Para quem testemunhou a virada do milênio, é impossível desassociar o The Strokes daquela urgência urbana que definiu Is This It (2001). Ali, o quinteto novaiorquino entregou uma das grandes obras-primas do rock alternativo moderno: um som cru, direto, calcado na honestidade poética e na atitude blasé herdada diretamente de Lou Reed e do Velvet Underground. Havia um equilíbrio perfeito entre o desleixo juvenil e a precisão técnica. Vinte e cinco anos depois, colocar seu sétimo álbum de estúdio, Reality Awaits, para rodar evoca uma sensação complexa. Trata-se de um misto de estranhamento estético e profundo respeito pela maturidade lírica de uma banda que se recusa a virar um mero ato de nostalgia. Há ainda momentos emocionantes, mas falhas que podem atrapalhar a progressnao que conseguiram com The New Abnormal, último álbum da banda. Mais uma coisa é certa e é ótima: o The Strokes mostra que eles não estão mais se importando com nada.

O disco abre com “Psycho Shit”, e é preciso confessar que essa introdução captura o ouvinte. Há uma atmosfera densa, quase cinematográfica, que funciona bem ao ditar as novas regras do jogo. O produtor Rick Rubin e a banda claramente não queriam olhar para trás. No entanto, à medida que a audição avança, aquela assinatura analógica que nos fez amar o grupo parece ceder espaço a uma estética digitalizada que evoca a sensibilidade de um computador dos anos 1980.
O ponto mais divisivo aqui é, sem dúvidas, o papel de Julian Casablancas. Onde antes tínhamos aquela voz rasgada, ébria e profundamente humana, hoje topamos com camadas espessas de processadores vocais e autotune. O perigo dessa escolha é anestesiar a crueza rockeira que sempre foi o norte magnético da banda. Canções como “Falling Out of Love” perdem parte de sua potência dramática porque a entrega de Julian soa excessivamente processada, fria, operando dentro de uma caixa de ferramentas eletrônica um tanto datada.
Contudo, uma análise mais madura revela que esse verniz artificial não é um mero capricho estético; é uma escolha conceitual que ampara o denso subtexto político e existencial das letras. Se musicalmente o álbum patina no fetiche oitentista, textualmente os Strokes entregam seu trabalho mais profundo. Julian transformou-se em um cronista formidável do isolamento moderno e das conexões fragmentadas. Ele abandonou o niilismo jovem para abraçar uma melancolia adulta, refletindo sobre o envelhecimento, a obsolescência e a superficialidade da era digital.
O grande ápice dessa abordagem está no single “Going Shopping”. A música usa a imagem banal do consumo como uma metáfora ácida para o anestesiamento social. Ao cantar “Solidarity can be difficult when you’ve got cool stuff to lose” (“A solidariedade pode ser difícil quando você tem coisas legais a perder”), Casablancas escancara uma verdade incômoda sobre a nossa própria geração: trocamos o ímpeto de revolta pelo conforto do consumo. A crítica ganha tons ainda mais sombrios na frase “We’re building castles from the bones of dead trees” (“Estamos construindo castelos com os ossos de árvores mortas”), um aceno direto à crise climática e à nossa autodestruição capitalista. Em “Going to Babble On”, o niilismo mira o debate político esvaziado das redes sociais, onde a letargia do público é ironizada em meio a menções que vão do jornalista Chris Hedges ao crítico Anthony Fantano.

Essa desilusão com o mundo exterior espelha-se em um profundo conflito existencial sobre o próprio peso de ser um “Strokes”. Logo na abertura, em “Psycho Shit”, Julian questiona: “Only my beloved songs will define me / Can you be more than what you say?” (“Apenas minhas músicas amadas vão me definir / Você pode ser mais do que aquilo que diz?”). Existe um sufocamento nítido pelo fantasma de Is This It e pelo que o público espera dele. Sob essa ótica, soterrar a própria voz em filtros robóticos passa a fazer sentido. O uso das máquinas é o disfarce de um vocalista que quer se distanciar da própria identidade humana e do mito do “Rock Star”, transformando-se em um observador frio de uma realidade que ele já não compreende por completo. A ironia de criticar a artificialidade do mundo através de uma voz robotizada é o grande trunfo conceitual do álbum.
Felizmente, no meio desse turbilhão digital, a química instrumental da banda serve como o porto seguro do fã tradicional. As guitarras entrelaçadas de Albert Hammond Jr. e Nick Valensi, somadas aos grooves precisos de Fabrizio Moretti e Nikolai Fraiture em faixas como “Dine N’ Dash”, provam que a dinâmica interna do grupo permanece impecável. O DNA dos Strokes está ali, vivo, mesmo que submerso em sintetizadores.

Reality Awaits não é um desastre, tampouco uma obra incompreendida à frente de seu tempo. É o diário de bordo de uma banda rica, envelhecida e consciente de suas próprias contradições. Como fã que ainda idolatra o som de garagem de 2001, sinto falta daquela honestidade orgânica à la Lou Reed. Contudo, como ouvinte adulto, aceito que os Strokes de hoje preferem correr o risco de soar artificiais e datados a repetir uma fórmula confortável que já não pertence mais a quem eles são.