sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
PORTO DE VISTA

Salman Rushdie e a alegria da imaginação

A morte ronda os dois livros que o escritor publicou depois do atentado sofrido em 2022: “Faca - Meditações na Sequência de uma Tentativa de Homicídio”, de memórias, e “O Último Instante - Um Quinteto de Histórias”, de ficção. Mas quem vence no final é o amor.
WhatsApp

Cerca de três mil pessoas passaram recentemente por uma experiência inusitada no Porto (no norte de Portugal) para ver e ouvir um escritor de 79 anos. Experiência de segurança quase máxima. Precisaram submeter-se a detetores de metais. Despejaram o conteúdo de bolsas e mochilas sobre bancadas. Folhearam livros diante do olhar atento de seguranças, interessados em saber se alguma arma porventura escondia-se entre as páginas. Um livro como uma possível arma? Parece uma ideia tresloucada, mas faz lá o seu sentido, absurdo sentido, sendo o escritor em questão alguém que foi sentenciado à morte pelo regime fundamentalista do Irã por um romance que, na visão paranóica dos aiatolás, equivalia a uma bazuca apontada para a fé islâmica.

Salman Rushdie passou alguns anos de sua vida protegido pelo serviço secreto britânico. Mudava constantemente de casa e usava identidade falsa — inspirada nos nomes de dois outros escritores, o britânico de origem polonesa Joseph Conrad (1857-1924) e o russo Anton Tchekhov (1860-1904) — que tomou emprestada para o título de “Joseph Anton” (2012), extraordinário exercício memorialístico escrito na voz de Anton. Encurralado, Rushdie precisou enfrentar os percalços da fatwa (sentença de morte, com recompensa na ordem dos três milhões de euros) decretada pelo aiatolá Khomeini, em 1989, por conta da fúria despertada pelo romance “Os Versículos Satânicos”, publicado no ano anterior.

Mas a proteção policial e a clandestinidade foram suspensas há mais de 20 anos. Rushdie retomou a vida normal. Foi por causa da reconquistada tranquilidade , no entanto, que viria a sofrer um atentado em 12 de agosto de 2022, sexta-feira, às 10h45. Amarga ironia: ele havia sido convidado a dar uma palestra sobre a criação de espaços seguros, nos EUA, para escritores de outros lugares. Ninguém mais cogitava a possibilidade de um ataque a ele quando um jovem saltou da plateia para o palco do anfiteatro de Chautauqua (no Estado de Nova York) e o golpeou por diversas vezes — experiência sombria que levou a outro magistral exercício memorialístico, “Faca – Meditações na Sequência de uma Tentativa de Homicídio” (2024). Rushdie perdeu um olho e “a mão esquerda não funciona muito bem”.

Foi por conta desse outro temor, o de uma nova aparição-surpresa de um agressor sorrateiro agindo por sua própria conta e risco, mas talvez ainda sob a órbita vingativa da fatwa de 1989, que Rushdie esteve sempre cercado de seguranças no hotel onde se hospedou e enquanto circulou pelo Porto como convidado do festival Babell. Foi por conta da possibilidade de uma nova tentativa de assassinato que as cerca de três mil pessoas que assistiram ao seu encontro com o também escritor Alberto Manguel no Coliseu do Porto, em 28 de junho, sentiram-se como passageiros prestes a embarcar no aeroporto JFK de Nova York.  

Segurança quase máxima, cada espectador visto sob a lente dos procedimentos de inspeção como um possível assassino. No Porto? Sim, até mesmo nesta cidade de leitores cordiais, em que alguém certamente diria com polidez “peço desculpas” se por acaso decidisse endereçar a qualquer autor uma pergunta ou uma observação talvez incômoda. A cidade de eventos literários como o Babell (organizado pelo grupo que controla a célebre Livraria Lello, um dos pontos instagramáveis favoritos dos turistas que visitam a cidade), que trouxe Rushdie, e como a já tradicional Feira do Livro, evento anual que neste momento (e até 6 de setembro) ocupa os Jardins do Palácio de Cristal (onde, mais uma triste memória, foi realizada em 1934 a Primeira Exposição Colonial Portuguesa, em que 324 pessoas vindas de diferentes espaços coloniais foram exibidas como animais no zoológico — mas isso fica, e com certeza ficará, para outra ocasião neste espaço).

Ver e ouvir Rushdie, para todos os três mil leitores que nos deslocamos até o Coliseu do Porto, representou mais do que ver e ouvir um escritor que admiramos. Representou também uma forma de manifestação contra o ódio, e a favor de toda a literatura (por extensão, de todas as artes) como um marco civilizatório em uma era de barbaridades cotidianas. Uma comunhão entre leitores — muitos dos quais, é razoável supor, também escritores e escrevinhadores — para assinalar que éramos (somos), os ali reunidos, membros de uma fraternidade universal. Não carregamos armas escondidas em livros. Eles nos são caros, no sentido de queridos e importantes. Quantos de nós não pensamos, ao acompanhar o noticiário, que o mundo seria provavelmente um lugar melhor se os crápulas que o governam, em vez de descarregar testosterona em jogos políticos, económicos e religiosos de poder, sentassem todas as noites para ler antes de dormir? Se tivessem sido capazes de ler em seu período de formação?

