Alors ce sera fini et je serai bien
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Louis-Ferdinand Céline
Não se parecem com nenhum nome — e os poetas provam isso ao lutarem contra isso. Nomes são etiquetas reconfortantes, determinações provisórias para coisas indeterminadas. Ainda assim seria melhor chamá-los de Rafa e Matheus ou, quem sabe, de Marcus e Fabi.
Marcus e Fabi, então.
Foi ideia minha. Eles organizavam algumas caixas quando nos cruzamos na garagem. O esqueleto de um armário ao lado de quatro bicicletas e móveis desmontados. Potes de cerâmica verdes e marrons enrolados em jornais. Mudanças desvelam mesmo as entranhas confusas da vida doméstica, pensei, aquela que se escolhe partilhar somente a dois ou, no máximo, com parentes e amigos próximos.
É indiscreto. Talvez imoral.
Deuses gregos em gesso e fotografias de família e telas de felinos psicodélicos disponíveis ao olhar dos que entravam ou saíam da garagem. As roupas emboladas defumando ao sabor de escapamentos anônimos. Tudo exposto e espalhado; indiferente. Deve ser mais ou menos como alguém acompanhando a projeção pública da sua cirurgia com pessoas comendo pipocas sossegadas diante das imagens, o próprio estômago no festival de cinema ao ar livre.
“Não precisam esperar”, disse Fabi equilibrando potinhos de cerâmica no colo enquanto Marcus arrastava a caixa cheia de pratos em direção ao elevador.
Pensei em oferecer ajuda consultando intuitivamente o manual da boa vizinhança, mas me lembrei da lombar, hérnia entre L3 e L4. Se estivesse pesada não teria como recuar no último instante. “Desculpe, não vai rolar: desidratação em quatro discos, três hérnias, uma extrusa!” Como ficaria minha imagem, a autoimagem? Mais: como ficaria a ilusão de que não sou um desses caras com movimentos limitados aos trinta anos?
Demorei para erguer essa minha barraquinha afetiva sobre um autoengano minimamente habitável. Autoengano cujas camadas se devem em boa parte a histórias milagrosas, distribuídas aos milhares pela internet, de pessoas com vértebras partidas agora professoras de mergulho ou — essas continuam minhas favoritas — artistas de salto ornamental. Uma vez oferecida a ajuda eu seria mesmo com dores forçado; sociocultural ou psicologicamente forçado a levantar a maldita caixa nem que perdesse no futuro próximo o movimento das pernas. Melhor fingir desatenção. A bondade, mesmo genuína, é impotente diante da dor.

Subimos aliviados. Eu por proteger o moral dos meus discos e Priscila por não dividir o elevador com mais ninguém.
Duas ou três horas depois nos reencontramos em frente ao prédio. Aguardávamos meus pais e meu irmão, que estavam vindo de longe para nos visitar, de muito longe. Marcus e Fabi esperavam um capacete esquecido no caminhão de mudanças. Começamos a conversar. Priscila é a misantropa mais simpática de todas e falava sobre o bairro com Fabi. Contei então para Marcus sobre a viagem dos meus pais, a loucura de viajar de carro por essas estradas, e ele sorriu, com um tique charmoso retraindo o canto dos lábios, ao me perguntar o nome da minha cidade natal. Falou que a conhecia, claro. Estranhei. Ninguém conhece Assis; não em Florianópolis. A não ser que…
Percebendo minha surpresa, ele me disse que também era do interior de São Paulo, Marília. Contente como um imigrante encontrando um conterrâneo após vagar por terras estrangeiras, falei sobre sermos dois caipiras perdidos em Florianópolis, e meu comentário foi recebido por um segundo sorriso, desta vez gelado.
Fabi cruzou a conversa e falou que era gaúcha como Priscila. Falamos por mais uns minutos. Priscila pegou o número dela e ficamos de combinar algo.
Foi uma semana agitada.
Cinco pessoas no apartamento. Quebra da rotina. Muitas idas à praia. Queria que meus pais se sentissem em casa, aproveitassem a cidade ao máximo; queria que pudessem, ao menos, levar boas lembranças daqui. Eles passam muito tempo em Assis, muito tempo sem planejar nenhuma viagem, encontrando com as mesmas pessoas — ninguém no caso da minha mãe e parentes ou pessoas do trabalho no caso do meu pai. Queria também que desaparecessem totalmente por algumas horas ao longo do dia.
