Em 1904, ao manifestar a sua insatisfação com os relógios de bolso então produzidos, que, com efeito, dificultavam a rápida absorção das horas, sobretudo, para quem lidava com ‘máquinas voadoras‘, Santos Dumont externou ao joalheiro Louis Cartier que desejava um objeto que, dispensando as mãos para outras atividades, compactasse a mensuração do tempo. Por força dessa insatisfação, Cartier converteu o que antes era uma joia em um instrumento; em um objeto popular, cuja exitosa funcionalidade se tornou uma peça indispensável da cronometrada vida urbana desde o último século. Um simples objeto como o referido, um relógio de pulso, é capaz de nos trazer à mão um argumento no mínimo pontual, um argumento que lança luz sobre a escalada tecnológica, qual seja: em nome da economia de esforços (em que o que se procura é a otimização das tarefas cotidianas), os objetos são concebidos para satisfazer uma progressiva e inteligente demanda, no que leva a uma crescente dependência do homem a tais objetos cada vez mais automatizados ou independentes.
A beleza da tecnologia (se é que podemos descrevê-la nesses termos) reside no aprimoramento daquele antigo conceito da mecânica clássica: o do princípio regulador, posteriormente adaptado à engenharia de controle e seu servomecanismo, que dispõe ao objeto concebido uma capacidade de correção autonômica de seus próprios desajustes; a exemplo de um míssil que rearranja, ao longo de seu curso, a própria trajetória. Ademais, a marcha dessa escalada é regida pela expectativa de saciar (com uma contínua melhoria dos rendimentos do objeto) alguma demanda individual, alguma precisão intransferível, de sorte que – a exemplo do relógio de pulso – a finalidade anterior (eventualmente episódica no caso de Santos Dumont) revelou para os seus investidores um verdadeiro truísmo: certas situações na acelerada vida moderna clamam por um artefato manuseável, compacto e independente o suficiente para marcar a passagem das horas.

Jack Frances Welch Jr, ex-CEO da General Eletric, certa vez considerou a seguinte coisa, cuja aplicação se desdobra e aponta não para as excentricidades de alguns inventores e suas descobertas motivadas por uma vaidade qualquer, mas para a prestatividade e satisfação dos objetos tecnológicos às pessoas reais: “Se uma ideia não consegue sobreviver a um argumento inteligente, o mercado certamente acabaria com ela.” Se um invento (um potencial objeto) for fascinante, mas não atender aos critérios mínimos de automação e às necessidades humanas reais, a probabilidade de fracasso já o inviabiliza desde a sua idealização. Para o bem ou para o mal, ao que quer que se proponha, o élan tecnológico satisfaz este anseio prévio de saciar de modo autonômico e eficaz, uma demanda do mundo real; fenômeno que, aliás, esclarece a crescente dependência dos homens de seus aparelhos demasiado portáteis e pessoais.
Ao longo dessa marcha avassaladora em que a contínua melhora do rendimento (cada vez mais automatizado) se impõe diante do desgaste das antigas funções de um objeto, o que quer que seja vendido pelo mercado tende a criar uma espécie de constelação instrumental, na qual o gigantismo das máquinas mais antigas cede espaço à miniaturização. Por efeito dessa celebração da portabilidade, em que chips e fibras ópticas se amontoam (sem que sejam sequer suspeitados), o élan tecnológico anseia compactar o máximo ao mínimo, afinal se pauta na satisfação das demandas de pessoas reais que, a certa altura, depositam sobre os objetos expectativas intransferíveis; como fotos, senhas e dados que já não são mais confiados nem à impressão física nem aos arbítrios da memória. Quanto mais eficaz é a utilidade desempenhada por cada um desses pequenos aparelhos, mais individuais e pessoais são as suas funções que, adaptadas da velha mecânica clássica, primam por automação e, consequentemente, pela confiança decisiva que seus usuários lhes impõem.
Como é um fenômeno recente, em que a própria marcha tecnológica molda os princípios da mecânica clássica à neuroplasticidade e as antigas peças se convertem em verdadeiras redes de fios cada vez mais reduzidos, a vinculação pessoal e intransferível entre usuário e aparelho tem motivado uma série de estudos ambiciosos, com destaque para as observações de Daniel Wegner que, nos idos dos anos 80, já havia apontado para a chamada ‘memória transacional‘, na qual (por meio da crescente delegação da memória pessoal aos computadores) o anseio de preservação integral das experiências individuais não só apressaria o uso de tecnologias cada vez mais personalizadas, como esvaziaria o sentido biográfico da própria memória. Eis o calcanhar de Aquiles da marcha tecnológica atual, em um momento em que qualquer lembrança (qualquer coisa distante que se queira por perto) é armazenada nas nuvens dessa memória transacional sem se avaliar ainda os efeitos sobre a memória pessoal. Admirável mundo novo ou, a depender da perspectiva de quem vê, tempestade.

