sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
ENSAIO

O clássico caso do rei George III do Reino Unido: as mil razões da loucura segundo um psicanalista

Um homem que viu o próprio diabo resfolegante, George III entendeu que, como ensina não o Fausto de Goethe, mas o de Nikolaus Lenau (que Franz Liszt usou para escrever sua espantosa Valsa Mefisto), se você cruzar com o diabo no meio da estrada, baixe a cabeça, seja modesto, ande com pés de seda, peça licença; e se desapareça.
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A figura de George III sempre exerceu certa curiosidade e desvelo de minha parte. Não, eu não assisti ao filme The Madness of King George (As loucuras do Rei George). Posso vir a assistir um dia, quando passar em mim o ranço ocasionado pelo fato de a rainha Charlotte, sua esposa, ter sido representada por Helen Mirren na película. Explico: eu AMO a Helen Mirren, mas a Rainha Charlotte era negra, e esse apagamento da indústria hollywoodiana et caterva é simplesmente imperdoável. Cansativo.

Além disso, este ensaio é justamente para, digamos, superar o fato de que um estereótipo de “loucura” não é, para um psicanalista como eu, um atestado de inutilidade ou disfuncionalidade social e pessoal. Então, Hollywood, com sua decantada tradição de reduzir fatos a fascículos, não quis retratar a pessoa, mas uma de suas características psíquicas dentre tantas outras de que dispunha.

Então se o que eu falar aqui ecoar (ou mesmo confrontar) com o apresentado no filme, só tenho uma coisa a dizer: pouco se me dá.

George III foi um rei com conhecidas doenças mentais. Hoje, provavelmente seria diagnosticado como psicótico e, mais especificamente, como esquizofrênico. Era o que podemos chamar doido de pedra, maluco de carteirinha ou, o mais fatal, louco que rasga dinheiro. Ainda assim, tornou-se um dos mais pindéricos monarcas, desde o arcaico rei Etelstano, da Corte de Saint James (que é o nome oficial do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte).

George III não caiu no gosto pop da monarquia britânica. Talvez reduzido a um diagnóstico de loucura, o Rei George III se viu retratado em aquarelas muito descoradas, em que o único traço de tinta mais forte sempre decaía repetitivamente sobre a sua “loucura”. Não foram endereçados a ele encômios, tampouco libelos difamatórios como o foram para Henrique VIII, Ricardo III, Elizabeth I, Victoria, Eduardo VII, George V, Eduardo VIII (o rei que abdicou), Elizabeth II e tantos outros déspotas da Grã-Bretanha.

A propósito, foi sob a cruz maltada de brilhantes do cetro de George III que a ilha da Grã-Bretanha (onde se encontra Inglaterra, País de Gales e Escócia) se uniu à ilha das Irlandas, tendo, portanto, apenas com ele, oficialmente, o primeiro déspota do verdadeiro Reino Unido, criado com o Ato de União, sob sua égide, no ano 1800. Foi ele quem, para consolidar o nascituro Reino, se casou com a monarca negra Sophie Charlotte von Mecklenburg, e teve uma das mais numerosas proles das legislaturas de Westminster, com preternaturais 15 filhos (que eu saiba, de vultos históricos, só o bonachão Johann Sebastian Bach ultrapassou essa cifra, com 20 filhos!).

Admito que assisti a alguns episódios da série da Netflix sobre a Rainha Charlotte, que, naturalmente, retratava, à sua maneira, o rei George III. No entanto, preciso igualmente confessar que os episódios eram enfadonhos e que me pareceu muito inverossímil a representação semiótica que se tentou atribuir ao monarca. Razão pela qual abdiquei da atenazante e fastidiosa produção fictícia do streaming televisivo.

Já mais aliciante e estimuladora, nas searas da realeza britânica, foi a série The Crown (A Coroa), que teve como escopo retratar, ficticiamente, o reinado longevo da lendária Rainha Elizabeth II. Obviamente a empreitada edulcorou-se com as tintas vaporosas da produção, subserviente aos próceres da dinastia de Arthur da Távola Redonda, inundada de propaganda a favor do império (e imperialismo) britânico na figura da sua descaroável monarca com “síndrome de rainha Victoria”, como se intitulou um dos episódios.

