sábado, 19 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

A Pequena Prisão

Oposições complementares
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A Pequena Prisão é uma montagem estruturada a partir da síntese e do acúmulo. De um lado, essa adaptação, a cargo da dramaturga Daniela Pereira de Carvalho, do livro homônimo de Igor Mendes, evidencia dimensão reduzida. Traz um ator em cena, Vino Fragoso, e um elemento cenográfico: as grades de ferro das celas da penitenciária onde Igor – preso arbitrariamente, em 2014, após participar de protestos políticos – permaneceu durante os sete meses em que ficou encarcerado. De outro, o texto descortina diante do público um concentrado de acontecimentos brutais, aos quais Igor e diversos indivíduos (todos interpretados por Vino) foram submetidos. 

Vino Fragoso. Foto: Claudia Ribeiro.

Vino Fragoso valoriza contrastes nessa encenação dirigida por Fernando Ceylão. Como cenógrafo, Vino propõe diferentes espacialidades apenas por meio da movimentação constante das grades. Realça a ambientação claustrofóbica da cela da prisão e indica áreas distintas dos presídios através desse componente (as grades), que, sem ser afastado de seu sentido literal, concreto, estimula a imaginação do espectador devido ao modo como é manipulado ao longo da apresentação. Fernando e Vino sugerem ainda uma transcendência das fronteiras – da cela, do espaço cênico. O provável intuito de ambos é ampliar o estado de aprisionamento, da penitenciária para o mundo (ou, pelo menos, para um mundo conflagrado como o de hoje). 

Já como ator, Vino interpreta não “só” Igor como os demais que compartilham da via-crúcis dele. Ao fazer dezenas de personagens, Vino desponta como um ator “essencial”, capaz de distinguir cada figura por meio de construções físicas e vocais, sem enveredar por recursos convencionais de caracterização; mas também se projeta como um ator “excessivo”, virtuosístico, filiado à tradição do artista popular que compõe grande número de personagens, demonstrando, assim, uma versatilidade que habitualmente impressiona e seduz a plateia. 

Vino Fragoso. Foto: Claudia Ribeiro.

O jogo de oposições complementares transparece na dramaturgia de Daniela, que tanto aborda as entranhas de um sistema complexo, perverso e corrompido quanto especifica os indivíduos inseridos nessa engrenagem, sejam os carcereiros, sejam os presos sujeitados a condições sub-humanas. A autora entrelaça o caráter documental, referente ao registro sóbrio da realidade, com a pulsação sanguínea, própria de personagens confrontados com experiências extremadas, num texto que transita entre narração (contida) e vivência (contundente).

Dramaturga que exerceu a escrita influenciada pelo processo de grupo em sala de ensaio (a parceria com a companhia Os Dezequilibrados), Daniela desenvolveu carreira abrangente (assinou textos de musicais de perfis diversificados), mas coerente, a julgar pelas peculiaridades de A Pequena Prisãoencontradas em trabalhos anteriores – a base literária, o formato de monólogo e a conjugação entre jornadas particulares e fases variadas (e conturbadas) da vida brasileira.

As proposições artísticas de A Pequena Prisão contribuem para fazer com que o público “enxergue” o panorama social destacado por Igor/Daniela.  Não por acaso, as criações surgem articuladas, conexão favorecida pelo comprometimento de Vino com algumas etapas da formulação do espetáculo. Há uma integração entre a cenografia e a iluminação (de Felício Mafra e Vino), que atravessa as grades da cela como rasgos, em tonalidades neutras e, eventualmente, dramáticas. De qualquer maneira, a cena não é inundada de cores vibrantes, opção sintonizada com a sofrida travessia do protagonista, como se pode perceber no figurino de João Pimenta.

Vino Fragoso. Foto: Claudia Ribeiro.

A proximidade com que o público é disposto em relação ao palco (essa observação diz respeito à primeira temporada do espetáculo no Teatro Poeirinha, de configuração bem distinta do teatro da Casa de Cultura Laura Alvim, onde está em cartaz agora) tem impacto duplo e contrário: beneficia o envolvimento com o relato denso e a visualização das imagens descritas no decorrer de um incômodo testemunho trágico; mas suscita no espectador uma sensação de suspensão, de desconforto, de certa ameaça. Afinal, não há como se dissolver no anonimato de uma plateia numerosa. O público é posicionado perto do ator e de frente para outro bloco de espectadores. 

Em A Pequena Prisão, a espacialidade, a cenografia, a dramaturgia e a interpretação colocam a plateia diante de tensões orquestradas de forma habilidosa.

A PEQUENA PRISÃO – Texto de Igor Mendes. Dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho. Direção de Fernando Ceylão. Com Vino Fragoso. Casa de Cultura Laura Alvim (Av. Vieira Souto, 176). Sex. e sáb., às 20h e dom., às 19h. Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia-entrada). Temporada: de 11/9 a 27/9.

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