“E este lugar que era o mundo, agora vazio oco quer ser mundo ainda”, escreve José Luís Peixoto em seu Morreste-me, uma elegia ao seu pai, publicada no ano 2000. O tema da perda é caro ao escritor português, e permeia todo seu novo romance A Montanha, lançado no Brasil pela Dublinense, o um mundo vazio questiona se ainda há possibilidades de ser preenchido.

A primeira frase já retoma a temática do fim: “Acabou para sempre a vida que tinhas.” Não se trata necessariamente da morte, mas de um ponto de chegada, a partir do qual é preciso reinventar a vida. No romance, um escritor é chamado para escrever um romance sobre pacientes de uma clínica oncológica, são narrativas melancólicas, é claro, marcada pela mudança radical na vida dessas pessoas.
“Às vezes, a palavra câncer existe nas sua própria ausência. As vozes vão para pronunciá-la, mas, no último instante evitam pronunciá-la, deixando só um espaço vazio”. Todas as ocorrências da palavra câncer estão em negrito no romance, assim, evidenciando-a e, de certa forma, tirando o elefante do tabu da sala.
O autor-personagem-narrador (uma versão do próprio Peixoto) começa a fazer entrevistas e construir sua narrativa, mas ele é um sujeito repleto de incertezas sobre o passado. As histórias que nos conta nem sempre são suas, e ele precisa confiar nesses narradores, para transmitir a nós, em segunda mão, coisas que não presenciou.
Se em suas origens, a forma romance, que nasce com a ascensão da burguesia, era repleto de convicções, hoje, (ainda) na pós-modernidade não se há certeza de nada. As grandes narrativas que davam conta de explicar a vida, atualmente foram destroçadas, e só nos restam fragmentos que, mesmo decodificados, não compõem uma narrativa coesa.
É exatamente nesse lugar que se situa A Montanha. E Peixoto está muito ciente disso. O protagonista, a certa atura, recebe a cópia de uma tese chamada Fragmentação na literatura europeia contemporânea, assinada por um tal de Björn Alepson, que estabelece uma relação direta com o livro que o narrador está escrevendo, e, aos poucos, a narrativa se embrenha num labirinto de estranhamentos e conexões.
O autor-narrador, tal qual Peixoto, sempre aceita convites para viajar a qualquer evento que o convide, crê na importância de seu contato com o leitor. Por isso, boa parte do livro trata dele fazendo um globetrotting, ao mesmo tempo que escreve, e lê a tese que recebeu. Novamente, fragmentos que ressignificam A Montanha como um todo, especialmente, no sentido do romance construindo a partir de incertezas.
Em sua obra, Peixoto sempre lidou com os fragmentos da incerteza, da composição estranha que nos conduz por labirintos povoados por personagens que lidam com suas aflições e angústias. Livros como Cemitério de Pianos (2007), Galveias (2014), Almoço de Domingo (2021) lidam exatamente a dialética dos laços de afeto interrompidos e as relações familiares. A figura do pai, retomada de Morreste-me, é central em A Montanha, fazendo um movimento de juntar pontas para compreender como Peixoto chegou aqui desde seu livro de estreia de 2000.