Meu irmão, na casa dos vinte anos, parece despontar do casulo. Ainda o vejo envolvido naquela fina membrana recentemente rompida da adolescência, talvez até mesmo da infância, mas aqui ou ali certas características, antes flutuando como qualidades sem nome, parecem se cristalizar em formas mais elaboradas. Ele tem opiniões. Ele tem visão de mundo. É eticamente mais interessado do que jamais fui. As piadas de mau gosto são isso para ele: simples mau gosto. O amor nele parece mais genuíno, uma verdade incondicional.
A culpa por não participar da vida de alguém bonito e admirável, alguém tão próximo a mim, ao mesmo tempo tão distante; a culpa por ser um obcecado sem método, selvagem; várias culpas convergindo para o mesmo ponto: a leve irritação por tê-lo muito próximo e não conseguir, não desta vez, admirá-lo à distância.
“Será que Deleuze tem mesmo razão sobre a diferença entre sadismo e masoquismo?”, ele me perguntou.
Seguíamos na sacada do apartamento e o sol se punha sem grande espetáculo atrás dos morros. Os sons se distanciavam no limite da noite. O escapamento de uma moto estourou acelerando ao longe e a vibração foi logo envolvida pela manta de luz esgarçada, como o impacto de uma âncora afundando em silêncio.
Um evangélico de família evangélica e amigos evangélicos escrevendo sobre Sacher-Masoch… Brasil!
Respondi que, para mim, fazia sentido. O masoquismo passa pelo contrato, pela lógica do contrato, enquanto o sadismo envolve outros princípios, princípios cruéis.
“O masoquismo tem esse lance da frialdade, esse prolongamento como prazer. Não, o prazer não é o mais importante. Nem a dor, na verdade. O masoquista é um tipo de intelectual, por isso o contrato e tudo. Acho que Deleuze diz que o prolongamento do desejo é o mais importante por isso. Não sei. É estranho: por que a energia sexual disponível, neutralizada, dá no masoquismo e não em… não em outra coisa? Por que as coisas não podem se confundir mais e mais e acabam, sempre, numa categoria ou outra, sempre determinadas?”, ele disse, como se falasse consigo mesmo.
Meus pais e meu irmão enfim partiram. Voltaram de ônibus após longas e extenuantes conversas com o seguro naquele tom característico de ameaça sem o qual nada se consegue. Problemas no câmbio do carro, que foi levado pelo guincho. Fiquei me debatendo nesse emaranhado de alívio e remorso como um gato que se enrola no seu novelo.
Foi ideia minha, mas a campainha tocou e eu ainda segurava os tênis me decidindo se seria caseiro demais continuar de chinelos.
“Adoro essa cor meio bordô”, disse Fabi elogiando meus tênis enquanto arrastava seus chinelos.

Marcus achou graça do comentário ou eu achei que ele achou graça porque tinha virado em menos de dez minutos a segunda ou terceira taça de vinho como um camelo ansioso.
No estômago vazio, o vinho fluía livre.
“Se pudesse ficaria o tempo todo de chinelo, ainda mais em casa”, disse Marcus, também de chinelo.
O que ele queria dizer?
Sorri sem jeito e Priscila falou na cozinha ao lado que eu tinha problemas com chinelos, jamais usava fora de casa e, às vezes, nem mesmo em casa. Por que estávamos falando de mim? Por que estávamos falando de chinelos? Por que eu não usava chinelos?
Virei uma quarta taça de vinho enquanto enchia parcimoniosamente as outras num avarento cálculo etílico: tínhamos só mais três vinhos e eles, claro, trouxeram sorvete; sorvetes pacíficos, sorvetes isentos: baunilha e chocolate.
Depois das brusquetas, e de outra taça, reparei que Marcus não era apenas uma figura meio altiva e formal como pensei quando o conheci, era mesmo arrogante. Falava como quem não desce jamais do cavalo para cumprimentar. Até o modo de olhar guardava aquela coisa típica e medonha de sesmeiro iluminista, magnânimo. Para ajudar, ambos médicos. Foi um erro convidá-los. Mas simpatizei com Fabi. Ela sentia dores nas costas como eu, tinha várias hérnias de disco, e genéticas.
“Minha família inteira tem problemas na coluna. Se eu ficar alguns dias sem fazer exercício, caio de cama, não é Mar?”, ela disse.
Mar era um péssimo apelido, porém melhor que “Cus”.
