sexta-feira, 23 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

Alguém Caminha Sobre o Seu Túmulo, Mariana Enriquez

Combinando relato de viagens, pesquisa histórica e um grande interesse pelo ser humano, a escritora argentina apresenta sua incursões a necrópoles ao redor do mundo destacando suas belezas arquitetônicas e histórias de vivos e de mortos
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Rainha da literatura insólita latino-americana contemporânea, a argentina Mariana Enriquez escreve como ninguém, seja na maneira de narrar ou na escolha dos temas. E agora, na não-ficção, parte de uma ideia simples para chegar a um resultado impressionante em sua sagacidade. Alguém Caminha Sobre o Seu Túmulo – Minhas viagens a cemitérios é uma coletânea de relatos pessoais de visitas que ocorreram entre 2017 e 2020, passando pelo continente americano e europeu. 

Combinando experiências pessoais, guia de viagem e investigação sociocultural, Enriquez faz descrições com riqueza de detalhes e traz algumas fotos de seu acervo pessoal, mas é impossível não querer entrar na internet e pesquisar alguma escultura, algum túmulo ou mausoléu a que ela se refere. Os cemitérios são as estrelas do livro, mas o que os cerca, para além da geografia, ajuda a compor um painel visual e narrativo em perfeita sintonia com a ficção dela, que inclui o romance monumental Nossa parte de noite e as coletâneas de contos Os perigos de fumar na cama e Um lugar ensolarado para gente sombria – do qual saíram os contos que servem de base para a série Meus mortos tristes, recém-lançada na Netflix.

Eliza Menezes, tradutora de outras obras da escritora, encontra o tom certo ente o macabro e o poético que ronda a obra de Enriquez, e aqui não é diferente. Andar por cemitérios – e as cidades onde estão – permite à autora fazer uma investigação de estruturas sociais que levaram a necrópole estar onde está e ser como é. Assim, como dinâmicas de poder global emerge de seus relato. 

“Me entristece pensar nos cemitérios europeus, cheios de celebridades globais. Me revolta que a dominação seja tão dominante que nem na morte se possa vencê-la. 

Por isso, marco como meu primeiro túmulo a visita o de José Carlos Mariátegui, considerado o primeiro marxista latino-americano”, escreve sobre sua visita, em 2008, ao Cemitério Presbítero Maestro, no Peru.

Entre o encantamento com a beleza gótica do Cemitério de Highgate, em Londres, e o deslumbramento do Cemitério Municiapal Sara Braun, em Punta Arenas (Chile), chamado de o mais belo do mundo, conhecemos obras de arte e restos mortais marcados pelo tom confessional da prosa da escritora. Há, por exemplo, o Mausoléu Preto, no Cemitério de Greyfriars, em Edimburgo (Escócia). A escritora descreve a construção como “um lugar repulsivo [que] parece estar olhado, atento; tem inteligência, precária mas evidente.” Como fica claro ao longo do livro, ela não é de se impressionar facilmente, por isso essas frases soam ainda mais fortes. 

Capítulo após capítulo, Enriquez nos lembra do cemitério como a última morada para a maioria das pessoas, e isso nos fascina. Por mais que fale de morte, luto e cemitérios, o livro não tem nada de mórbido, pelo contrário, é uma celebração da vida e da arte em sua capacidade de ser eterna, enquanto durar. 

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