Se em Desonra, Nobel o sul-africano J. M. Coetzee faz uma alegoria da violência na África do Sul pós-apartheid, enquanto, em Eles te pegaram também, sua conterrânea Futhi Ntshingila vai por outro caminho: o da tentativa de compreensão. Compreender, no entanto, não significa superar, mas, sim, poder colocar cada um em seu devido lugar, para se poder reconstruir.

Os dois livros, no entanto, foram escritos em momentos históricos distintos. O de Coetzee é de 1999, no calor do momento ainda, já o de Ntshingila é de 2021, mas, além disso, ela é uma mulher negra, o que traz uma nova perspectiva diante da narrativa do homem de meia-idade branco. De qualquer forma, o livro da escritora e jornalista vive por si próprio independente de comparações.
Dona de uma prosa delicada, e, ao mesmo tempo, cortante, Ntshingila constrói uma trama de presentes que tentam fazer as pazes com passados. “Uma história é feita pelos detalhes e se aproveita dos benefícios de se olhar para a vida retrospectivamente”, diz um dos narradores, Sr Madala, um idoso vivendo numa casa de repouso em Joanesburgo, onde em tempo suficiente para pensar nas violências que cometeu no passado, quando era policial.
Narrado por diferentes personagens, o romance, traduzido por Davi Boaventura, acumula, assim, pontos de vistas que expandem seu horizonte ao observar o passado recente e um pouco remoto do país. Os pontos de vista que se acumulam complementam histórias e revelam uma rede de conexões sutis muito bem organizada pelo talento da autora.

A outra narradora principal é Zoe Zondi, enfermeira noturna que cuida do policial, e acaba se mudando também para a casa de repouso com a chegada da Covid. Filha de ativistas, cresceu com a ideia de também transformar seu país, mas as circunstancias a levaram para outro caminho.
A mão firme de Ntshingila se atenta aos detalhes que transformam seu personagens em figuras extremamente humanas, e, dessa forma, Eles te pegaram também é um romance sobre conciliações. Os crimes do Sr Madala, assim como o atos de violência testemunhados por Zoe, não serão esquecidos, e, obviamente, os transformaram, mas precisam ser exorcizados ou punidos para que tanto eles quanto a África do Sul possam fazer as pazes com o passado, sem o esquecer – para que nunca mais se repita.
Ao abrir mão do cinismo narrativo ou de uma espécie de revanchismo, a escritora parece mirar numa espécie de utopia pós-Covid de uma harmonia entre as diferentes populações. O nosso exercício enquanto leitoras e leitores é o de compreender como Ntshingila lida com as biopolíticas de forma sutil e sagaz.