Priscila andava de lá para cá falando com eles conforme eu me distanciava. Fabi se levantou e foi conferir os quadros. Em dado momento Marcus também se levantou para segui-la. Falavam todo tempo. No meu caso, levado pelo vinho para aquela caverna tranquila e escura agitada apenas pelo movimento da luz, eu ouvia a nostalgia desses pés distantes em que o menor ruído chega tarde mas ecoa em crescendo; em que cada voz expressada se retorce ondulando pelas paredes como sombras.
Priscila perguntou sobre a cidade dele, Marília, e Marcus falou de seus amigos, quase todos fazendeiros; falou de como era de esquerda apesar da sua família; falou de como era difícil ser de esquerda no interior nascido numa família assim; falou e falou e falou de outras coisas e sobretudo de si: o doutorado em cardiologia nos EUA; de como foi “difícil” — ele fez mesmo sinais de aspas com a mão — custear a própria vida em Nova York na alta paulatina do dólar entre 2019 e 2022; falou da cidade e das pessoas e de como se ambientou rápido com os norte-americanos.
Ele cheirava a latifúndio.
Em dada altura, fiz graça sobre a quantidade de bicicletas na garagem, se eram todas deles, e Fabi disse que Marcus se arriscava como ciclista semiprofissional.
“Chute o preço da mais cara”, ela disse, sem esnobismo.
Marcus sorriu do outro canto da mesa enquanto falava com Priscila. Um sorrisinho de canto contraindo os lábios. A concentração máxima da arrogância. Chutei um preço ridículo: não sei, vinte mil, por aí, e ela riu de gargalhar; e ele continuou a sorrir, como se desse piscadelas rápidas com as dobrinhas contraídas do lábio: “o cara acha que vinte mil compra uma bicicleta dessas; vinte mil!”.
“Quatro vezes isso!”, ela disse, bebericando um pouco do vinho.
Desisti de fazer o cálculo ou de perguntar se eles tinham mesmo o valor de uma casa recostado na parede úmida da garagem. Eu também havia estudado no exterior — e várias vezes. Eu também havia visto coisas; visto coisas e lugares e sentido, como ninguém, a grande abertura do mundo, sua crueldade. Meus pais vieram de Assis num carro popular sem ar-condicionado, e eu não ficaria de novo para trás…
Antes que percebesse, girava no carrossel humilhante e ultra-ágil das imagens confusas diante de mim, e me sentia estilhaçar ao bater de frente com a voz e os gestos dele, aquela altivez, os ombros retos e o fio invisível que o mantinha pleno naquela postura de médico doutorado por Nova York.
Ele já estava bem calvo pela idade, mas seria golpe baixo.
Virei mais uma taça quando Marcus começou a falar de cinema com Priscila e Fabi me excluindo sorrateiramente da conversa. Natural Born Killers, baita filme, ele disse, e começou a interpretá-lo, interpretá-lo lindamente em termos técnicos, como se apenas ele soubesse dos segredos nos arranjos de imagens; falava em montagem, plano médio; falava em collage — em francês, com boa pronúncia.
Não, não nesse terreno.
“O filme não é sobre isso”, eu disse.
Minha entrada foi grosseira o bastante para que um silêncio de morte descesse na mesa com o otimismo de um samba de Chico Buarque soando ao fundo.
“Sobre isso o quê?”, ele me perguntou, piscando os longos cílios, longos demais para um doutor em cardiologia.
Não sabia. Na verdade, não havia ouvido nada.
Senti os rostos acenarem fora de esquadro, a caverna pulsante e as têmporas sensibilizadas pelo frenético ritmo do coração. Não via nada com foco. Eles se esticavam e voltavam, elásticos, vaporosos. Priscila me estendeu a mão e eu estava gelado. Afundando, precisava desesperadamente fingir para me livrar da confusão em que me meti, e me lembrei, no último instante, de um ensaio sobre Flaubert — alguma coisa que tentava escrever há meses com uma amiga, algo sobre a estupidez, a bêtise.
“O filme é sobre a estupidez”, disse finalmente, dando um tapa na mesa cuja força mal calculada fez os talheres tilintarem nos pratos.
“Estupidez?”, Marcus perguntou — pergunta retórica e desaprovativa — enquanto cruzava as pernas saradas e balançava o chinelo.
Seus pés eram lisos como as palmas das minhas mãos.
“Sim, sobre a estupidez”, eu disse, convicto, porém sem nenhuma ideia de como prosseguir.
Marcus sentiu a fraqueza no ar, como um grande predador.