Não por acaso, o convidado para conversar com Rushdie foi o argentino-canadense Manguel. Autor de diversos livros a respeito da cultura literária, tradutor, editor e bibliófilo, Manguel direcionou o encontro no Coliseu para a trilha da importância de manter viva a tradição da literatura em tempos turbulentos como os que vivemos. Em uma entrevista para Rui Tavares Guedes na revista “Visão”, Rushdie expandiu alguns dos comentários feitos na ocasião sobre o atual estado de coisas no planeta:

“Os três países nos quais passei a vida a pensar e a escrever (Índia, Reino Unido e EUA) estão em muito pior estado agora do que há dez anos. Mas não podemos desanimar-nos. Uma das coisas que se aprendem quando se estuda História é que as coisas podem mudar muito depressa, e em direções que não se conseguem prever. Se estivéssemos aqui sentados em julho de 1989 e eu lhe dissesse que a União Soviética não existiria no final desse ano, teria pensado que eu estava louco. Mas foi isso que aconteceu. Portanto, a mudança enorme e a alta velocidade é uma característica do mundo moderno. As coisas podem sempre mudar para melhor… ou para pior. Vamos esperar para ver. (…) Estes são os tempos em que é preciso lutar pela liberdade. Como é que se defende a liberdade? Defendendo-a, simplesmente. É só isso que se precisa fazer. Não há garantias. Defende-se e ponto. (…) Não basta desejar e ficar à espera da mudança, precisamos de dar o melhor de nós para permitir essa mudança. (…) E talvez não seja por acaso que a melhor literatura que se produz atualmente nos EUA seja aquela que vem das comunidades oprimidas. A literatura afro-americana é brilhante, neste momento. Há um sem-número de escritores negros realmente notáveis de ficção e poesia. E também de outras comunidades minoritárias, como os sino-americanos, os vietnamita-americanos etc. Portanto, acho que a escrita mais interessante está a vir desse lado, não tanto — e talvez não devesse dizer isto assim — de homens brancos americanos… O que acho é que se és negro na América, tens muito sobre o que escrever.”

Destaco também, na entrevista para a “Visão”, o estado em que se encontrava depois da tentativa de assassinato no anfiteatro de Chautauqua:

“No período imediatamente a seguir ao atentado, quando estava a recuperar, a ficção parecia algo distante. Não me surgia nada na cabeça, não tinha qualquer controlo sobre o que pensava ou não pensava em termos de ficção. E, claro, preocupei-me que a imaginação pudesse não voltar. Mas depois compreendi que a única maneira de ultrapassar o trauma que tinha sofrido era escrever sobre o ataque. Tinha de passar por isso, outra vez, a escrever. E, quase imediatamente a seguir a ter terminado de escrever essa memória, ainda antes de a publicar sob o título “Faca”, a ficção começou a aparecer outra vez. Sabe, foi como se mal tivesse fechado uma porta, imediatamente outra se abrisse. (…) E fiquei muito aliviado. Aliás, a primeira emoção foi de alívio, e depois de alegria. E acho que há uma espécie de qualidade de alegria nestas histórias que agora publiquei que tem algo a ver com a forma como me sentia a escrevê-las. (…) (A imaginação) simplesmente voltou. As histórias voltaram. A primeira que escrevi foi aquela que aparece agora no meio da coletânea, a história de fantasmas, com o título “Atrasado”. E quando estava a escrevê-la, senti-me imensamente feliz por conseguir estar outra vez a escrever ficção. De tal modo que, quando a terminei, tinha cerca de 80 páginas. E aí pensei que não sabia o que fazer com essa história. Era demasiado longa para ser um conto e demasiado curta para ser um romance. Lembro-me de que liguei para o meu agente literário e lhe disse: “Escrevi isto mas não sei como publicá-lo. Por isso, vou apenas pô-la de lado e ver o que acontece”. Felizmente, o que aconteceu foi que me lembrei de mais duas histórias com mais ou menos essa extensão. E então consegui ver um livro a ganhar forma.”

“Faca” — que deu origem ao documentário “Knife: The Attempted Murder of Salman Rushdie”, de Alex Gibney (vencedor do Oscar por “Um Táxi para a Escuridão”, de 2007), com data de lançamento prevista para setembro — reconstitui um embate inesperado com a morte, mas termina por se afirmar como história de amor. Rushdie começa pelo atentado, que descreve com base na memória e, depois, também recorrendo aos relatos de testemunhas, sobretudo os das pessoas que o socorreram no palco do anfiteatro — o livro é dedicado “aos homens e mulheres que me salvaram a vida”, o que inclui também os profissionais de saúde que o atenderam posteriormente:

“Nem sequer vi a faca, ou pelo menos não tenho memória dela. Não sei se era curta ou comprida, se era larga como uma faca de mato ou estreita como um estilete, serrilhada como uma faca de cortar pão, curva em forma de meia-lua ou um canivete de rapaz da rua, ou mesmo uma vulgar faca de trinchar roubada da cozinha da mãe. Não me importa. Era suficientemente funcional, aquela arma invisível, e fez o seu trabalho.” (A tradução da edição portuguesa, da Publicações Dom Quixote, é de J. Teixeira de Aguilar.)

