Embora muito festejado como um gênero literário mais alinhado ao progressismo, não há como negar que existem autores reconhecidamente conservadores como Robert A. Heinlein e Poul Anderson. Mas no estudo Ficção Científica Capitalista, o escritor argentino Michel Nieva faz uma investigação mostrando como o capitalismo coopta essa literatura tomando-a como fonte primária para avanços tecnológicos, que apenas repõem as estruturas de poder e opressão.
A tese central do livro, publicado no país pela Ubu, é de que há tempos a imaginação de escritores e escritoras se transformaram uma espécie de estímulo e base para progressos materiais, de viagens à Lua a colonização de outros planetas – uma prática a cada dia mais iminente, uma vez que este está sendo consumido e destruído, em especial pela própria criação de tecnologias ou por elas mesmas.

Numa linguagem acessível, com tradução de Juliana Pavão, o livro levanta dados e argumentos consistentes baseados em evidências claras do nosso presente, como o Metataverso, a SpaceX e Blue Origin. Nieva define o aliciamento da linguagem da ficção científica pelo capitalismo como “uma narrativa sedutora de futuro hipertecnologizado, da qual as megacorporações e seus CEOs se apropriam não apenas para embelezar seus produtos, mas também para oferecer uma suposta solução para as crises socioambientais que o próprio capitalismo desencadeou.”
Assim, navegamos por um presente marcado por uma espécie de apocalipse latente (às vezes até explícito) marcado pela percepção de um zeitgeist de ficção científica. O curioso é que o gênero nunca tivera uma função premonitória – não é sobre o futuro, é sobre o presente, mas os magnatas da Big Techs tomaram o gênero como uma espécie de receita para o progresso. Nieva nos lembra de que “o Antropoceno [momento em que o ser humano foi convertido em agente geológico do planeta] é responsabilidade do capitalismo em gera, e do homem ocidental em particular”. E a ficção científica capitalista se torna um novo estágio do colonialismo, e uma maneira de posicionar contra isso é evocando o pensamento de comunidades indígenas, citando o Ailton Krenak e a ideia de “futuro ancestral”.

Mais uma via diferenciada que o autor traz em seu livro é a Quarta Internacional Posadista, uma organização politica trotskista internacional, criada pelo argentino Juan R Posadas, para quem os alienígenas que povoam a galáxia são povos mais esclarecidos e cujas sociedades alcançaram um socialismo perfeito, com igualdade e solidariedade, que virão à Terra para colaborar com os trabalhadores em sua luta contra a exploração.
Mais do que sonhar com essa possibilidade, no entanto, Nieva mostra que o futuro é uma narrativa em disputa, e a ficção científica, mais do que nunca, é uma mediadora dessa tensão. A sagacidade está exatamente em recuperar o gênero para o campo de onde sua melhor produção jamais deveria ter saído: o da utopia possível de ser materializada.