Uma das vozes mais enigmáticas, sofisticadas e universais da literatura ocidental moderna. Nascido e falecido em Alexandria, no Egito, Konstantinos Kaváfis operou à margem dos grandes centros editoriais de sua época, construindo uma obra poética singular que funde de maneira indissociável a erudição histórica e a confissão íntima. O seu fazer literário recusa o excesso verbal; sua linguagem é cirúrgica, quase prosaica, mas carregada de uma ironia cortante e de uma melancolia agridoce que atravessa os séculos.
A importância de Kaváfis reside na sua capacidade de transformar o passado helenístico não em uma peça de museu estática, mas em um espelho vivo das fraquezas, paixões e decadências da condição humana contemporânea. Seus poemas parecem sussurrados a meia-luz, habitados por imperadores derrotados, jovens anônimos e velhos que lamentam a urgência perdida da juventude. Ele canta a dignidade na derrota e o valor intrínseco do percurso sobre o destino final. Ao trazer sua poesia para o leitor atual, a Revista Lume resgata a atemporalidade de um mestre que compreendeu, como poucos, que a verdadeira pátria de um artista é a memória e o tempo.
ÍTACA
Quando, de volta, viajares para Ítaca,
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Ciclopes,
ao colérico Posêidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrarás em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e seleta
a emoção que tocar teu alento e teu corpo.
Nem Lestrigões, nem Ciclopes,
nem o áspero Posêidon encontrarás,
se não tiveres imbuído em teu espírito,
se teu espírito não os suscitar diante de ti.
Roga que tua rota seja longa,
que, múltiplas, se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez, num porto ignoto!
Faze escala nos empórios fenícios
para arrematar mercadorias belas:
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptuosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatas, quantos puderes achar.
Detém-te nas cidades do Egito – nas muitas cidades –
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo o tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar tua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa, duradoura,
que aportes velho, finalmente, à ilha,
rico do muito que ganhaste no decurso do caminho,
sem esperares, de Ítaca, riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.

À ESPERA DOS BÁRBAROS
O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
O ESPELHO DA ENTRADA
À entrada da mansão
havia um grande espelho muito antigo,
comprado pelo menos há mais de oitenta anos.
Um rapaz belíssimo, empregado de alfaiate
(e nos domingos atleta diletante)
estava ali com um pacote.
Deu-o a alguém da casa, que o levou para dentro
com o recibo. O empregado do alfaiate
ficou sozinho, à espera.
Acercou-se do espelho e mirou-se
para ajeitar a gravata. Após cinco minutos,
trouxeram-lhe o recibo e ele se foi.
Mas o antigo espelho, que vira e revira
nos seus longos anos de existência
coisas e rostos aos milhares;
mas o antigo espelho agora se alegrava
e exultava de haver mostrado sobre si
por um instante a beleza culminante.
DESEJOS
Como belos corpos de mortos que não envelheceram
e foram encerrados, com lágrimas, em magnífico mausoléu,
com rosas na cabeça e jasmins nos pés –
assim se lhes assemelham os desejos que passaram
sem se realizar, sem que nenhum
alcançasse uma noite de prazer, ou sua manhã luminosa.

SÚPLICA
O mar reteve nos baixios um nauta.
Sua mãe sem o saber a vela alta
acende junto à Virgem. Seu retorno
requer, lhe pede um tempo sem transtorno.
O vento a obceca, nele se demora,
mas no momento em que suplica e ora,
o ícone, sério e solidário a escuta,
sabendo sem sentido sua labuta.
O CORTEJO DE DIONÍSIO
Dâmon, o artífice (não há outro tão apto
lá no Peloponeso), em mármore de Paros
esculpe o cortejo de Dionisio. O deus, glorioso,
excelso, vai adiante, no andar vigoroso.
O Frenesi atrás dele, e a Ebriez a seu lado,
vertendo vinho aos sátiros, de um grande vaso,
uma ânfora estefânia, que de hera se enguirlanda.
Junto deles está, enlanguescendo em branda
moleza, Vinho-mel, as meninas dos olhos
quase ocultas, a meio, como num sonho hipnótico.
E Molpos-Melodia e Harmonia-Hedimélia
a seguir vão cantando, e Kómos, a Comédia,
hílare, jamais deixa extinguir-se essa tocha
que porta na mão, ao caminhar, lampadófora.
Depois vem Teletê – sério Mistério. O artífice
Dâmon fez essas coisas belas. Não resiste,
porém, uma e outra vez, que o veloz pensamento
lhe derive, com ânsia, para o pagamento
que lhe há de dar o rei, senhor de Siracusa:
três talentos, bom prêmio, pela obra conclusa.
Dâmon o meterá em meio a seu tesouro
e viverá na cômoda opulência do ouro.
Até fazer política ele pode agora
– que bom! – e afinal há de ter voz e vez na ágora.
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REFERÊNCIAS
KAVÁFIS, Konstantinos. Poemas. Tradução de José Paulo Paes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
KAVÁFIS, Konstantinos. Poemas de K. Kaváfis. Tradução de Ísis Borges da Fonseca. São Paulo: Odysseus, 2006.
KAVÁFIS, Konstantinos. 60 poemas. Tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007.
KAVÁFIS, Konstantinos. Poemas de Konstantinos Kaváfis. Tradução de Haroldo de Campos. São Paulo: Cosac Naify, 2012.