Já que, neste ensaio, me aventuro às bravuras de crítico de cinema e TV, devo registrar que o elenco de The Crown é indefectível, destacando-se, é claro, as três atrizes que dão vida às etapas cronológicas da rainha britânica – Claire Foy, Olivia Colman e Imelda Staunton –, porém com destaque ainda maior, a meu ver, para a atriz que representa a princesa Margaret em sua maturidade, a veterana Lesley Manville, por quem não senti nada menos de que paixão, e que protagoniza, a meu ver, uma das cenas mais icônicas e emocionantes da dilatada produção.

Aliás, já que se trata de um ensaio, gênero em que eu disponho de liberdade de ir por onde eu desejar, falarei um pouco mais da rainha Elizabeth II, para, depois, retornar ao rei George III, seu mil-avô.

A rainha, com seu conhecido sobrecenho malfazente (sim: a rainha tinha cara de poucos amigos, parecia estar quase sempre de mau-humor, injuriada e taciturna), acabou prefigurando-se como um verdadeiro símbolo, efígie da austereza, muito amiúde atribuída ao equilíbrio, à compostura, ao comedimento, à temperança, à circunspeção, predicados em tudo antônimos ao do nosso (vejam como já ganhei intimidade) rei George III, cujas excentricidades devolutas deixariam enrubescido um Pantagruel, criatura do folclore bretão que tinha como característica jogar sal na boca dos embriagados em torpor para fazê-los beber ainda e cada vez mais a fim de manter-lhes a ebriedade, o que muito o divertia. No folclore francês temos algo similar, que é o Scarbo, título de uma das peças mais desafiantes do piano, escrita por Ravel, que tenho em meu repertório pianístico e a quem homenageei (o Scarbo, não o Ravel) em capítulo de meu romance Os Arcanjos. No folclore brasileiro, comungo com Câmara Cascudo a ideia de que o Saci é o nosso Pantagruel (e o nosso Scarbo, acrescento); à sua moda, é claro.

Eu conheci a rainha Elizabeth II pessoalmente e estive com ela em duas ocasiões. Uma delas foi num recital meu, em que toquei com a amiga Sol Gabetta, vencedora, como eu, do Concurso Internacional Ciudad de Cordoba na nossa puerilidade: ela, no violoncelo; eu, no piano. A rainha estava na plateia, o que acrescentou adrenalina ao meu repertório que busquei fazer o mais civilizado possível, apenas com peças de câmara para piano e violoncelo de Chopin, César Franck, Bach, Schubert (é preciso dizer que tocamos um Ginastera e um Villa-Lobos bem bárbaros para enfatizar à realeza britânica que ali estavam dois autênticos filhos da América do Sul: Sol Gabetta e eu).

Findo o concerto, fomos recebidos num evento no palácio de Saint James, que é talvez a mais antiga propriedade da família Windsor ainda remanescente, remontando ao século XV e à dinastia Tudor. Aliás, como toda a gente sabe, o nome Windsor só foi adotado quando o vagalhão antigermânico varreu a Europa por causa de Hitler. O próprio sobrenome da família do príncipe Phillip, marido da Elizabeth II, foi traduzido literalmente (num tipo de tradução que nós, filólogos, conhecemos como decalque) de Battenberg para Mountbatten, que em português seria, do alemão ou do inglês, tanto faz, graças ao decalque, “Montanha Batten”. A família real da Bélgica, muito próxima à britânica, mudou de Sachsen-Coburg-Gotha para o mero toponímico “De Belgique” ou, em flamengo, “Van Bëlgien”. Coitada da neerlandesa, virou “Orange”! Até hoje não se sabe ao certo quem fez essa sacanagem com a família de Nassau.

É preciso, contudo, esclarecer que os belgas, de quem sou descendente, a propósito, adotaram uma espécie de antigermanismo de Pirro, pois, se em superfície eram contra a Alemanha, em profundidade mantiveram a mesmíssima bandeira germânica de listras preta, vermelha e dourada, diferençando-se apenas pelo fato de serem horizontais, e não verticais. Outro segredo de Polichinelo do “antigermanismo” belga (repararam que já pus o adjetivo entre aspas?) está no fato de que a parte sudeste da Bélgica compartilha território em comum com a Alemanha, nas imediações de Saarbrücken, cidade que publicou 5 livros meus em alemão (e o alemão, ao lado do francês da Valônia e do flamengo de Flandres, é a terceira língua oficial da Bélgica). Por fim, até hoje, na Bélgica, que não possui exército, na época de se servir ao alistamento militar, há um acordo de cavalheiros que faz com que os belgas se mudem por um ano para a Alemanha para fazerem seus exercícios marciais na Corte de Potsdam (com a licença da ironia). E nada disso sequer foi arranhado no pós-1945.

