A uruguaia Armonía Somers caminha por trajetos misteriosos e oníricos em seu A Mulher Nua, publicado, originalmente, em 1950, e, finalmente, lançado no Brasil em tradução de Mariana Sanchez. Com uma narrativa bastante inventiva, mergulhando se pudor no surrealismo, a autora cria uma história de horror sobre desafios e conquistas que uma mulher precisa enfrentar em busca da plenitude.
“O dia em que Rebeca Linke fez 30 anos teve início com aquilo que ela sempre havia imaginado, apesar de uma secreta ilusão contrária: o nada”, começa a narrativa de Somers, cuja “mulher de 30” será bem diferente daquela de Balzac. Aqui, para se chegar ao todo, é preciso desconstruir as partes, e assim, acontece de forma simbólica e “real” para Rebeca, que, nas primeiras páginas, perde a cabeça – e isso não acontece num plano metafórico, ela realmente perde a cabeça. “A cabeça rolou pesada como um fruto. Rebeca Linke viu aquilo cair sem alegria nem tristeza.”

Isso acontece ainda nas primeiras páginas, o que estabelece o tom insólito com o qual Somers irá lidar muito bem ao longo da narrativa, rompendo com a linha tênue entre realidade e sonho. O ato de se autodecapitar coloca a personagem nessa posição de trânsito entre sistemas no quais a partir dos quais é preciso de desmontar para reconstruir um novo eu, mais livre, capaz de reclamar seu próprio corpo.
Contemporânea de Clarice Lispector, a escritora uruguaia partilha com a brasileira essa afinidade com o mundo metafísico, uma investigação sobre a feminilidade num momento de aumento do descontentamento dos papéis de gênero imposto às mulheres, que culminaria com a ascensão dos movimentos feministas – entre outros movimentos sociais – na década de 1960.
As duas escritoras captam muito bem a ebulição em fogo brando de algo que já não era mais sustentável social e culturalmente. Da forma como estava, algumas artísticas percebiam que o realismo puro já não dava conta do retrato da realidade prestes a se estilhaçar, e então buscavam no sonho, no impalpável a maneira de narrar o momento histórico.
No vilarejo, obviamente, a “mulher nua” se torna uma figura de contestação que deve ser sufocada. O coletivo serve como defensor das normas estabelecidas que uma mulher se cabeça romperia e mostraria como a transformação é possível. E a religião, na figura do padre, tem um papel central. Para que a transformação social seja completa, é preciso reestruturar as bases, a libertação de uma única mulher é uma conquista pessoal, mas que ainda mantém as demais aprisionadas, e, nesse sentido, Somers sabe bem que é preciso chacoalhar a sociedade como um todo.
Dona de uma prosa que transita entre o cru e o lírico, a autora faz de sua “Mulher Nua” uma narrativa que atravessa tempo e espaço reverberando com força num momento presente em que se discute misoginia e feminicídio, apontando que estruturas sociais não mudam sozinhas.
