quarta-feira, 29 de julho de 2026 |
REVISTA LUME • JORNALISMO EDITORIAL
CRÍTICAS

Jack White nos pântanos com William Faulkner

Um endiabrado músico retratando a decadência moral e o isolamento.

Se musicalmente Jack White evoca o peso de Detroit e de cidades caóticas, liricamente Frozen Charlotte se muda com todas as malas para o universo pantanoso dos contos e novelas de William Faulkner e Carson McCullers. Com seu novo álbum, as canções de Jack White não são crônicas confessionais, mas sim pequenos contos habitados por personagens à beira do abismo existencial: são figuras obsessivas, paranóicas e irremediavelmente marginalizadas. Existe um tipo de arrepio que atravessa toda a poética do disco. White trabalha na mesma frequência de decadência moral, isolamento e herança maldita que assombra as páginas de O Som e a Fúria.

Rogers are blown out of their trajectory into an orbit which freezes his life support system and returns Buck Rogers to Earth five hundred years later. Photo by @Bianca Blauth

Um disco em que a guitarra uiva e esbraveja, a paranoia de Jack White é presente e atinge seu ápice na claustrofóbica “Neighbors Blues”, uma narrativa poderosa sobre o medo da vigilância moderna, onde o isolamento social se transforma em delírio espiritual. Em “There’s Nobody There”, White descreve a decadência doméstica através da imagem brutal de um “cemitério de poses na cozinha”. Não há romance aqui; as relações interpessoais são retratadas como jogos de poder fadados ao fracasso. Em “You’ll Never Fix Me”, White assume sua própria natureza danificada, transformando a canção em um monólogo desesperado sobre a impossibilidade de redenção. São personagens grotescos, estagnados no tempo, que usam a agressividade como único escudo contra um mundo que já os alienou por completo.

A força de Frozen Charlotte repousa no atrito estético entre a reverência e a profanação. O blues que serve de espinha dorsal ao disco não é um exercício estéril de nostalgia, mas uma força telúrica violenta. O fato do compositor e músico ser apaixonado por som analógico, faz com que o resgata da urgência primitiva do Delta, entretanto a envelopa na eletricidade niilista do proto-metal e do punk setentista. E é ouro. A abertura com “G.O.D. and the Broken Ribs” desconstrói o mito do Éden de forma irônica: Deus e a criação humana viram pretexto para um riff monolítico e um duelo áspero entre a guitarra desgovernada de White e o órgão Hammond hipnotizante de Bobby Emmett. Começa a viagem endiabrada de um disco de rock forte e honesto, que faz o gênero finalmente ter um respiro forte e voltar do enfermaria.

Essa fusão ganha contornos quase físicos na mixagem incrível do album. Ao escolher colocar a bateria de Patrick Keeler em mono, ou seja em um canal direto sem ser estéreo, White abre espaço para que suas guitarras ocupem o panorama estéreo de maneira predatória, tornado a música uma grandiosa ode ao rock. Em faixas como “Dollar Bill”, a guitarra slide deixa de ser um mero instrumento para soar como um objeto industrial possuído, rasgando o espectro sonoro com um timbre distorcido e sujo. O rock de garagem se manifesta aqui em seu estado físico mais bruto: é a celebração do erro, do amplificador valvulado levado ao limite do colapso e da rejeição total ao polimento digital contemporâneo.

For the next hour, sit quietly and we will control all that you see and hear. You are about to participate in a great adventure. Image by 愚木混株 @Cdd20

O que torna este álbum um objeto de estudo intelectualmente fascinante é a sua monomania. Enquanto a maioria dos artistas contemporâneos busca a validação através da maleabilidade de gêneros e do ecletismo, Jack White faz o caminho oposto: ele se tranca deliberadamente em uma cela estética de purismo analógico e obsessão rítmica. Se em trechos específicos da segunda metade o disco corre o risco de soar repetitivo, esse “defeito” parece fazer parte do próprio conceito artístico da obra.

Frozen Charlotte é o retrato sônico de uma mente fixada em seus próprios fantasmas. Ao amarrar a tragédia lírica de seus personagens faulknerianos ao misticismo sombrio do blues e à devastação do rock de garagem, Jack White assina um manifesto de resistência. O disco prova que com os artistas certos, as velhas ferramentas do rock não servem apenas para reproduzir o passado, mas para traduzir o colapso nervoso do presente.

Com Frozen Charlotte, Jack White realiza o seu melhor album,
sem descarecterizar sua música e sua trajetória.
100%