Ricardo Guilherme Dickie ainda é, infelizmente, um escritor pouco conhecido, apesar da admiração quem lê sua obra. Hilda Hilst, por exemplo, colocou-o acima de Guimarães Rosa. “Um homem raro e especial que me impressiona muito é o Ricardo Guilherme Dicke, autor de Madona dos Páramos. Nele descubro o fervor e a potência, pois a literatura não é nada se não for o essencial. Seu texto é mais bonito que o de Guimarães Rosa”, disse em uma entrevista.

A coletânea de contos póstuma Música de Mortos Suaves, lançada há pouco, com organização de Rodrigo Simon de Moraes, é uma boa introdução à obra do escritor mato-grossense que morreu em 2008. O pesquisador conta na introdução a maneira casual quando descobriu que haviam sobrado “um monte de papel”, como disse a filha dele sem saber que ali estava uma preciosidade: os contos inéditos do escrito.
Além de escrever, Dickie também pintava – a capa do livro é ilustrada por um quadro dele –, e fica claro, ao longo dos 14 contos, o interesse do escritor em criar imagens marcantes, sejam de natureza:
“Os cajueiros cresceram, floriram, frutificaram, sete árvores, cheias de frêmitos e reguladas de trêmulos acordes pelo vento que os acariciava e cujo rumor de noite ou de dia se ouvia através das paredes da casa, junto à rede de Numa.
Ou do grotesco:
“O sangue pingava. Inexplicavelmente os bichanos haviam avançado até os intestinos e de suas tripas cor de marfim caíam, como vermes encarolantes, filetes de talharim.”
São entre esses dois polos, da natureza poética e do humano brutal, que transitam esses contos. Fazendo jus ao título – novamente uma combinação inesperada – a morte ronda os textos de maneira marcante. É, quase sempre, uma saída, mas, nem sempre, o final.
A morte aparece como um horizonte a ser alcançado, ora romântico (pessoas que se amam querendo morrer juntas), ora trágico (um homem que perde todos seus filhos). Na construção dos textos, o escritor não busca o choque, pelo contrário, o que há aqui é uma espécie de normalização catatônica daquilo que se enfrenta até e com a morte.

Chamado de “o gênio recluso da Chapada”, pelo jornal O Estado de S. Paulo, Dickie é um escritor cuja obra evidencia suas particularidades como artista. Seus personagens, muito bem construídos, diga-se, estão num momento limítrofe, e as ações que desencadeia, nos textos, são inesperadas.
Música de Mortos Suaves pode e deve funcionar como porta de entrada para sua literatura, que depois poderá levar à sua obra-prima Madona dos Páramos. É uma literatura que precisa urgentemente ser descoberta por mais leitores e mais leitoras.