Röcken viu seu tempo de uma forma que nenhum outro pensador foi capaz de enxergar. Talvez por isso amasse tanto Dostoiévski, a ponto de considerá-lo o único psicólogo com quem aprendia alguma coisa. E quem quer que conheça sua obra e sua personalidade saberá como essa declaração é extremamente honrosa para o romancista russo.
Em todo caso, foi Nietzsche quem mais se aprofundou nos dilemas do homem de sua época. Foi, como queria Carpeaux, um poeta, e como tal descreveu magnificamente bem os dilemas de um mundo em transição. Mas foi sobretudo um poeta naquele mesmo sentido que defendeu Shelley em sua magnífica defesa da poesia, isto é, um legislador não reconhecido do mundo, um paciente demiurgo, que lança as bases da lei e do conhecimento, sem, é claro, esse ar exagerado que o poeta inglês atribui aos poetas com o mesmo ardor com que Rousseau defendia seu bom selvagem.
No caso de Nietzsche, entanto, seu ar belicoso encontrou inimigos poderosos e sarcásticos. Bertrand Russell, ele também um crítico ferrenho de sua época, não deixou de apontar no filósofo alemão aquele mesmo tipo de delírio do qual rei Lear é acometido, prometendo uma vingança assombrosa, capaz de abalar toda a terra, mas sem conseguir esclarecer do que propriamente essa vingança se trata.
É uma observação espirituosa, devemos reconhecer, guarda certa verdade, ainda que isso possa ferir os ouvidos delicados de seus estudiosos e adoradores (os quais, se Nietzsche fosse vivo, grande parte seria chicoteada por ele como fez o Nazareno com os vendilhões no Templo). Contudo, não chega a descrever com exatidão o que se passava naquela alma em chamas.
Entanto, há na crítica de Russell pontos luminosos, os quais não se deve negar. Tais aspectos referem-se sobretudo ao caráter fragmentário do filósofo alemão e à sua personalidade mais literária do que propriamente filosófica. Podem ser representados pelas seguintes passagens:
Nietzsche, embora professor, era um filósofo mais literário que acadêmico. Não inventou novas teorias técnicas na ontologia ou na epistemologia; sua importância reside principalmente na ética e, em segundo lugar, como crítico histórico de visão penetrante.
[…]
Que devemos pensar das doutrinas de Nietzsche? Até que ponto são verdadeiras? São, de algum modo, úteis? Há nelas algo objetivo, ou são simples sonhos de poder de um inválido?
É inegável que Nietzsche teve grande influência, não entre filósofos técnicos, mas entre pessoas de cultura literária e artística. Deve-se também reconhecer que suas profecias quanto ao futuro provaram, até agora, estar mais próximas da verdade do que as dos liberais e socialistas. Se êle (sic) é um mero sintoma de enfermidade, tal doença deve estar muito disseminada no mundo moderno.
São palavras que podem a princípio parecer duras, mas provêm de um intelectual sincero, que, por outro lado, não deixou de reconhecer as virtudes de Nietzsche.
Às vezes, um homem pode ser muito mais castigado pelo que não disse do que propriamente por suas palavras. Algo semelhante a isso se passou (e se passa) com Nietzsche. Seus leitores apaixonados não o entendem. Seus estudiosos juram ver nele um certo tipo de filósofo que nem ele mesmo pretendeu ser. Os mais fanáticos buscam com lupa qualquer coisa como uma unidade, um sistema em seu pensamento, e no auge de seu delírio afirmam ter encontrado. E, ao nos apresentar essa descoberta maravilhosa, exibem diante de nossos olhos os narizes metafísicos da cidade de Fuchéu.
Nietzsche, se os conhecesse, certamente os ouviria com atenção e, ao final, repetiria, como Álvaro de Campos:
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço! Não gosto que me peguem no braço.