Enfim, voltando à rainha Elizabeth (a Segunda), Sol Gabetta e eu fomos recebidos pela moradora do local (o palácio de Windsor), a princesa Alexandra de Kent e uma desconcertante senhora curvada humilde que até hoje não sei quem era, mas que habita a parte fantasmagórica e nebulosa do meu inconsciente.

No trajeto para lá, um diplomata inglês, cujo nome não direi, nos avisou, em tom de pilhéria, que há uma lei dinástica que impede que qualquer pessoa seja presa dentro de um castelo real no Reino Unido; avisou, também, que é proibido negar bebida alcóolica, seja na quantidade que for, a qualquer pessoa que esteja igualmente dentro das cercanias e domínios palacianos. Até hoje me pergunto qual foi o efeito perlocutórioesperado por esse diplomata… Ou seja: por que será que ele nos deu essas duas informações? Enfim, deixei passar e joguei o panegírico na conta do tão repisado quanto inverídico e fictício “bom-humor” inglês. E la na nave va.

Sei que gostei da lei alusiva às bebidas alcóolicas, embora eu hoje, veja só!, nem beba mais uma única gota de álcool, porque repudio o spiritus. Mas, na época, para ver se a lei aludida era real (com as duas denotações do adjetivo), lembro me de ter-me afogado, como no conto de Andersen, em libidinosas duas meias taças de champanhe, uma das maiores proezas etílicas que já cometi até hoje.

Esclareça-se de antemão o seguinte: não, o evento não era organizado em nossa homenagem. Não temos todo esse cacife. Na verdade, o que ocorreu foi que tocamos para uma louvação ao aniversário da rainha Silvia Sommerlath, da Suécia, a qual foi convidada para o evento. Eu e a Sol, então, fomos ao convescote imperial na aba da rainha do ABBA, que, como se sabe, tem origens brasileiras do interior de São Paulo. Mas fomos!

Preciso registrar que o que me impressionou demais foi um detalhe na rainha Elizabeth II: a sua polidez úbere, ubíqua, onipresente. Ela se dirigia a todas as pessoas, incluindo os plebeus como eu e mesmo os serviçais que empunhavam bandejas, com “por favor”, “com licença”, “obrigada”, “desculpe”, “quer mais?”, “está bom?”, “would you”, “may I”, “shall we”, “has she”, “Let us”… etc. etc. etc.

Fiquei boquiaberto ao presenciar aquela senhora (que de perto perdia muito do halo feérico que eu lhe atribuía em minha imaginação, e que me pareceu uma modesta dona de casa com uma tiara de plástico de carnaval), que, afinal, era então considerada a mulher mais rica do mundo – com uma realíssima coroa de esmeraldas do Congo belga que deve ter matado muita gente para chegar àqueles encanecidos cachos senhoris –, esbaldar gentileza gratuita e espontânea, pelos poros, quando tanta gente que tem o rei na barriga, e não no alto da cabeça, sequer sabe o significado da palavra “obrigado”. Literalmente.

Já o príncipe Phillip von Battenberg… sorry, Philipp Mountbatten… eu achei um tanto grosseirão, mas nada discrepante da imagem dos ogros e elfos das Highlands, sobretudo ao lembrar que sua ascendência é grega e russa, isto é, mais afeita às harpias e russalkas do que aos dwarves, o que em tudo reflete até a hipocrisia que verniz demais também representa, vá lá!

