As montagens de peças clássicas – ou de exemplares de uma dramaturgia sólida que não necessariamente se enquadrem nessa classificação – perderam bastante espaço nas últimas décadas no panorama da cena do Rio de Janeiro. Por isso, a escolha de Fim de Partida, do irlandês Samuel Beckett, representa um oportuno risco: o de reaproximar o público contemporâneo da palavra, iniciativa que implica num reencontro com a experiência da escuta e numa desaceleração do ritmo desenfreado imperante nos dias de hoje.
No espetáculo de Rodrigo Portella, em cartaz no Teatro TotalEnergies, o contato com o texto vem acompanhado de uma construção visual impactante, mas concebida não apenas com o intuito de deslumbrar a plateia, e sim a partir de uma ampliação do conceito de dramaturgia: há as palavras da peça pronunciadas pelo elenco; e as enunciações dos diversos elementos que pertencem à encenação (cenário, figurinos, iluminação, trilha sonora). Também portadores de textos, esses elementos se constituem como possíveis acessos dos espectadores à montagem.

A cenografia de Daniela Thomas (que assina direção de arte) reforça a claustrofobia e as restrições físicas dos personagens de Beckett – Hamm, cego e paralítico, Clov, que não consegue sentar, Nagg e Nell, presos em latas de lixo. Hamm e Clov interagem dentro de uma caixa cênica retangular e com teto rebaixado, erguida numa espécie de palco suspenso. Há duas saídas – uma porta, numa das laterais, e uma abertura no teto, alcançada por meio de escada –, mas os personagens permanecem quase que inteiramente confinados nesse espaço que realça a relação de dominação, com Hamm encarnando o papel do opressor e Clov, o do oprimido. O segundo ameaça abandonar o primeiro; hesita, porém, em concretizar a intenção.
A dinâmica entre ambos se repete numa configuração aparentemente estagnada. Na dramaturgia de Beckett, os personagens dão a impressão de estarem condenados a uma espera infinita. O leitor/espectador se depara com uma noção de tempo esgarçada em peças que trazem histórias sem muitos desdobramentos (pelo menos, no sentido tradicional), marcadas por estruturas circulares. No entanto, mudanças acontecem, ainda que de modo lento (o desenlace de Nell em Fim de Partida, o nascimento de folhas na árvore na passagem do primeiro para o segundo ato em Esperando Godot).
Em Fim de Partida, há constantes menções ao meio externo e, em que pese um eventual teor delirante de personagens distantes de um modelo de funcionamento realista, o autor sugere que o mundo não se encerra num ambiente único. Talvez o mundo tenha sido aniquilado – a peça foi gestada alguns anos depois do final da Segunda Guerra Mundial –, a julgar por certa atmosfera apocalíptica e por objetos destituídos de vida (os bonecos, o cachorro). Nessa montagem, Clov transcende as fronteiras da cenografia quando se dirige ao proscênio e se desloca por uma das laterais do espaço, revelando parte dos bastidores do palco e enfatizando o teatro, o jogo de cena, na peça e, consequentemente, no espetáculo.

Integrada à cenografia, a iluminação de Beto Bruel obedece às demarcações do espaço. A luz irrompe pela porta e pelo teto, mas Bruel investe em gradações que expandem a expressividade da cena. Lida com as limitações de forma enriquecedora, postura sintonizada com uma manifestação como o teatro, que não dispõe das ferramentas tecnológicas de outras artes para seduzir o público. Além disso, a luz ultrapassa as áreas determinadas para a sua entrada. Destaca transparências no cenário e o urdimento do palco e, num dado instante, se volta para a plateia, incomodando-a e, ao mesmo tempo, incluindo-a. Os figurinos de Antonio Guedes são adequadamente gastos e evidenciam coerência cromática com as demais criações. A trilha sonora de Federico Puppi é rascante e composta por ruídos, acrescentando camadas ao invés de tão-somente reiterar a cena.
O elenco enfrenta as dificuldades da dramaturgia de Beckett, tanto no que se refere aos desafios físicos quanto ao texto propriamente dito. Ator que transitou, ao longo da carreira, por peças clássicas (A Morte de um Caixeiro Viajante, Quem tem Medo de Virginia Woolf?, O Burguês Ridículo) e comédias de projeção popular (As Desgraças de uma Criança, Doce Deleite, O Mistério de Irma Vap), Marco Nanini comprova, nessa interpretação, a inquietação que norteia a sua trajetória. Sentado na cadeira de rodas de Hamm, o ator transmite o autoritarismo, a fragilidade e a manipulação do personagem por meio da voz, sem se contentar com um resultado de efeito imediato junto ao público. Guilherme Weber, artista central nos espetáculos da Sutil Companhia de Teatro, reproduz o corpo curvado de Clov. Segue, mas sem simplesmente reeditar, as indicações contidas na peça, estabelecendo convivência repleta de atrito com Hamm e movimentação frequente que contrasta com a inação dos personagens. Helena Ignez, atriz reconhecida no cinema brasileiro de vigor experimental, tem participação envolvente como Nell. Ary França, notabilizado no terreno do humor, reveste as intervenções de Nagg de recursos de composição, especialmente perceptíveis no trabalho vocal.

Fim de Partida é uma montagem fiel a procedimentos de encenação de Rodrigo Portella, como a valorização da estrutura do texto através da leitura de rubricas. Não significa, contudo, que o diretor adote atitude submissa em relação à peça. Por outro lado, Portella evita se sobrepor ao texto. Busca um equilíbrio delicado entre o enaltecimento da escrita de Beckett e proposições autorais que se estendem às contribuições artísticas desse espetáculo.
FIM DE PARTIDA – Texto de Samuel Beckett. Direção de Rodrigo Portella. Com Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França. Teatro TotalEnergies (R. do Russel, 804). Qui. e sex., às 20h, sáb., às 19h e dom., às 17h. Ingressos: de R$ 25,00 a R$ 160,00. Temporada: de 20/8 a 27/9.