quinta-feira, 22 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
MOSTRA DE SP

Despedida de Ontem, de Alexander Kluge

Obra fundamental do Novo Cinema Alemão
WhatsApp

O longa-metragem Despedida de Ontem (Abschied von gestern, 1966) estabeleceu-se como a obra fundamental do Novo Cinema Alemão, movimento estético e político que buscava refundar a cinematografia do país no pós-guerra. Para compreender a profundidade desse filme, é indispensável contextualizar a figura de seu diretor, Alexander Kluge, um dos intelectuais mais multifacetados da Alemanha do século XX. Formado em Direito e profundamente ligado à Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, Kluge foi aluno e assistente de Theodor Adorno, absorvendo uma visão dialética da sociedade que mais tarde transportaria para as telas. No início dos anos 1960, ele percebeu que o cinema comercial alemão estava anestesiado por comédias alienantes e dramas escapistas que ignoravam o trauma recente do nazismo. Diante disso, Kluge tornou-se o principal articulador e redator do célebre Manifesto de Oberhausen em 1962, um documento histórico no qual uma nova geração de cineastas declarou a morte do velho cinema e reivindicou o direito de criar uma nova linguagem livre das amarras comerciais, estabelecendo as bases para que produções como a sua pudessem florescer com total independência artística.

Lançado quatro anos após o manifesto, Despedida de Ontem materializou na prática as ambições teóricas de Kluge e garantiu o prestigiado Leão de Prata no Festival de Veneza, colocando o cinema autoral alemão novamente no mapa internacional. O enredo acompanha a trajetória de Anita G. — interpretada com crueza e vivacidade por Alexandra Kluge, irmã do diretor —, uma jovem judia que migra da Alemanha Oriental para a Ocidental em busca de um recomeço após o colapso do regime nazista e a divisão geopolítica do país. Em vez de construir uma narrativa melodramática tradicional sobre superação, Kluge utiliza a jornada errante de sua protagonista para desferir uma crítica contundente ao “Milagre Econômico” alemão da década de 1960. O diretor expõe que a opulência capitalista e a modernização da República Federal da Alemanha funcionavam apenas como uma fachada brilhante que escondia uma sociedade profundamente burocrática, fria e incapaz de integrar ou acolher aqueles que carregavam as marcas indeléveis da história recente e da marginalização social.

A abordagem de Kluge é pautada por uma recusa deliberada das convenções do cinema clássico de Hollywood, substituindo a linearidade por uma estética fragmentada de colagem e filme-ensaio. Influenciado pelo conceito de distanciamento de Bertolt Brecht e pela filosofia de Walter Benjamin sobre as ruínas da história, o cineasta estrutura o longa por meio de cortes abruptos, intertítulos textuais com ironias históricas, narração em voz over desconectada da ação imediata e a constante justaposição de documentos de arquivo com cenas de ficção. Essa técnica de montagem não visa confundir o espectador, mas sim tirá-lo de uma posição de passividade confortável e despertar a sua phantasie (imaginação produtiva). Para Kluge, o cinema não deve entregar respostas prontas ou uma catarse emocional fácil; o público deve ser um coautor da obra, forçado a ligar os pontos políticos e conceituais que as contradições da montagem jogam na tela, transformando o ato de assistir em um exercício de reflexão crítica.

Essa fragmentação estética serve perfeitamente para traduzir a tese central do filme, encapsulada na ironia cortante de seu título: a demonstração de que o passado autoritário alemão continua determinando o presente. A perseguição institucional sofrida por Anita G. por pequenos delitos — como o roubo de um casaco de pele para se proteger do frio — revela que as estruturas jurídicas, prisionais e morais que operavam no pós-guerra eram herdeiras diretas da mentalidade e do funcionalismo burocrático do nazismo, os quais simplesmente se readaptaram à nova ordem democrática e de mercado. Kluge argumenta visualmente que o progresso técnico e o crescimento econômico do capitalismo tardio não eliminaram a barbárie social, mas apenas a institucionalizaram sob a forma de uma normalidade fria e punitiva. Ao recusar um final conciliatório ou moralista para Anita, o diretor estende o problema para fora da projeção, sugerindo que a verdadeira “despedida de ontem” ainda não aconteceu e exige um acerto de contas histórico que a sociedade alemã da época insistia em adiar.

A relevância de Despedida de Ontem reside, portanto, no fato de ele ser o marco zero de uma longa e coerente carreira onde Alexander Kluge nunca separou a prática cinematográfica da intervenção filosófica e literária. Ao longo das décadas seguintes, ele continuou a expandir seu universo conceitual como realizador de ficções especulativas, escritor de contos literários complexos e, mais tarde, como pioneiro na televisão independente, criando blocos de programação cultural que desafiavam o fluxo comercial das grandes redes. Este primeiro longa-metragem sintetiza perfeitamente o seu cinema de intervenção: uma obra visceral e urgente que provou que as imagens em movimento podiam funcionar como ensaios sociológicos complexos. Ao colocar o destino individual de Anita G. sob a lente da macro-história europeia, Kluge inaugurou uma forma de fazer cinema que não apenas definiu o Novo Cinema Alemão ao lado de nomes como Fassbinder, Wenders e Herzog, mas permaneceu como um farol de resistência estética sobre como a arte deve confrontar as amnésias coletivas de uma nação.

NEWSLETTER EDITORIAL

Uma seleção criteriosa dos melhores ensaios, críticas e criações entregue semanalmente no seu e-mail.

NOTA EDITORIAL & ISENÇÃO DE CRIAÇÃO: Os textos, opiniões, ensaios e criações publicados nesta página são de responsabilidade exclusiva de seus respectivos autores, não refletindo necessariamente a opinião da Revista Lume. Saiba mais em nossa página de Isenção de Responsabilidade.
100%