A Pequena Prisão é uma montagem estruturada a partir da síntese e do acúmulo. De um lado, essa adaptação, a cargo da dramaturga Daniela Pereira de Carvalho, do livro homônimo de Igor Mendes, evidencia dimensão reduzida. Traz um ator em cena, Vino Fragoso, e um elemento cenográfico: as grades de ferro das celas da penitenciária onde Igor – preso arbitrariamente, em 2014, após participar de protestos políticos – permaneceu durante os sete meses em que ficou encarcerado. De outro, o texto descortina diante do público um concentrado de acontecimentos brutais, aos quais Igor e diversos indivíduos (todos interpretados por Vino) foram submetidos.

Vino Fragoso valoriza contrastes nessa encenação dirigida por Fernando Ceylão. Como cenógrafo, Vino propõe diferentes espacialidades apenas por meio da movimentação constante das grades. Realça a ambientação claustrofóbica da cela da prisão e indica áreas distintas dos presídios através desse componente (as grades), que, sem ser afastado de seu sentido literal, concreto, estimula a imaginação do espectador devido ao modo como é manipulado ao longo da apresentação. Fernando e Vino sugerem ainda uma transcendência das fronteiras – da cela, do espaço cênico. O provável intuito de ambos é ampliar o estado de aprisionamento, da penitenciária para o mundo (ou, pelo menos, para um mundo conflagrado como o de hoje).
Já como ator, Vino interpreta não “só” Igor como os demais que compartilham da via-crúcis dele. Ao fazer dezenas de personagens, Vino desponta como um ator “essencial”, capaz de distinguir cada figura por meio de construções físicas e vocais, sem enveredar por recursos convencionais de caracterização; mas também se projeta como um ator “excessivo”, virtuosístico, filiado à tradição do artista popular que compõe grande número de personagens, demonstrando, assim, uma versatilidade que habitualmente impressiona e seduz a plateia.

O jogo de oposições complementares transparece na dramaturgia de Daniela, que tanto aborda as entranhas de um sistema complexo, perverso e corrompido quanto especifica os indivíduos inseridos nessa engrenagem, sejam os carcereiros, sejam os presos sujeitados a condições sub-humanas. A autora entrelaça o caráter documental, referente ao registro sóbrio da realidade, com a pulsação sanguínea, própria de personagens confrontados com experiências extremadas, num texto que transita entre narração (contida) e vivência (contundente).
Dramaturga que exerceu a escrita influenciada pelo processo de grupo em sala de ensaio (a parceria com a companhia Os Dezequilibrados), Daniela desenvolveu carreira abrangente (assinou textos de musicais de perfis diversificados), mas coerente, a julgar pelas peculiaridades de A Pequena Prisãoencontradas em trabalhos anteriores – a base literária, o formato de monólogo e a conjugação entre jornadas particulares e fases variadas (e conturbadas) da vida brasileira.
As proposições artísticas de A Pequena Prisão contribuem para fazer com que o público “enxergue” o panorama social destacado por Igor/Daniela. Não por acaso, as criações surgem articuladas, conexão favorecida pelo comprometimento de Vino com algumas etapas da formulação do espetáculo. Há uma integração entre a cenografia e a iluminação (de Felício Mafra e Vino), que atravessa as grades da cela como rasgos, em tonalidades neutras e, eventualmente, dramáticas. De qualquer maneira, a cena não é inundada de cores vibrantes, opção sintonizada com a sofrida travessia do protagonista, como se pode perceber no figurino de João Pimenta.

A proximidade com que o público é disposto em relação ao palco (essa observação diz respeito à primeira temporada do espetáculo no Teatro Poeirinha, de configuração bem distinta do teatro da Casa de Cultura Laura Alvim, onde está em cartaz agora) tem impacto duplo e contrário: beneficia o envolvimento com o relato denso e a visualização das imagens descritas no decorrer de um incômodo testemunho trágico; mas suscita no espectador uma sensação de suspensão, de desconforto, de certa ameaça. Afinal, não há como se dissolver no anonimato de uma plateia numerosa. O público é posicionado perto do ator e de frente para outro bloco de espectadores.
Em A Pequena Prisão, a espacialidade, a cenografia, a dramaturgia e a interpretação colocam a plateia diante de tensões orquestradas de forma habilidosa.
A PEQUENA PRISÃO – Texto de Igor Mendes. Dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho. Direção de Fernando Ceylão. Com Vino Fragoso. Casa de Cultura Laura Alvim (Av. Vieira Souto, 176). Sex. e sáb., às 20h e dom., às 19h. Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia-entrada). Temporada: de 11/9 a 27/9.