A Mostra Cine Uruguai – Novos Horizontes, em cartaz na CAIXA Cultural Rio de Janeiro, consolida-se como um dos eventos cinematográficos mais relevantes do ano ao traçar um panorama profundo, estético e político da produção audiovisual uruguaia da última década. Com uma curadoria sensível assinada por TAMY e Leonardo Luiz Ferreira, o festival quebra um jejum de dez anos sem mostras dedicadas exclusivamente ao país vizinho no circuito carioca, reunindo um total de 21 produções, entre 16 longas e 5 curtas-metragens realizados entre 2016 e 2026. A relevância dessa seleção reside na capacidade de demonstrar como uma cinematografia de escala artesanal e territorialmente compacta consegue alcançar uma monumental força narrativa. Longe de se apoiar em fórmulas comerciais fáceis, os filmes escolhidos espelham as transformações sociais de uma nação que, embora frequentemente associada à estabilidade institucional na América Latina, utiliza a tela do cinema para tensionar suas próprias contradições, dores históricas, neuroses urbanas e a efervescência de suas raízes identitárias mais profundas.

O grande trunfo da seleção de ficções está na habilidade dos novos diretores em transitar entre a delicadeza afetiva e a ironia cortante do cotidiano. O longa-metragem de abertura, Agarra-me Forte, dirigido por Ana Guevara Pose e Leticia Jorge — cineastas já consagradas pelo circuito de festivais e recentemente indicadas ao Prêmio Goya —, sintetiza essa nova sensibilidade uruguaia ao explorar os laços de amizade e o luto sob uma ótica íntima e desprovida de sentimentalismos artificiais. Em paralelo, a mostra abre espaço para diretores que investigam as complexidades das relações modernas e das crises existenciais na Montevidéu contemporânea, como se observa nas exibições de Os Modernos e Morto com Glória, ambas parcerias criativas de Marcela Matta e Mauro Sarser que satirizam os costumes e os paradoxos amorosos da classe média urbana, além do suspense dramático Cachorros (2025), de Gerardo Minutti, que expande as fronteiras estéticas da nova safra de realizadores.
Outro pilar fundamental que confere robustez à mostra é o seu potente recorte documental e musical, que joga luz sobre as matrizes rítmicas e a ancestralidade que moldam a identidade uruguaia, frequentemente invisibilizada no exterior. As produções Rada, de Luis Ara, focada na trajetória monumental de Rubén Rada, e Fattoruso, de Sebastián Bednarik, sobre o virtuosismo de Hugo Fattoruso, transcendem a mera biografia musical e transformam-se em investigações antropológicas sobre a fusão do jazz, do rock e, primordialmente, do candombe afro-uruguaio. Ao trazer essas obras para o público brasileiro, a curadoria promove um resgate histórico e uma ponte de integração cultural indispensável, provando que a música no Uruguai não funciona apenas como entretenimento, mas como uma ferramenta política de resistência e de afirmação da memória coletiva de comunidades que historicamente lutam por visibilidade nas margens do Rio da Prata.

A dimensão política do festival ganha contornos ainda mais dramáticos e urgentes na seção dedicada à memória histórica da ditadura civil-militar e à figura icônica do ex-presidente José “Pepe” Mujica. O aclamado longa-metragem Uma Noite de 12 Anos, dirigido por Álvaro Brechner, desponta como um dos momentos mais impactantes da programação, ao retratar com realismo sufocante o período de isolamento e tortura sofrido por Mujica e seus companheiros nos porões do regime militar. Complementando essa imersão na biografia do líder político, o documentário Os Sonhos de Pepe oferece um contraponto íntimo sobre sua filosofia de vida e desapego material no exercício do poder. Essas exibições não servem apenas como exercícios de cinefilia, mas como plataformas de debate público na CAIXA Cultural, onde as sessões são enriquecidas por discussões mediadas por intelectuais e críticos renomados como Carlos Alberto Mattos e Luis Héctor Oliveira, estimulando um paralelo reflexivo com a própria história política do Brasil e da América do Sul.
Além de sua sólida exibição de filmes, a mostra diferencia-se por seu compromisso com a formação de público e o intercâmbio profissional por meio de atividades formativas gratuitas e de acessibilidade cultural. A presença da diretora Marcela Matta no Rio de Janeiro, responsável por ministrar uma masterclass exclusiva sobre os processos de criação, produção e os desafios de financiamento no cinema independente uruguaio, transforma a mostra em um laboratório vivo de aprendizado para estudantes e cineastas locais. O festival adota ainda uma política exemplar de inclusão ao oferecer sessões com audiodescrição e legendagem descritiva para pessoas com deficiência visual e auditiva, garantindo que o acesso à rica cinematografia platina seja universalizado. A fusão entre arte, reflexão teórica e democratização do espaço público reafirma o papel das mostras culturais como ambientes essenciais de resistência contra o apagamento da memória e a homogeneização do mercado audiovisual global.

Em última análise, a Mostra Cine Uruguai – Novos Horizontes encerra-se não apenas como uma janela de exibição, mas como um manifesto estético sobre a sobrevivência e a maturidade de um cinema que se recusa a ser colonizado por estéticas estrangeiras. Ao costurar com maestria o drama íntimo, o documentário histórico, a exaltação da cultura negra uruguaia e o debate político de alto nível, o evento prova que o Uruguai possui uma das cinematografias mais autênticas e corajosas da atualidade. O espectador que percorre as salas da CAIXA Cultural é confrontado com imagens que desafiam o tempo e o espaço, e que permanecem ecoando muito após o término das sessões. O cinema deve estimular a imaginação e a reflexão crítica do público e esta mostra cumpre essa promessa, entregando ao Rio de Janeiro um espelho multifacetado de uma América Latina que insiste em lembrar, cantar e filmar suas próprias verdades.