Gustavo Pinheiro costuma reunir personagens de gerações diferentes e, por meio deles, observar como o mundo mudou nas esferas comportamental, ideológica e política. Geralmente as peças se passam em espaços fechados, mas o autor rompe delimitações para abordar ou, pelo menos, tangenciar aspectos da vida brasileira. Em A Tropa, colocou quatro filhos diante do pai internado num quarto de hospital em embate que remete ao período da ditadura militar. Em A Lista, história ambientada num apartamento durante a pandemia, se debruçou sobre o contato conflituoso entre duas vizinhas, uma amargurada e saudosa dos áureos tempos de Copacabana e outra confrontada com os obstáculos da atualidade, mas sem adotar uma perspectiva fatalista.

Em Dois de Nós, o dramaturgo desdobra um casal, Pedro Paulo e Maria Helena, ao retratá-lo em fases distintas – na faixa dos 70 anos e dos 40 anos – e promove um encontro entre as duplas num quarto de hotel. Em comparação com peças anteriores, Pinheiro insere menos citações a espaços externos ou a fatos históricos específicos do país (há uma menção à derrocada econômica durante o governo Collor, que já havia sido evocada em A Lista).
Mas, ao apresentar esses personagens em estágios diversos de seu relacionamento, Pinheiro discorre sobre processos de transição nas últimas décadas que transcendem as fronteiras do Brasil. O autor destaca a falência dos modelos que, no passado, enquadravam, mais que hoje, homens e mulheres. Na peça, o casal com mais idade fornece uma panorâmica da própria trajetória e relata à sua versão na juventude o que ocorrerá no futuro, gerando vulnerabilidade no homem – diante da desconstrução da figura do provedor – e fortalecimento na mulher – com a conquista de um papel ativo no plano pessoal e na carreira.
Esse jogo de espelhos entre o casal e seu duplo lembra bastante A Dona da História, peça em que João Falcão mostrava uma personagem, na juventude e na maturidade, interagindo consigo mesma. O brilho poético, porém, não é semelhante. Gustavo Pinheiro traz à tona questões relevantes, como a desvalorização de profissionais veteranos num contexto cada vez mais pragmático e a proximidade da morte, evidenciada na crescente perda de vínculos afetivos. No entanto, investe mais nas particularidades do cotidiano, rapidamente reconhecíveis pelo espectador, do que numa dimensão existencial, interiorizada.

O autor procura divertir a plateia com o espanto do casal jovem diante dos aparatos tecnológicos, aos quais são introduzidos justamente pelo casal com mais idade, e com peculiaridades da vida conjugal. Esses recursos de humor tendem a suscitar identificação instantânea no público. Pinheiro alcança seu objetivo, conforme fica comprovado no sucesso do espetáculo em suas temporadas. Essa dramaturgia de resultado imediato, contudo, carece de frescor.
Em contraste com o envolvimento através do riso, o autor também busca sensibilizar o espectador por meio de um potencial dramático, enfileirando, em dado momento, revelações um tanto carregadas. E frisa, repetidas vezes, as experientes constatações do casal de 70 anos, assim como as tiradas cômicas, sinalizando dificuldade com uma escrita mais sintética. Na encenação, José Possi Neto amplia o problema da reiteração nos instantes em que incorre no didatismo ao fazer os atores/personagens pronunciarem, de frente para a plateia, posturas positivas (a importância do homem deixar que as emoções aflorem) e negativas (a oposição do marido a que a mulher trabalhe fora de casa), de modo a sublinhar mensagens.

Lidando com um elenco tarimbado, o diretor permite que os atores se expandam nos personagens. Ator de prestígio público que mantém permanente vínculo com o teatro – tendo chegado, na década de 1980, a capitanear um coletivo, a Companhia Estável de Repertório -, Antonio Fagundes confirma a sua habilidade no registro naturalista, informal, e tira proveito dos mecanismos de humor contidos na peça. Christiane Torloni – que, ao longo dos anos, consolidou bem-sucedida parceria com José Possi Neto – envereda por atuação de traços exteriores, marcada por constante extroversão que nivela, em certo grau, sua presença. Thiago Fragoso, apesar de exagerar nas reações aos sucessivos choques do personagem diante das informações sobre o futuro, demonstra vivacidade em cena. Alexandra Martins se integra às situações da peça, mas sem imprimir uma personalidade cênica mais realçada.
Os atores transitam por um único ambiente, um quarto de hotel, que ocupam em épocas diversas e por motivos variados. Na cenografia de Fabio Namatame, esse espaço conta com o mobiliário tradicional, mas há uma abertura para o meio externo, seja através da referência à natureza nas folhagens projetadas na cortina – em harmonizada criação com a iluminação de Wagner Freire, que, em determinadas passagens, contrapõe a neutralidade realista com explosões de cores, em especial do azul –, seja do painel de fundo, exposto ao final com alguma previsibilidade. Os figurinos, de Namatame, seguem à risca as circunstâncias propostas na peça para cada personagem.
Dois de Nós representa uma continuidade coerente em relação à dramaturgia de Gustavo Pinheiro. Mas o texto tem fragilidades que não são minimizadas na montagem. De qualquer maneira, o espetáculo cativa o público.
DOIS DE NÓS – Texto de Gustavo Pinheiro. Direção de José Possi Neto.
Com Antonio Fagundes, Christiane Torloni, Thiago Fragoso e Alexandra
Martins. Teatro Axia Casa Grande (Av. Afrânio de Melo Franco, 290 / Loja
A – Rio de Janeiro). Quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 17h. Ingressos:
plateia vip R$230 e R$115 (meia); plateia setor 1 R$210 e R$105 (meia);
balcão setor 2 R$180 e R$90 (meia); e balcão setor 3 R$160 e R$80 (meia).
Temporada: de 23 de julho a 1 de novembro.