sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
ENSAIO

Gonzaguinha: artista do coração e da liberdade

A imagem do homem ríspido não explica o compositor de Sangrando. O artista de protesto não explica o autor de O Que É, o Que É?. O cantor romântico não elimina o homem que enfrentou a ditadura. As diferentes partes precisam coexistir.
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Não fosse um fatídico acidente numa estrada do interior de seu tão amado Brasil, quem sabe Gonzaguinha estaria hoje aqui, próximo de completar 81 anos, sem a menor vergonha de ser feliz. 

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior nasceu em 22 de setembro de 1945 e partiu em 29 de abril de 1991, aos 45 anos. Morreu cedo, mas deixou uma obra que continua surpreendendo pela variedade em que se entrelaçam crítica social, samba, baião, forró, xaxado, bolero, samba-canção e música romântica. Um repertório que vai muito além da imagem associada ao compositor de protesto que marcou os primeiros anos de sua carreira.

É justamente esse artista múltiplo que Susanna Lira procura recuperar em Gonzaguinha, Da Maior Liberdade, documentário que estreia este mês e que saiu consagrado do último Festival de Gramado, recebendo o Kikito de Melhor Documentário. Com pesquisa musical de Rodrigo Alzuguir, o filme percorre a vida e a obra do compositor a partir de arquivos, depoimentos e canções, procurando entender como se formou aquele personagem de voz áspera, humor ácido e enorme capacidade de comunicação popular.

Filho de Luiz Gonzaga, o Gonzagão, e de Odaléia Guedes dos Santos, Gonzaguinha nasceu no Rio de Janeiro. Odaléia era cantora e bailarina do Dancing Brasil.  Saiu cedo do salão, vítima de tuberculose, quando o filho tinha apenas dois anos. Gonzaguinha não conheceu a mãe, mas guardou dela uma imagem afetiva que apareceria posteriormente em sua obra. Foi criado pelos padrinhos, Henrique Xavier e Leopoldina, a Dina, amigos de Luiz Gonzaga. Xavier, violonista, teve papel importante em sua formação musical. 

Cresceu no Morro de São Carlos, no Estácio, um dos territórios fundamentais da história do samba carioca. Foi ali que Ismael Silva e outros sambistas criaram, em 1928, a Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba. Mais tarde, a Unidos de São Carlos daria origem à Estácio de Sá. O morro também revelaria Luiz Melodia, amigo de Gonzaguinha, entre tantos outros artistas.

Esse ambiente aparece como um elemento importante na formação de Gonzaguinha. Não apenas pelo samba, mas pela experiência de viver numa comunidade popular do Rio, observando suas relações,  dificuldades e transformações. É desse lugar que sai o menino que mais tarde escreveria:

“Ô Dina! Teu menino desceu o São Carlos / pegou um sonho e partiu.”

Gonzaguinha estudou Economia na Universidade Cândido Mendes, mas foi a música que acabou definindo seu caminho. Na segunda metade dos anos 1960, passou a frequentar os encontros promovidos pelo psiquiatra Aluízio Porto Carrero, na Tijuca. A casa da Rua Jaceguai tornou-se ponto de encontro de jovens compositores e músicos que participariam da formação do Movimento Artístico Universitário, o MAU.

A casa de Aluízio Porto Carrero funcionava também como um laboratório musical, ponto de encontro de compositores de diferentes formações e estilos, numa época em que os festivais de televisão haviam se transformado num dos principais espaços de circulação da nova música brasileira.

Ali estavam, além de Gonzaguinha, Ivan Lins, Aldir Blanc, César Costa Filho, Paulo Emílio, Sílvio da Silva Júnior, Márcio Proença, Sidney Mattos, Cláudio Cartier, Otávio Bonfá e outros músicos e compositores. O grupo reunia estudantes que começavam a participar dos festivais universitários e procuravam criar espaço para suas próprias músicas. O MAU acabaria chegando à televisão com Som Livre Exportação, programa da Globo apresentado por Ivan Lins e Elis Regina.

Nesse contexto Gonzaguinha começa a construir sua voz, uma voz nada confortável para o regime.

O Brasil que encontraria como compositor era o Brasil da ditadura militar. A censura passou a interferir diretamente em sua produção. Para os dois primeiros discos, Gonzaguinha submeteu 72 músicas aos censores; 54 foram vetadas. A canção Comportamento Geral (Você deve aprender a baixar a cabeça/e dizer tudo tem melhorado) tornou-se um dos exemplos mais conhecidos de sua relação conflituosa com a censura.