Durante o processo de recuperação, o livro passa a ir e voltar no tempo. Dezenas de personagens se apresentam, mas ganham superior importância uma presença e uma ausência. A presença, fulgurante, é a de Eliza, como Rushdie se refere a ela — a romancista, poetisa e fotógrafa Rachel Eliza Griffiths, 47 anos, mulher do escritor desde 2021.“Faca” termina por se erguer como a história de amor entre os dois. E o amor, disse Rushdie por mais de uma vez em sua passagem pelo Porto, é “a coisa mais importante da vida”.

Salman Rushdie. Foto: Elena Ternovaja

A ausência, como se pode imaginar, é a do “candidato a assassino”: “Não quero usar o seu nome nesta narrativa. O meu Assaltante, o meu pretenso Assassino, o homem Asinino e Assacador de sei lá o quê à minha pessoa com o qual tive uma quase letal Associação… Dei por mim a pensar nele, talvez desculpavelmente, como um Asno. Todavia, para efeitos deste texto, referi-lo-ei mais decorosamente como “o A.”. Aquilo que lhe chamo na intimidade do lar é comigo. Este “A.” não cuidou de se informar sobre o homem que decidira matar. Segundo ele próprio reconheceu, leu escassamente duas páginas do que eu escrevi e viu um par de vídeo meus no YouTube, e não precisou de mais.”

Como em uma atitude de reciprocidade diplomática, Rushdie mantém-se no livro a uma distância sanitária de “A.” Não se interessa por saber quem é ou investigar seus motivos, como “A.” pouco se interessou pelo homem que procurou matar. Refere-se por vezes a ele, mas ocupa-se, digamos, de assuntos melhores: reflexões sobre a literatura, a arte e o mundo atual sob a ótica de alguém que se empenhou em simplesmente sobreviver para depois reaprender a andar, a comer, a conversar, a escrever e a encontrar pessoas queridas, da família e do círculo de amizades. É bem verdade que, mais para o final, Rushdie não resiste a tratar literariamente dessa ausência, e então “A.” surge, nos termos determinados pelo autor, já apropriado como personagem ficcional. A imaginação vence.

Pois é justamente a alegria da imaginação que escorre pelas páginas de “O Último Instante – Um Quinteto de Histórias” (também com tradução de J. Teixeira de Aguilar para a Dom Quixote, em Portugal). Sim, é da morte que se fala, o instante derradeiro de todos nós. Mas, como em uma vingança que só à literatura se permite, nenhuma das cinco histórias termina com a morte, bem ao contrário. O extraordinário fabulador de romances como “Os Filhos da Meia-Noite” (1981) e “Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites” (2015) retoma a sua verve sherazadiana ao combinar um olhar divertido e arguto para o mundo atual com um universo fantástico em que a vida não termina necessariamente com o último suspiro.

Dois homens da mesma idade envelhecem em apartamentos contíguos, transformando suas varandas em palco de duelos verbais cotidianos, em “No Sul”. É um conto breve, como “O Velho da Praça”, que oferece uma perturbadora parábola de sociedades nas quais as pessoas parecem não mais se entender porque, literalmente, lhes faltam palavras. As demais três histórias, mais longas, têm narrativas que poderiam ser expandidas para romances, mas que, nesse formato intermediário, quase novelas, mantêm a força da concisão ao mesmo tempo em que se espalham confortavelmente pelo livro como um convidado no sofá de casa a contar causos enquanto espera que lhe sirvam comes e bebes.

“A Música de Kahani” satiriza bilionários indianos (e, por extensão, muito ricos de todos os quadrantes) em um país devotado a trocar os nomes dos lugares (Rushdie continua a usar Bombaim — nome de origem portuguesa, derivado de “Bom Bahia” — para se referir a Mumbai). “Atrasado” lembra o horrendo tratamento a homossexuais no supostamente civilizado Reino Unido. E “Oklahoma” alimenta-se do inacabado romance “América”, de Franz Kafka, para mergulhar em uma espiral de desaparecimentos e de desaparecidos. O conjunto inebriante de histórias faz de “O Último Instante” um livro exemplar para se seguir a “Faca”: Rushdie está vivo, alegre e bem disposto. Sorte nossa.

NEWSLETTER EDITORIAL

Uma seleção criteriosa dos melhores ensaios, críticas e criações entregue semanalmente no seu e-mail.

NOTA EDITORIAL & ISENÇÃO DE CRIAÇÃO: Os textos, opiniões, ensaios e criações publicados nesta página são de responsabilidade exclusiva de seus respectivos autores, não refletindo necessariamente a opinião da Revista Lume. Saiba mais em nossa página de Isenção de Responsabilidade.
100%