Renato Borghi volta a homenagear Dalva de Oliveira quase 40 anos depois de A Estrela Dalva, espetáculo realizado a partir de texto de sua autoria e de João Elísio Fonseca, com Marília Pêra interpretando a célebre cantora e direção de Roberto Talma. Não se trata, porém, da mesma montagem revisitada. O objetivo, em Minha Estrela Dalva, não é fornecer um panorama da trajetória de Dalva por meio de um musical biográfico tradicional (essa vertente, inclusive, ganhou impulso com A Estrela Dalva), por mais que determinados aspectos da jornada da artista surjam realçados: a excelência do repertório, o preconceito por não acompanhar as tendências – os modismos de cada fase –, os maus tratos sofridos nos relacionamentos com homens exploradores, o vício em bebida alcóolica. Mas o que norteia essa nova encenação, atualmente em cartaz no Teatro Claro Mais, é o elo afetivo de Borghi com Dalva (a natureza pessoal do projeto já fica explicitada no título).

No palco, Borghi fala sobre a conexão com Dalva, que atravessa sua vida. Elcio Nogueira Seixas faz o Borghi de 1969, que estabeleceu interação com Dalva entre a admiração e o choque decorrente de compreensões de mundo distintas. Diferentemente de Borghi, que, no final da década de 1960, integrava o Teatro Oficina – companhia que fundou em 1958 com José Celso Martinez Corrêa, Carlos Queiroz Telles e Amir Haddad –, Dalva, de acordo com o texto da peça, se definia com uma cantora clássica, sem interesse por uma expressão artística politicamente engajada. Em Minha Estrela Dalva, Borghi entra em conflito com Dalva ao tentar convencê-la a cantar músicas de Bertolt Brecht e Kurt Weill. Mas, ao expor seu embate com a musa, Borghi percebe em si a possibilidade de conciliar visões e gostos artísticos discrepantes.
Em 1969, diante do acirramento da ditadura militar, o Oficina implantou o te-ato, termo que dizia respeito a espetáculos nos quais os artistas externavam posicionamentos contundentes, como cidadãos, para além das peças ficcionais que encenavam, e buscavam desestabilizar – também fisicamente – os espectadores. Foi o período em que o Oficina montou textos de Brecht e Borghi traz à tona Na Selva das Cidades. Borghi estava, portanto, comprometido com uma perspectiva política e contestadora de teatro. Mas isto não inviabilizou sua adesão, até anterior, a uma proposta diversa de teatro: a do entretenimento popular, que ambicionou o riso imediato do público por meio de atuações físicas sustentadas pela habilidade dos atores em improvisar frente a um coletivo de espectadores renovado a cada apresentação.

