sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
LITERATURA

Piscinas russas, Renata Belmonte

Campo de fascínio.
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Acompanho o projeto literário de Renata Belmonte desde Mundos de uma noite só (2020). Agora, com o lançamento de Piscinas Russas (2025), entendo melhor o que me interessa nesse percurso: a consistência de uma proposta intencional e sólida, que se expande a cada novo livro. Se em Mundos a memória já funcionava como principal material narrativo, articulada entre relatos de personagens, antigas observações e um manuscrito familiar, em Piscinas essa investigação ganha uma nova dimensão. Nele, conhecemos a história de Malena Matrice, uma lendária multiartista americana dos anos 1980. O enredo que parte de Mundos – mas não se limita a ele – ganha amplitude transgeracional, expandindo-se para investigar aquilo que atravessa uma família, seus idiomas e as muitas ficções que a constituem.

Capa do livro Piscinas Russas, Editora Tusquets.

É evidente que Renata não se interessa pela linearidade, confia na inteligência e na persistência do leitor. Sua escrita avança por ecos e aproximações, construindo uma arquitetura em que o não dito está no limiar de ser dito, o invisível no limite de ser visto, o não amável aponta na direção de ser amado e em que a mentira não aparece apenas como desvio da verdade, mas como uma estrutura capaz de organizar vidas inteiras. O destino da personagem Tereza é exemplar. A história de Aida e Thomas, respectivamente sogra e marido de Malena, idem. O romance parece perguntar até que ponto somos feitos dos fatos que vivemos ou das histórias que inventamos (e nas quais acreditamos) sobre eles.

Não é nem de longe um texto que oferece respostas fáceis. Tampouco busca a transparência. Exige entrega e o desconforto de perceber que nossas histórias pessoais nunca nos pertencem inteiramente. Isso se revela, inclusive, na própria linguagem, que ao mesmo tempo conduz e desorienta. Ainda assim, mesmo quando nos dispersamos em digressões e repetições, a leitura avança não tanto pelo desejo de saber “o que acontece”, mas pelo prazer de descobrir “como aquilo será dito”.

Dois aspectos chamam particularmente a atenção em Piscinas. O primeiro é a intersecção com as artes visuais. Malena também é fotógrafa, e Renata não apenas lhe atribui uma produção artística consistente, como confia no poder das imagens, que atravessam o romance como contraponto àquilo que a linguagem não consegue apreender inteiramente. O segundo é o caráter ensaístico do livro. É notável a capacidade que Renata tem de interromper a ação para produzir observações agudas sobre arte, memória, maternidade e pertencimento. Nem todas essas incursões produzem o mesmo efeito, entretanto. Quando as ideias emergem da matéria ficcional, ampliam a densidade do romance; quando aparecem sob a forma de citações ou referências mais literais, deslocam o leitor da experiência narrativa para a identificação das fontes intelectuais da autora.acontecia em torno de Brecht.

Renata Belmonte.

De muitas maneiras, fica claro que o maior mérito de Piscinas russas é sustentar seu campo de fascínio. Nem sempre avançamos porque compreendemos tudo; muitas vezes avançamos pela fruição da linguagem ou porque se torna interessante decifrar mais uma camada de mistério. O livro funciona quase como um romance de investigação, mas uma investigação afetiva e existencial. Como um romance pode nos escapar e, ao mesmo tempo, nos manter interessados? Piscinas russas não responde à pergunta, mas faz dela uma experiência de leitura.

Lido isoladamente, Piscinas já oferece matéria suficiente para debate. Lido como parte de uma obra em construção, revela a ambição de um projeto literário que aposta mais no aprofundamento do que na conclusão.

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