Quero ser sozinho. Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ele já os tinha previsto naquele seu belo estudo sobre David Straus: são todos eles, de alguma forma, filisteus da cultura, que se apropriam do pensamento pulsante e vivo de um homem para deturpá-lo ou enquadrá-lo em alguma disciplina acadêmica, e com isso ganhar seu salário. Suas palavras sobre isso são assombrosas:
Mas, em suma, o que nos revelam todas essas considerações? Que por toda parte onde, agora, a cultura parece promovida mais animadamente, não se sabe nada desse alvo. Por mais que o Estado enfatize o que faz de meritório pela cultura, ele a promove para se promover e não concebe nenhum alvo que seja superior ao seu bem e à sua existência. O que os negociantes querem, quando exigem incessantemente instrução e cultura, é sempre, no final das contas, lucro. Se os carentes de formas atribuem a si os trabalhos específicos pela cultura e pensam, por exemplo, que toda arte lhes pertence e tem de estar a serviço de sua carência, isso só evidencia que eles afirmam a si mesmos ao afirmarem a cultura: que, portanto, nem mesmo eles superam um mal-entendido. Do erudito já falamos bastante. Assim como são zelosas essas quatro potências quando meditam entre si sobre a maneira de se beneficiarem com o auxílio da cultura, assim elas são apáticas e negligentes quando esse seu interesse não está em jogo. E por isso as condições para o surgimento do gênio, no tempo moderno, não melhoraram, e a má vontade contra o homem original aumentou em tal grau que Sócrates, entre nós, não teria podido viver e, em todo caso, não chegaria aos setenta anos.
Bem verdade que a revolta não é estranha ao mundo alemão. Homens como Lutero, Marx, Hitler e Brecht, cada um em seu campo, demonstram à exaustão como essas bestas loiras podem ser perigosas. Porém a ambição de Nietzsche, ainda que não o confesse, não foi propriamente ser revolucionário, mas um reacionário. Ele não queria um novo mundo, mas um mundo perdido, que está em sua alma, e que não mais se encontra diante de seus olhos. Por certo que não é um saudosista, como Proust ou um criador de novos e ousados mundos, como Brecht. Era antes uma criança que procura desesperadamente um brinquedo que perdeu e com o qual jamais poderia brincar. Em um de seus momentos mais incisivos, ele nos confessa:
Em que, então, é útil ao homem do presente a consideração monumental do passado, o ocupar-se com os clássicos e os raros de tempos antigos? Ele aprende com isso que a grandeza, que existiu uma vez, foi, em todo caso, possível uma vez e, por isso, pode ser que seja possível mais uma vez; segue com ânimo sua marcha, pois agora a dúvida, que o assalta em horas mais fracas, de pensar que talvez queira o impossível é eliminada.
Creio que o mundo moderno possa prosseguir sem as superstições que atualmente povoam o imaginário comum, sem seus exageros e suas paranoias tecnológicas e políticas. Porém dificilmente poderá avançar sem as ideias de Nietzsche. Não porque sua existência seja crucial aos homens comuns, mas sim porque um mundo livre implica necessariamente um mundo em que suas crenças e valores podem ser criticados. A concordância geral e o silêncio coletivo, ao que parece, nunca foram sinônimo de civilização. Um mundo assim é um cemitério de ideias, no qual um homem pode ser trucidado por lançar um olhar diferente aos aplausos em geral. Há quem acredite que um mundo assim é a experiência da própria perfeição. Mas geralmente os que nutrem tais ideias jamais estão do lado dos que estão silenciados.
A lição de Nietzsche é simples: há que criticar tudo, com amor e sem piedade, mas jamais guiado por qualquer força senão o amor à verdade, essa palavra tão desacreditada em nossos dias, tão negada e tão temida. Seus pensamentos nos sugerem um método: estar atento sempre, lúcido por princípio e ser sincero por amor, senão amor aos homens que convivem conosco nesse triste mundo, ao menos amor a nós mesmos. É uma lição poderosa, que jamais pode ser esquecida, mas diariamente lembrada.