Chamá-lo simplesmente de compositor de “canções de protesto”, entretanto, é insuficiente. Há em sua obra uma observação muito mais ampla do comportamento geral do brasileiro. Ela trata de política, mas também de relações amorosas, trabalho, dinheiro, família, amizade, infância, desigualdade e cotidiano.

“Cantar nunca foi só de alegria / com tempo ruim todo mundo também dá bom dia.”

O verso da música Palavras resume uma característica de sua escrita: a capacidade de transformar uma situação política em comentário sobre a vida comum.  Ou de mandar recados, como na canção intitulada exatamente Recado, sobre o seu jeito de ser:  “Se me der um beijo, eu gosto/se me der um tapa, eu brigo/se me der um grito não calo/se mandar calar, mas eu falo”.

A censura ajudou a construir a imagem pública do compositor combativo. Seu temperamento também. Gonzaguinha podia ser ríspido, desconfiado, pouco interessado em agradar. Foi chamado de “cantor rancor”, pela jmplacável, e respeitada, crítica musical Maria helena Dutra.  Tinha ainda problemas de saúde, entre eles a tuberculose – mesma doença da mãe, Odaléia – e o glaucoma, que afetava um dos olhos e contribuía para aquele olhar enviesado que muitas vezes parecia carregar desconfiança.

Mas a carreira posterior desmontaria a caricatura.  O mesmo compositor que enfrentava a censura passou a ser gravado pelos maiores intérpretes brasileiras. Maria Bethânia, Elis Regina, Emílio Santiago, Alcione,  Simone, Fagner, Joanna e tantos outros encontraram em sua obra canções de enorme força emocional.

SangrandoComeçaria Tudo Outra VezExplode CoraçãoGrito de Alerta, Um Homem Também Chora, Infinito Desejo, Da Maior Liberdade… há nessas músicas um compositor interessado em sentimentos tão complexos quanto aqueles que apareciam em suas canções políticas.

A dimensão romântica de Gonzaguinha não foi uma mudança de personalidade. Estava presente desde o início, apenas passou a ocupar um espaço maior em sua obra. O homem que discutia o país também escrevia sobre a intimidade e seus pontos de interrogação. 

Foi no samba, porém, que essa capacidade de comunicação alcançou outra dimensão. 

Gênero que eternizou na clássica O Que É o Que É, cujos versos iniciais resumem a grandiosa, reflexiva, generosa e acima de tudo humana, poética de Gonzaguinha: “Eu fico com a pureza da resposta das crianças/ É a vida/ É bonita e é bonita/ Viver e não ter a vergonha de ser feliz/ Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”.  O resto vai no automático .

Gonzaguinha sabia fazer comentário social sem transformar a canção em discurso. Sabia usar humor, ironia, frases coloquiais e situações reconhecíveis.  Nas suas letras,  dez entre dez brasileiros querem mesmo é feijão maravilha. O crédito está na rapaziada. A democracia acomoda-se na mesa de bar. E ninguém precisa chegar com sacanagem.  Porque a gente não tem cara de babaca.

Há em seus versos uma compreensão bastante precisa do público para o qual escrevia. Gonzaguinha não falava de um povo imaginário. Conhecia o ambiente, a linguagem e os personagens sobre os quais cantava.

Antes de conquistar o país, circulou pelo Rio. Cantou em Vila Isabel, na Tijuca, no Méier, em Madureira. Esteve em clubes e associações da Zona Norte e da Baixada Fluminense, em Duque de Caxias, São Gonçalo e outros pontos da região metropolitana. Gonzaguinha ia onde seu público estava. Cantava para quem estava perto, antes de cantar para o Brasil inteiro.

É nesse momento de intensa vivência do Brasil que a reaproximação com Luiz Gonzaga ganha importância.

O filho do São Carlos reencontra o pai, o Rei do Baião. O compositor formado no Rio se aproxima do universo nordestino do Gonzagão. O encontro produz uma combinação que vai além da relação familiar: aproxima duas tradições musicais e duas experiências brasileiras.

Gonzaguinha trazia o samba, a cidade, a universidade, a crítica social, a vida cotidiana do Rio. Luiz Gonzaga trazia o sertão, o baião, a sanfona, Seu Januário, a asa-branca, o assum-preto.

Quando passam a dividir palcos Brasil afora, o encontro ganha também uma dimensão simbólica. O filho que havia construído sua carreira praticamente à margem da figura paterna passa a compartilhar com ele uma parte da história que lhe pertencia.

