sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
ENSAIO

A nossa sina

No seu texto de estreia no nosso espaço, o crítico Paulo Henrique Silva apresenta sua coluna quinzenal sobre a crítica.
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A palavra “crítica” sempre nos remete a um estado de alerta, um momento crítico que precisa de atenção. Como se chegássemos a um ponto culminante, que, se deixarmos como está, poderá transformar algo definitivamente. Talvez seja a melhor analogia para quem escreve sobre cinema. Ou seja, para quem é crítico de cinema.

Nos tempos de hoje, ser crítico é viver à beira do precipício.

Há uma quantidade enorme de filmes entrando e saindo dos cinemas, sendo lançados nas plataformas de streaming ou ganhando uma retrospectiva importante numa sala de arte. E, nos festivais, há a urgência de escrever sobre as produções concorrentes. Todas elas, para sermos justos.

É como uma missão que não nos foi dada ou imposta. Fazemos porque simplesmente temos que fazer.

Os links inundam nossas caixas de e-mail. Não adianta fingir que não os vemos. Eles vêm por WhatsApp, generosos, mas sempre com uma data de expiração. Sobre qual escrever então?

Para um crítico que se abre diligentemente para todos os cinemas, como um dever de ofício, fechar os olhos é um ato criminoso. A sensação é de que seremos punidos pelos deuses André Bazin e Paulo Emílio Salles Gomes.

Paulo Emílio, por sinal, foi quem cunhou a nossa frase-sentença: “O pior filme brasileiro é melhor do que o melhor filme estrangeiro”. Assim posto, somos obrigados a ver toda produção gerada em nossa terra, para não sermos um filho ingrato.

Sou do tempo em que nos colocávamos como faróis para os leitores – sim, daquela coisa chamada jornal. A informação não circulava como hoje, abundante no mundo digital. Tínhamos que contar com a nossa memória e com as enciclopédias. Por isso não podíamos perder nada. Uma outra chance demoraria a acontecer.

O filme levava uns dois anos para chegar a um canal da TV aberta. Quem nos “salvava” eram os filmes piratas. Devo a minha formação a eles.

Atualmente, um filme vem de todos os lados e formas. Como fazer para selecioná-los?

Claro que cada um tem as suas preferências, o que nos facilita bastante a escolha. Mas devemos assisti-los por um dever sacerdotal.

Pronto, chegamos à religião. 

Existe sempre, no coração do verdadeiro crítico de cinema, a fé de que veremos uma única cena que valerá por todo resto. E seremos os primeiros a dizer que vimos, como o primeiro passo em solo lunar.

Vivemos assim nesta condição permanentemente “crítica”, frustrados ao ouvir um nerd reverenciar um filme nepalês que não foi exibido comercialmente e disponível em alguns sites clandestinos com legendas em francês, feitas por um estudante de cinema na China.

É a nossa sina.

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