Aquilo parecia um cenário de filme. Tantas mulheres com tiaras e coroas que retiniam diamantes do tamanho de tomates (devo estar exagerando) e feriam as nossas pupilas com ofuscá-las impiedosamente, realmente um império precisa se manter à base de aparências e de anacolutos como este. Se for muito linear e seguir a lógica e a sintaxe, cai, desmorona, despenca. Seja o império romano, o império egípcio, o império sumério, o império hebreu, o império grego, o império asteca, o império otomano, o império mongol, o império estadunidense, o império francês ou qualquer outro. Afinal, impérios são contra a natureza humana; e pompas e circunstâncias, exceto as de Elgar, nunca me impressionaram de fato. Então, valendo-me da informação do diplomata inglês sobre a proibição de se negar bebida alcóolica no imo de um palácio britânico da família real, e seguindo o conselho de Pantagruel, sem precisar encharcar minha boca com sal, lembro-me de ver gente com Estrelas d´alva, Luas e Sóis no topo da cabeça bebendo e se dilapidando como andrajosos andarilhos erráticos esbaldando-se como não houvesse amanhã.

A segunda ocasião em que encontrei a rainha Elizabeth da Inglaterra tem a ver com a morte da grande pianista franco-brasileira Magdalena Tagliaferro e minha amada professora de Piano Myrian Dauelsberg, a grande mecenas da música clássica no Brasil atualmente, já há mais de oito décadas. Assunto para ensaio todo dela, que escreverei em breve, já que sou um escritor incurável, uma vez que para ser escritor só é necessário um fato: sentir cócegas nos dedos e não querer parar de escrever nunca. Todo o resto são bazófias, fanfarrices.

Voltando a George III e suas loucuras, ele, apesar disso, foi o rei que, postumamente, mudou a corte para o emblemático Palácio de Buckingham. Ocorre que ele o havia ofertado como presente à sua esposa, a já citada rainha Charlotte, para que ela apenas passasse o inverno no local, que era considerado de bons ares. Depois de sua morte, entretanto, a residência oficial passou a ser lá. Antes dele, creio que a corte repousasse exatamente no palácio de Saint James, onde ocorreu a baderna real e diamantina a que aludi.

Sob o cetro de George III, com toda a sua insanidade, a Inglaterra conheceu a primeira onda de revoluções industriais, tendo presenciado a invenção do próprio trem, verdadeiro símbolo nacional do imperialismo britânico, pelo engenheiro Richard Trevitchick em 1804. George III governou até 1820.

Domenico de Masi, um amigo muito doce que tive, polímata italiano tão loquaz quanto Umberto Eco (que também conheci quando dei um curso de seis meses na Università Sapienza), da mais fina estirpe de Florença, nossa terceira Atenas, fala sobre este mesmo Richard em capítulo de obra sua, que ele intitula “Diabo resfolegante”, nome da primeira máquina humana que se move sem tração de cavalos ou outros animais, o puffing devil, de 1801, também criada pela mente de Trevithick, o mesmo inventor do trem. Diz De Masi: “‘O vapor é o primeiro exemplo de Deus que se submete ao homem’, ousará dizer, laicamente blasfemo, James Watt num ímpeto de consciente orgulho pelo alcance de suas invenções”.

O famoso Watt (aqui mencionado por Masi), cujo nome é a unidade de medida do Sistema Internacional, explicita o desejo que a ciência possui de “substituir” Deus (ou o deus dogmático da Idade Média e de seus desdobramentos protestantes).

Masi prossegue: “Poderosa e irrefreável, a locomotiva eleva-se logo como símbolo do luminoso progresso humano. O poeta italiano Giosuè Carducci irá assumi-la como positiva manifestação satânica, emblema moderno da rebelião do homem contra Deus. ‘Um belo e horrível / monstro se lança, / corre os oceanos / corre a terra: / coruscante e fúmido, / como os vulcões, / os montes transpõe, / devora as planícies’, lê- se em seu ‘Hino a Satanás’ (1863), no qual o demônio é visto como encarnação da força vingadora da razão contra a religião, como princípio, matéria, espírito, sentido do ser, capaz de ‘revelar os tempos novos’ (‘Saúde, oh Satanás, / oh rebelião, / oh força vingadora / da razão!’)”.

Preciso falar mais dessa onda da revolução industrial que ocorreu em grande medida por causa dos atos do (louco) rei George III. Isso porque as revoluções industriais moldaram um mundo em que vivemos e que, numa demolição, a “lição do demo”, está se desfazendo diante de nossos olhos.

