sábado, 24 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

Os assassinatos da casa decagonal, de Yukito Ayatsuji

Romance de suspense clássico japonês da década de 1980, chega ao Brasil e traz uma narrativa aos moldes de Agatha Christie
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Há, basicamente, dois tipos principais de construir uma trama de suspense whodunit, ou seja, a investigação de um crime, geralmente, um assassinato. Em um as pistas reais são deixadas ao longo da narrativa, quando chega, no clímax, a solução, é possível percorrer novamente o caminho, e perceber como tudo estava ali. No outro tipo, são deixadas pistas falsas, e quando se chega ao culpado, este é quase que tirado da cartola, e longas explicações são necessárias, mostrando o autor ou autora nos enganou. Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, respectivamente, praticam esse tipo de literatura. Não é questão de uma ser melhor que a outra, é apenas questão de gosto do freguês.

O romance japonês Os assassinatos da casa decagonal, de Yukito Ayatsuji, claramente, se insere na tradição de Christie, tanto que ela e seu romance E não sobrou nenhum são explicitamente citados aqui. No fundo, o livro nipônico, orginalmente, publicado em 1987, é uma grande homenagem à escritora inglesa e seu estilo. Tanto que toda a narrativa é organizada nos mesmos moldes desse romance dela. No Brasil, é lançado pela primeira vez, pela Intrínseca, com tradução direto do japonês de Lidia Ivasa. 

Na casa decagonal do título, localizada numa ilha isolada na costa do Japão, reúnem-se sete estudantes universitários de cursos mais diversos, mas com uma coisa em comum: a paixão por histórias de mistério, tanto que participam de um grupo que discute  gênero e publica uma revista. Eles não usam seus nomes próprios, e assumem nomes de escritores e escritoras clássicas: Ellery, Poe, Carr, Leroux, Van, Agatha e Orczy.

Nessa casa, um crime horroroso aconteceu, seis meses atrás, e nunca foi resolvido. O suposto assassino desapareceu. Ao chegar, o grupo fica impressionado com a arquitetura da casa – há ilustrações no livro, para ficar mais clara a disposição dos dez cômodos. Logo coisas estanhas começam a acontecer num jogo de assassino e detetive. 

Enquanto isso, no Japão continental uma carta começa a circular, envolvendo um outro crime dos quais os estudantes são próximos, e que está conectado com os da ilha. Pode soar intrincado, mas Ayatsuji é mais simples do que parece. A construção da trama, transitando entre os dois polos, acumula informações, que serão usadas ou contraditas quando chegar a grande revelação final. Desviando de temas que poderiam trazer mais densidade ao romance – como especialmente tensão de classe (o possível assassino da família rica é o jardineiro), Os assassinatos da casa decagonal é um livro de leitura rápida e divertida, mas que logo é esquecida ao se começar outro exemplar do gênero. 

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