“Mas você consegue desenvolver ou eu tenho que acreditar em você e pronto?”, ele disse, piscando sadicamente com o cantinho da boca.
“Para mim, é um filme sobre o amor”, continuou Marcus depois do silêncio, “na verdade, sobre a doença do amor. Acho que é também sobre como os EUA são meio doentes, como o amor só pode florescer desse jeito, no meio do caos e da dor. Era disso que eu estava falando com elas.”
Senti que ia desmaiar, mas abri a boca e deixei as palavras saírem, como um boneco de ventríloquo sem nenhum ventríloquo.
“Logo no início os personagens se confundem com as mídias. Ora com o desenho animado, na primeira cena, a da lanchonete. Ora com a Sitcom para narrar os traumas da protagonista. É simples: a vida se apresenta segundo a forma estúpida das mídias. Como não há vida fora da ficção, a deles parasita essas formas. O filme todo é uma série de videocassetadas mortais. Ninguém consegue distinguir coisa alguma. Quando o velho indígena, naquela viagem de cogumelo, começa a trazer à tona algo de verdadeiro sobre Mickey, alguma verdade sobre seu passado, ele o mata. É um mundo hostil e cômico. Todos são hostis e ridículos. Por isso é possível matar, matar naturalmente: não há diferença”, eu disse.
Os olhares se voltaram para mim, e Marcus pareceu meio perdido. O sorriso balançou e o lábio descontraiu e logo se contraiu de novo, piscando lentamente.
Era um tique bem bizarro.
“Mallory Wilson é uma Emma Bovary psicótica. Emma lê sua vida a partir dos romances de má qualidade. Mallory, a partir das formas que tem à mão”, continuei, tomando em seguida o que restava de vinho na taça.
“Mas você ignora a dimensão do amor, que é o cômico do filme, o amor entre assassinos em massa, também a ideia do culto norte-americano por assassinos”, Marcus disse.

“Entendo o que você quer dizer”, eu disse me esticando todo e ouvindo as vértebras estalarem, a dor na lombar começando a dar sinais, “mas a questão é totalmente outra, e essa é uma visão bem simplista”, continuei enquanto enchia a taça, “porque o amor deles não existe, ou existe somente ao modo das aparências disponíveis; eles precisam ser vistos todo tempo: ela o masturba friamente na prisão diante de todos, e quando vão transar pela primeira vez, apenas os dois, nada funciona; eles precisam da televisão ligada e de uma testemunha; eles se amam aos olhos de um outro, neste caso, um outro equivalente à televisão.”
O cantinho da boca dele pendeu para baixo totalmente mole.
“Eles se amam porque querem ser famosos de algum modo”, disse Fabi, “faz sentido, não faz, Mar?”, como se tentasse nos aproximar de alguma forma.
“Não só famosos”, começou a falar Priscila, “eles querem ser vistos. Lembram da cena da farmácia? O cara está sozinho e eles sempre deixam uma testemunha. Quando o cara, o atendente, lembra Mickey Knox da sua ‘regra’, ele ri como se o maluco fosse um baita ingênuo; ri e diz que se ele não matasse ninguém, por que a televisão viria? Tem também aquela cena do casamento, que emula todos os filmes clichês, a ponte, a grinalda voando. Meio que eles existem através das imagens anteriores. São eles mesmos imagens, de certa forma. Platão estaria coberto de razão. Talvez venha daí a justificativa para um filme tão irritantemente metacinematográfico”, ela continuou, trazendo um risoto que cheirava a manjericão fresco.
“Não sei, não acho que o filme seja só isso”, disse Marcus.
“Na verdade, nascemos todos estúpidos. Não somos naturalmente assassinos, mas naturalmente estúpidos e, por isso, assassinos. E a estupidez adquire novas formas, vai ao infinito. O som do corpo caindo equivale à explosão do saco de risadas. Mallory foi abusada a infância toda e não sabia como enunciar. É por isso que a morte da mãe é ridícula como a do pai, sem peso. Mickey também. O diretor faz questão de nos mostrar a linhagem da violência. É uma justificativa moral muito frágil e boba, e tende a aparecer também nos filmes posteriores de Tarantino. Fora as imagens em p&b em tomadas angulares e os desenhos animados, que reaparecem em Kill Bill”, eu disse, tentando entender onde exatamente queria chegar.
“Tudo isso está ficando técnico demais”, Marcus disse, dando uma piscadela para Fabi, “já entendi seu ponto.”