Borghi menciona o teatro de revista, que vigorou das últimas décadas do século XIX ao início dos anos 1960, em especial no Rio de Janeiro. Esse subgênero do musical não era destituído de teor político. Afinal, passava em revista, em retrospectiva, acontecimentos do ano anterior ligados à cidade e/ou ao país. Mas essa unidade temática não se manteve entre os quadros da revista durante todo o tempo, principalmente a partir do momento em que os espetáculos começaram a priorizar o luxo da produção. Seja como for, a fruição da plateia permaneceu como propósito central. Renato Borghi evoca a revista e os trabalhos de comediantes notórios (Dercy Gonçalves, Grande Otelo) que praticavam um teatro desvinculado do defendido pelo Oficina, apesar da mescla de referências (do erudito ao popular) contida na encenação de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. E é importante lembrar que Borghi rompeu com o teatro de combate do Oficina na temporada de As Três Irmãs, montagem da peça de Anton Tchekhov, em 1972.
Diretores de Minha Estrela Dalva, Elias Andreato e Elcio Nogueira Seixas procuram conjugar diversão – por meio do repertório musical de Dalva – e conscientização – de uma cena que dialoga com Bertolt Brecht. De um lado, o espectador é envolvido pelas canções entoadas por Dalva, valendo destacar a direção musical e os arranjos de William Guedes e o conjunto dos músicos (Guedes, Georgia Camara, Dodo Ferreira, Tibor Fittel, Maria Clara Valle, Jocelynne Cardenas, Renata Neves). De outro, Andreato e Seixas investem numa quebra de barreira entre palco e plateia (mas sem abertura para interatividade). A apreciação do espetáculo não perde o seu caráter emocional; torna-se, contudo, menos ilusionista. Há preocupação em preservar algum distanciamento crítico em relação às questões abordadas.
Entre os recursos de distanciamento brechtiano está o descolamento entre ator e personagem, cabendo ao primeiro evitar se fundir, se amalgamar, com o segundo, como se fossem um corpo único. Nessa montagem, Renato Borghi, que em A Estrela Dalva interpretou Herivelto Martins, não porta um personagem (ou faz o personagem de si mesmo). Desarmado em cena, Borghi se apresenta em primeira pessoa, como no recente espetáculo Haddad & Borghi: Cantam o Teatro, Livres em Cena, idealizado por Eduardo Barata, no qual rememorava parte da sua história profissional. Elcio Nogueira Seixas, como o Borghi de 1969, não tem a intenção de reproduzi-lo por meio de procedimentos de composição, e sim de, através dele, entrelaçar passado e presente, chamando atenção para a ousadia de feitos do teatro de décadas anteriores (ressalta mais de uma vez a nudez de Ítala Nandi em Na Selva das Cidades) e para a perpetuação de atitudes violentas e discriminatórias (como a imposta às mulheres pelos homens). Mas, em que pese a relevância dos tópicos levantados, o Borghi que emerge de Seixas (ambos parceiros no grupo Teatro Promíscuo) gera certo estranhamento pela maneira um tanto rude com que confronta Dalva. Além disso, o ator se relaciona com a plateia com demasiada ênfase.

Soraya Ravenle, que pertenceu ao elenco de apoio de A Estrela Dalva, interpreta agora a cantora reconstituindo a forma peculiar de falar. A atriz recorre a caracterização que se desfaz, propositadamente, no trecho final da apresentação. Num ato de desmascaramento, Ravenle retira a peruca e, por um instante, continua atuando como Dalva. Uma desconstrução que sugere que a concepção de uma figura real não se reduz à reprodução mimética. Depois, atriz e personagem se separam e Ravenle relata sua longeva carreira em musicais. Não por acaso, confirma o domínio técnico e a extensão vocal que marcaram seu trabalho em muitos outros espetáculos do gênero. Ivan Vellame acumula os personagens masculinos que transitaram pela vida de Dalva. São breves aparições nas quais sobressai a qualidade da voz.
Minha Estrela Dalva é uma montagem que deixa à mostra a sua estrutura, como se pode notar na dramaturgia (de Borghi) e no registro interpretativo do elenco. Essa particularidade é reforçada pela cenografia de Márcia Moon, composta por partes de escadas articuladas ao longo da apresentação, como engrenagens da cena manipuladas de forma árdua (o cenário é excessivo para as dimensões do palco do Teatro Claro Mais) pela equipe diante da plateia. O intuito parece ser o de caminhar na contramão de uma criação visual sedutora. As tonalidades da iluminação de Wagner Pinto minimizam, em alguma medida, a aridez da cenografia. Os figurinos de Fabio Namatame contrastam a coloquialidade dos trajes cotidianos usados por Borghi e Seixas com o glamour dos vestidos de época escolhidos para Dalva/Soraya.
Há, em Minha Estrela Dalva, uma tentativa de fazer com que o público concilie posturas, até certo ponto, antagônicas: o envolvimento emocional suscitado pelo musical revisionista e a análise de problemáticas perpetuadas no decorrer do tempo. O esforço nem sempre é bem-sucedido, mas o resultado mobiliza o espectador.
MINHA ESTRELA DALVA – Texto de Renato Borghi. Direção de Elias Andreato e Elcio Nogueira Seixas. Com Soraya Ravenle, Renato Borghi, Elcio Nogueira Seixas e Ivan Vellame. Teatro Claro Mais (R. Siqueira Campos, 143 / 2º piso). Qui. e sáb., às 20h, sex. e dom., às 17h. Ingressos: de R$ 100,00 a R$ 180,00. Temporada: de 20 de agosto a 27 de setembro.