A Armazém Companhia de Teatro vem, no decorrer dos seus quase 40 anos de trajetória, alternando montagens de peças concebidas dentro do grupo (pelo dramaturgo Maurício Arruda Mendonça e pelo diretor Paulo de Moraes) e de textos clássicos. No que diz respeito às dramaturgias consagradas, o coletivo, na contramão de uma postura subserviente, prioriza operações autorais. Em Gaivota, montagem em cartaz no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a companhia trabalha “a partir da obra de Anton Tchekhov”. A existência de alterações em relação à peça é sinteticamente sinalizada na discreta mudança no título do espetáculo (Gaivota ao invés de A Gaivota), procedimento parecido ao praticado por Daniela Thomas na adaptação cênica do mesmo texto realizada em meados da década de 1990 e denominada Da Gaivota.

Além de Maurício e Paulo, Jopa Moraes, que integra o elenco, se dedicou a essa nova “versão dramatúrgica”, que consiste, basicamente, na transposição da história para os dias de hoje e na supressão de alguns personagens da peça. Entre as proposições apresentadas, a transferência da história do período em que foi escrita, no final do século XIX, para a contemporaneidade se manifesta através de elementos (telefone celular) e de atualizações na esfera profissional (Arkádina conciliando o ofício em teatro com participações no streaming) e na sexualidade (sem perspectivas de ser correspondida por Trepliov, Masha estabelece união com uma mulher, e não com o professor Medviedienko, um dos personagens retirados dessa versão). Essas substituições não estão enraizadas numa investigação verticalizada da peça. E o deslocamento temporal reduz a oportunidade do espectador traçar articulações entre passado e presente e verificar, por conta própria, em que medida determinadas problemáticas têm atravessado o tempo.
O transporte da ação para o aqui/agora tende a tornar menos sutil o panorama artístico descortinado por Tchekhov. Sem perderem as suas dimensões como indivíduos, Arkádina e Trepliov são símbolos do embate entre os movimentos naturalista e simbolista, na virada do século XIX para o XX, e de posicionamentos contrastantes diante da arte. A primeira é uma atriz renomada, inserida no sistema, e o segundo, um aspirante a dramaturgo incompreendido. No entanto, Tchekhov não envereda por oposições fáceis. O dramaturgo dá a impressão de assinalar o início de um momento de passagem. Por mais sucesso que Arkádina ainda faça, talvez indícios de desgaste em sua carreira se insinuem no horizonte. E, em se tratando de Trepliov, já há quem perceba o potencial de sua escrita, por menos assimilada que ainda seja. Tchekhov também se distancia do esquematismo ao mostrar, em suas peças, que os aristocratas, apesar de ociosos, são menos acomodados que os jovens revolucionários (casos de Arkádina/Trepliov e de Liuba/Trofímov – estes em O Jardim das Cerejeiras).

Na encenação, a conexão com o século XXI transparece no investimento no aparato tecnológico e na linguagem multimídia. Mas nem o drone que sobrevoa a plateia, identificado como gaivota, nem as imagens projetadas na tela contribuem para suscitar novas possibilidades de leitura acerca da peça. As músicas acentuam o afastamento do contexto original de A Gaivota. Cabe, porém, reconhecer a boa execução do elenco, que, nas laterais do palco, canta e toca instrumentos (direção musical de Ricco Viana). Considerando as contribuições diretamente influenciadas pela modificação da conjuntura histórica, as mais interessantes são os figurinos de Carol Lobato, que, trajando todos os atores/personagens com calças jeans, não resultam em uniformização. Ao contrário, realçam as especificidades de cada um.
Mas, em que pesem as diversas e questionáveis interferências na condução da peça ao palco, essa montagem aposta, em contrapartida, numa noção de síntese. As criações caminham em sentido oposto ao da espetaculosidade. Há uma valorização do texto e das atuações numa concepção cênica que, descontadas as inclusões da tela e do drone, não conta com muitos adereços. A cenografia de Carla Berri e Paulo de Moraes enfatiza a instância do teatro, da representação, por meio de um tablado suspenso sobre o palco, espaço que serve à encenação da peça de Trepliov. A iluminação de Maneco Quinderé não incorre em efeitos dispersivos.

O elenco demonstra clareza em relação às motivações e aos conflitos vivenciados pelos personagens. Há interpretações norteadas por intensidade emocional bem dosada – Patrícia Selonk, que transmite as contradições de Arkádina, estrela autocentrada com lampejos de afeto pelo filho; Lorena Lima, que imprime credibilidade à desestabilização de Nina; e Jopa Moraes, que reveste Trepliov de vibração sanguínea. Sérgio Machado e Fe Bustamante conferem naturalidade, desconstruindo formalidades da representação, respectivamente como Sorín e Dorn. Bruno Lourenço frisa a fraqueza moral de Trigórin e Isabel Pacheco, as frustrações de Masha.
Vale fazer um paralelo entre os personagens e dois de seus intérpretes. Arkádina e Trepliov são mãe e filho, assim como Patrícia Selonk e Jopa Moraes. A Armazém, inclusive, adquiriu uma crescente composição familiar. À frente da companhia – fundada, em 1987, numa efervescente Londrina – está o casal formado por Paulo de Moraes e Selonk. Hoje, Jopa pertence ao grupo. A escolha de uma peça como A Gaivota permite mais ligações. Arkádina é uma primeira atriz, habilidosa em monopolizar as atenções dos espectadores que a prestigiam. Ao longo dos anos, Selonk vem interpretando, com frequência, protagonistas ou personagens de destaque nos espetáculos da Armazém, condição que a aproxima do posto de primeira atriz, mas não de diva dos palcos, como Arkádina, tendo em vista a realidade enfrentada, mesmo que em escalas variáveis, pelos artistas de companhias de teatro brasileiras.
Erguida a partir de ideias pouco sólidas na transposição da peça de Tchekhov para o palco, essa montagem se sustenta justamente pelos elementos tradicionais: a qualidade do texto, a força da palavra e a cena, até certo ponto, despojada.
GAIVOTA – Dramaturgia de Maurício Arruda Mendonça, Paulo de Moraes e Jopa Moraes a partir da peça de Anton Tchekhov. Com Patrícia Selonk, Jopa Moraes, Lorena Lima, Bruno Lourenço, Sérgio Machado, Fe Bustamante e Isabel Pacheco. Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil (R. Primeiro de Março, 66). De qua. a sex., às 19h, sáb. e dom., às 18h. Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia-entrada). Temporada: de 5/8 a 13/9.