Os cantinhos dos lábios voltavam a se contrair puxando os lábios, como um sapo eletrificado.
Se ninguém dissesse mais nada naquele momento eu poderia morrer sufocado pela vergonha.
“Acho que você deixa muita coisa de fora com isso da estupidez. Além de ser elitista”, ele continuou, “porque fica a impressão de que há alguma arte superior, algo superior aos programas de televisão, que são lixo e pronto. At the end of the day ambos se amam mesmo, tudo no filme dá a entender isso, várias cenas. É sobre isso o filme”, Marcus disse.
“Mas Mar, veja bem, ele não está dizendo que as pessoas têm culpa ou algo assim. E é claro que há uma diferença entre algo bom ou ruim. Os programas de auditório não são lá a melhor coisa do mundo, convenhamos. E se eu me lembro, o fim do filme volta com isso, ironiza isso, as Sitcom com auditório ao vivo. Todo mundo sabe que é irreal aquele fim. Casados, filhos. E tem mais, a estética é a mesma da casa da Mallory, pensando agora! Que tipo de amor é esse então, não é mesmo?”, Fabi disse, me salvando no último momento ao se virar diretamente para mim.
“É isso. Mickey e Mallory não se amam, ao menos não no sentido que entendemos. Eles vagam na indeterminação, não chegam a compreender onde se encontram ou o que estão fazendo. Entendem no sentido cognitivo mais direto, não ético ou reflexivo. Como as mídias, não há reflexão. Por isso a surpresa quando, na entrevista, Mickey fala como se tivesse uma verdade a enunciar. É besteira. Ele está imitando e nada mais. Os atos são todos estéticos no mau sentido. As cenas emblemáticas de violência retroprojetadas na janela quando estão no hotel atestam isso. Veja o diretor da prisão, o detetive, todos querem ser vistos, querem ser famosos; por isso são todos igualmente sádicos”, eu disse, sem saber como continuar.
“O detetive mata aquela prostituta, coitada, apenas para se aproximar de Mickey, para ser um tipo de Mickey. Há todo um jogo de imitação no filme, pensando agora. A estupidez desses programas é a estupidez tematizada pelo filme”, disse Fabi.
“Imitação, mas imitação que revela sempre uma única verdade: a morte; a única testemunha; meio que a única verdade do filme inteiro”, disse Priscila.
“Acho que só faz sentido se não…”, começou a falar Marcus.
“Na última morte, a do entrevistador, quem se torna a testemunha, o olho procurado em toda parte é a câmera mimética. É cínico e sádico. Todos estão meio mortos antes de matarem, antes de partirem para a violência ou serem testemunhas dela. Não deixa de ser emblemático que o único ato de sinceridade, confessar para sua mulher a paixão pela amante, no caso do entrevistador, seja respondido com abandono pela amante, não à toa uma chinesa. O paradoxo do filme é, de algum modo, semelhante ao que ronda Flaubert: ao afundarmos na estupidez para tematizá-la não nos tornamos, afinal, um pouco estúpidos? Mais: eles não existem apenas porque os assistimos, como reflexos do nosso olhar, do nosso desejo por estupidez? Claro que essa é a versão fácil e boba da coisa toda. A questão é outra: quais critérios existem ou persistem para distinguir o banal do notável, o estúpido do sagaz, a besteira do relevante. Por isso, durante um filme, percebemos que ninguém, ninguém é mais estúpido que um morto”, eu disse.
Desse ponto em diante não me lembro de quase nada. Tudo ficou confuso em fragmentos agitados. Idas ao banheiro com a água do vaso sanitário espelhando meu rosto turvo. Risos e vozes exaltadas. Até gritos como espíritos fervilhantes de um ritual grotescamente fora de controle. E eu acordei na manhã seguinte com uma dor de cabeça tão massiva que mal podia abrir os olhos.
Quando me levantei e fui à cozinha, Priscila tomava café na sacada.
Ela me ignorou.
Peguei o café e tentei puxar assunto:
“O que achou dos vizinhos?”
“Bacanas.”
“Bacanas mesmo? A Fabi, sim. Quanto a ele… É um cara arrogante demais. Médico, né? Mal me deixava falar.”
A risada que Priscila deu foi cruel, um bolo sonoro desprendido da garganta, agressivo, um tipo de cuspe vocálico.
“Você não achou?”, disse, tentando soar neutro.