O reencontro, portanto, não é uma simples reconciliação sentimental. Há ali uma questão de revirar a própria identidade.  O Gonzaguinha do São Carlos, do Rio, da música urbana, era também o legítimo herdeiro de uma tradição nordestina selada em seu próprio nome.

Nos últimos anos, outro Gonzaguinha aparece. A família passa a ocupar um espaço maior. A paternidade, a gravidez, as crianças, o cotidiano doméstico entram em sua obra. O compositor continua atento à política, mas sua escrita ganha uma espécie de repouso no tal “lindo lago do amor”.

Depois de atravessar a censura, a desigualdade, os conflitos, as perdas e as paixões, Gonzaguinha chega a uma afirmação aparentemente simples, mas profundamente política: a vida é luta e prazer. Não se trata de ingenuidade. É uma superação de tudo aquilo que poderia levar ao desencanto. Dizer que a vida é bonita, depois de tudo, é também uma forma de liberdade.

É nessa combinação entre conflito e delicadeza que Susanna Lira encontra um de seus principais caminhos para decifrar o Gonzaguinha que agora chega às telas.

Seu documentário não procura encaixotá-lo numa única identidade. O compositor político aparece ao lado do romântico. O homem de temperamento difícil convive com outro, afetuoso, solidário. O artista ligado ao samba carioca se aproxima do baião do pai. O estudante universitário dos anos 1960 torna-se um dos compositores populares mais conhecidos do país.

A pesquisa de arquivo é decisiva para construir essas diferentes faces.

O filme recupera imagens pouco vistas, registros de televisão, fotografias, documentos, apresentações e entrevistas. Não se limita ao material mais conhecido para encontrar momentos capazes de devolver ao personagem sua complexidade.  E quando não os encontra, recria-os.

É o caso da entrevista ao Pasquim, encenada, em que Gonzaguinha enfrenta questões sobre seu temperamento, seu mau humor e sua suposta antipatia. O episódio ajuda a perceber como a persona pública do compositor foi sendo construída.

A recriação também permite que o filme dialogue com uma questão importante: até que ponto conhecemos um artista pelas imagens que a televisão e a imprensa produziram dele?

No caso de Gonzaguinha, a resposta parece ser: muito pouco.

A imagem do homem ríspido não explica o compositor de Sangrando. O artista de protesto não explica o autor de O Que É, o Que É?. O cantor romântico não elimina o homem que enfrentou a ditadura. As diferentes partes precisam coexistir.

Nesse ponto eleva-se o trabalho de Rodrigo Alzuguir. A pesquisa musical não aparece apenas como levantamento de repertório. Ela ajuda a organizar a trajetória de um compositor que transitou por diferentes gêneros sem abandonar uma característica fundamental: a necessidade de dizer alguma coisa sobre seu tempo.

As canções estão no filme para estruturar  a narrativa, desde a conceitual sequência inicial, ao som de Artistas da Vida (“Nós, os milhões de palhaços/Nós, os milhões de arlequins/Somos apenas pessoas/Somos gente, estrelas sem fim”).  As canções não estão ali apenas para preencher espaços entre depoimentos. Os versos comentam imagens, estabelecem relações entre períodos da vida e, muitas vezes, dizem aquilo que é apenas sugerido.  É por meio delas que o personagem fala.

Talvez seja esse o ponto mais interessante de Gonzaguinha, Da Maior Liberdade. O filme não precisa transformar seu personagem em herói. A própria obra diz tudo sobre ele.

Ao final, o que permanece é a coerência de alguém que nunca separou completamente a música da vida.  O que o filme de Susanna Lira pretende é justamente abrir novamente essa obra para o público de hoje.  Não para transformá-la em monumento, mas para devolver-lhe movimento.

Porque Gonzaguinha continua sendo um compositor difícil de enquadrar. E talvez seja essa sua maior qualidade.  Ou melhor, sua maior liberdade.

A obra de Gonzaguinha ainda permite que se reconheça o Brasil que ele conheceu, mas também ajuda a perceber o Brasil que veio depois.  E segue pelaí, sempre alerta, enfrentando fantasmas muito vivos, conclamando à unidade de onde sairá a novidade.

Aos 45 anos, morreu o homem. O artista, no entanto, continua pelos caminhos onde bate bem mais forte o coração.

Afinal, para quem não o conhecia e passa agora a conhecê-lo pelo filme de Susanna Lira, o moleque Gonzaguinha apenas acabou de chegar.

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