O tempo vai passando e, para além do relógio de pulso, os objetos tecnológicos se amontoam com microdispositivos que foram compactados sob ensejo da automação; para que servissem e espelhassem, inteligentemente, a singularidade de seus portadores. Ao longo dessa marcha, as funções programadas do objeto moldam-se de acordo com as expectativas de quem as adquire, no que, com efeito, nos revela um caráter plástico; uma neuroplasticidade que nenhum artefato jamais gozara história afora. Compactos, funcionais e portáteis: à proporção que a escalada tecnológica avança mundo afora, os objetos cedem a quase transfusão; como se pudessem aderir à pele do usuário e adivinhar seus desejos mais íntimos; como se pudessem transpor o toque ao longo dos microssulcos que se denunciam na própria etimologia da palavra ‘digital‘, doravante desde os poderes imperativos dos dedos. Desde as digitais, cada usuário se transforma em microimperadores em seus reinos virtuais, em uma realidade que – tateante – oscila entre a simulação e a superficialidade da tela, de sorte que é ao longo dessa oscilação (do simulacro à superfície) que reside a particularidade da tecnologia vigente na qual a individualidade e seus registros memoriosos vagam por espaços imprecisos e o distante (uma foto do passado, uma frase, uma notícia) se mantém nas nuvens, em rede; em suspensão.
Diferentemente do olhar que abstraia o tempo desde os ponteiros do relógio de pulso de Cartier, diferentemente daquele, o olhar da era digital simula um reino virtual para cada conexão, dissimulando uma outra realidade, que, para se tornar inteligível ou crível em primeiro plano, compacta a complexidade do mundo aos interesses pessoais; às idiossincrasias, ao mínimo portátil, o que rebaixa o mundo real a uma espécie de tela secundária esmaecida e sem importância. O mínimo portátil dessa vida virtual se assemelha a uma janela tridimensional que contém desde suas dobradiças, a simulação de outras janelas que, sem censuras, limites ou fronteiras, suprem mais vida do que a que se esgota lá fora.
O envolvimento cada vez mais crescente do homem com o mundo digital, cuja consequência anteriormente aludida implica numa contínua expectativa de melhora de rendimento do objeto tecnológico (própria do mercado), e, portanto, a uma intensificação dos processos de alheamento do que já (a esta hora, em pleno metaverso) se percebe com relativo assombro, tem afetado não apenas as relações humanas desde o sentido mais íntimo, mas igualmente as dimensões acerca das preferências, visões de mundo e valores, com efeito, há uma crescente investida dos algoritmos sobre ‘os mapas dos mundos pessoais‘. Na plasticidade desse reino virtual, em que tudo é produzido e revendido para enaltecer o indivíduo que o habita; a pessoa que compra, certos padrões (cultura, comportamento, religião, política) entram em choque numa crise que, se bem avaliada, já se dera no século passado desde a popularização dos meios de comunicação como o rádio e a televisão. Mas, em um caso ainda mais específico, creio que tal crise possa ser evidenciada, sobretudo, pela dificuldade que o usuário da tecnologia tem em se voltar à realidade circundante; embaraço que tem se agravado em razão do caráter alienante do mundo virtual. Exemplar quanto a essa crise da distância que tende a se tornar ainda mais difusa com a tecnologia, se pode recordar o seguinte fato histórico: entre os dias 21 e 26 de abril de 1961, uma junta militar (reunida em Argel) planejou derrubar o Presidente francês Charles de Gaulle; em um episódio chamado de ‘Putsch dos Generais.’ Segundo consta, o malogro da malfadada operação decorrera da recusa dos jovens militares que, munidos com rádios de pilha e sintonizados na Rádio-Argel, ouviam toda a movimentação dos seus superiores de modo instantâneo; desconsiderando a finalidade insurrecional que se formava. Entre as ondas do rádio e a rebelião em curso, ou entre duas informações que – passo a passo – se desencontravam, os jovens decidiram ceder ao efeito ora persuasivo, ora ruidoso da primeira opção sem que absorvessem as motivações reais da segunda.

Semelhante ao episódio em Argel, dada a preferência dos jovens militares não pelas demandas ao redor, mas pelo que lhes chegava de muito longe, avalio que a crise acima aludida; da cultura, comportamento, política e religião ao longo da marcha tecnológica recente em sua modalidade digital, se evidencia como um diagnóstico quanto mais notamos os valores, condutas e hábitos dos nascidos no fervor dessa marcha; entre os anos 2000, 2010. Basta observá-los para que uma constatação salte aos olhos, qual seja: são mais dependentes dos modos de pensar, falar e se comportar de pessoas que, presentes apenas pelas telas de computadores e smartphones, desconhecem, do que propriamente pela presença dos familiares e entes mais próximos. A crise em questão é de ordem elementar; espacial, e esconde uma superestimação de ideias e hábitos distantes de pessoas cujos propósitos não são de todo confiáveis ou credibilizáveis. Celebra-se o discurso de uma celebridade ou político que habita um outro continente, sem que se tenha uma dimensão da regularidade da coleta de lixo no próprio bairro.
Desde 1961, ou pelo menos no contexto oportuno desse episódio, as lições da tecnologia se propagam com a igual velocidade com que subjaz a sua crise: quanto mais o indivíduo real se distancia do mundo ao redor, mais suscetível se torna a poderes e forças que desconhece. Quanto mais (em nome do distante) algo for cultuado como verdadeiro, o que estiver mais próximo sempre parecerá menos confiável.