“Arrogante? Claro que sim. Mas isso é só dar uma boa olhada nele. Agora que não te deixou falar, daí… Arrogante ou não, você ficou interrompendo o cara toda hora. No final, se não bastasse, você começou a fazer piadas de careca! Teve até aquela horrenda, infantil e tontíssima, a do aeroporto de mosquitos. Depois ainda… Coisa de macho na savana! Um papelão! E olha que eles estavam gostando da gente. Gostaram até da coisa do filme que você falou”, ela me disse sem me olhar, “se cruzar com ele no elevador, pelo menos peça desculpas, diga que bebeu muito, que vomitou todo risoto… não, diga pelo menos que você sente muito, que bêbado é sempre insuportável. Sinceramente, não sei por que você quer tanto ser amado.”
Na última série da remada me inclinei de um jeito torto. Larguei o puxador triangular tremendo e suando frio. Quase desmaiei com o impacto da dor. A pinçada elétrica se propagava em eco pelos nervos femoral e ciático com pontadas agudas na sola do pé esquerdo e contrações na região lombar. Era como se meu corpo se comunicasse à distância, de uma parte a outra, por código Morse. Ao redor de mim o suor brilhava na pele de mulheres mais ou menos da minha idade fazendo agachamentos enquanto gravavam vídeos. Caras conferiam no espelho quadríceps tão fortes e estriados quanto pneus de trator.
Mais de um se fotografava.
Eles pareciam mais bonitos e concretos do que eu poderia suportar. Tentei me levantar aos poucos, sentindo novas ondas de choques, a realidade perdendo consistência. Chegando filtrada pela presença da dor, a grande confusão de imagens e odores e sons ia se afastando de mim. Fui me arrastando para casa. A cada cinco ou seis passos muito curtos uma parada para me recuperar, quasimodamente exposto. As pessoas me olhavam. Não, não adiantava ter pressa. As pessoas me viam. A dor, porém, me impedia de vê-las para além de borrões sem nome; me impedia até mesmo de pensar nelas como tendo existência real.
Em frente ao apartamento, subindo as escadas, ouvi um freio de bicicleta.
“Segure a porta, por favor”, disse Marcus.
Talvez fosse o momento de me desculpar. O que diria? “Sinto muito, fui um babaca etc. etc.”.
Ao me virar e encará-lo, vi que ele estava encharcado de suor, esculpido naquela roupa meio alienígena dos ciclistas e carregando a nave espacial de oitenta mil no ombro.
Passou por mim muito rápido subindo de dois em dois o lance de escadas e pediu o elevador. Pensou em me ignorar, mas em seguida me olhou sem esboçar nenhuma reação, e de novo sorriu nos cantinhos contraídos aguardando minhas desculpas: ele sabia que eu era o tipo de cara que ao mesmo tempo humilhava e se humilhava para, em seguida, se desculpar, apenas para se desculpar — se possível infinitamente.
Fui chegando perto dele e disfarçando o quanto podia a dor, o suor gelado e pegajoso, o suor doente contra o suor saudável, leve e brilhante, e não tive dúvidas, iria mesmo me desculpar ainda que ele não tivesse nem mesmo tirado o capacete; precisava dizer algo que me redimisse embora tudo ao redor parecesse se misturar, como se eu fosse um ingrediente a mais girando numa imensa sopa de legumes:
“Olha, Maurício”, comecei falando, “acho que bebi muito naquela noite, então desculpe se falei algo inconveniente”, continuei.
O rosto dele me pareceu confuso, como se lutasse com a vontade de me corrigir, de falar seu nome, lutasse contra a humilhação, o paradoxo humilhante em que se encontrava metido; e sua resposta foi também confusa, como se alguém o puxasse pela língua, com os cantos dos lábios paralisados.
Por que não tirava, ao menos, o capacete?
Subimos em silêncio os cinco andares.
Ao chegarmos no mesmo andar, o nosso, abri a porta e a fechei em seguida sem entrar, permanecendo um momento ali. Observei Marcus caminhando naquela bela postura de homem alto e forte, saudável; um médico com doutorado pelos EUA, cardiologista cinéfilo. Acreditando que estava sozinho, ele tirou o capacete, e eu vi a penugem geométrica na sua cabeça, uma sombra de pasto após semanas de chuva, novos cabelos estrategicamente posicionados em vias de crescer, e ouvi ainda a voz de Fabi:
“Mar, não é para ficar usando esse capacete, não faz nem quinze dias!”, antes que a porta se fechasse.