Vere Gordon Childe diz que as três revoluções que moldaram o mundo moderno foram a revolução neolítica (ele era um filólogo e, portanto, arqueólogo de mão cheia, haja vista sua façanha em Skara Brae), a revolução urbana e a revolução industrial. Vejam que blasfêmia! Esquecer-se das revoluções francesa, russa, haitiana, cubana, malês… Será que as únicas três revoluções que “desenharam” nossa civilização (na respeitável, porém duvidosa, asserção de Childe) foram aquelas que conseguiriam oprimir, reprimir, deprimir, comprimir, imprimir e exprimir medo e recalcamento nos indivíduos e nas coletividades?

Desculpe-me, Childe, mas Freud e Marcuse têm razão: a civilização sem Eros é uma farsa que o carnaval já desmascarou há milênios, desde as Saturnálias gregas, como lembra Bakhtin. E olhem que Childe é um antropólogo de vertente tendendo a Marx, e não a Weber ou Durkheim. Se bem que Marx também escreveu sua obra Das Kapital baseada prioritariamente na… revolução industrial inglesa., diferentemente de Weber que buscou na “ética protestante” o “espírito do capitalismo’ e de Durkheim, que olhou as sociedades arcaicas para ver o contraste entre as “solidariedades” mecânica e orgânica. Você venceu, Childe!

A extensíssima obra-prima de Gurdjieff, com o longo título Relatos de Belzebu a seu neto: Crítica objetivamente imparcial da vida dos homens: do todo e de tudo: primeira série, um dos livros mais importantes de todos os tempos (presente inclusive no pequeno e simbólico Index de Seymour-Smith, em Oxford e em Cambridge), é em grande parte uma alegoria da voz de um tipo dogmático de ciência, encarnado por Belzebu, que conta a seu neto, Hassin, em sua nave, Karnak, toda a saga humana e os modos como o ser humano vai se estagnando e se entregando às neuroses e normoses mecanicamente e industrialmente desde o berço da Terra, pois, na metáfora, Belzebu conhece o Planeta desde antes mesmo de seu nascimento.

Um exemplo é o capítulo 6 da obra de Gurdjieff, capítulo intitulado Perpetuum mobile, eco das palavras de Masi e do poeta Carducci há pouco lidas: “Espere… espere… interrompeu Belzebu. Isto que você acaba de dizer [Hassin falava das maravilhas das naves contemporâneas] corresponde exatamente à ideia quimérica à qual os estranhos seres tri-cerebrais [modo como Belzebu se refere aos seres humanos] que povoam o planeta Terra deram seu nome de ‘perpetuum mobile’, e que em certa época tornou ‘loucos’ um tão grande número deles – quando não os fez perecer. [….] Um belo dia veio à mente de alguém, nesse desafortunado planeta, a ideia ‘insensata’ – segundo a expressão deles – de que era possível inventar um ‘mecanismo’ que trabalharia continuamente, sem exigir nenhum aporte de matéria exterior. [….] E esta ideia teve um tal sucesso que quase todos os originais desse singular planeta se puseram a pensar nela para tentar realizar essa ‘maravilha’. [….] Quantos deles sacrificaram então a esta ideia quimérica todos os bens materiais e espirituais que haviam adquirido com grande dificuldade anteriormente!”

Tudo isso foi o Rei George III o primeiro a testemunhar. E ocasionar.

Não bastasse isso, foi sob seu reino que a Revolução Francesa de 1789 acabou com o ancien régime em mais da metade da Europa. Guilhotinas que não parariam nem mesmo após a Revolução Russa, de 1917 – que, aliás, só obteve êxito em grande parte por causa da recusa de um dos netos de George III, o rei George V, e de sua esposa, a rainha Mary de Teck, que se recusaram a abrigar em solo britânico seus primos, o czar Nicolau e a czarina Alexandra, entregando-os de bandeja para que o plano dos bolcheviques se consolidasse. Viram só? Nem todos os monarcas britânicos foram tão malfazejos à humanidade.

E, com todos esses fatos presentes e até futuros, a coroa de George III, o louco, resistiu.

Sim, foi ele, um louco, que venceu Napoleão, nos campos de Waterloo, na minha ancestral Bélgica, em que o general da Córsega sucumbiu sob o florim do Duque de Wellington. Aliás, foi George III quem escolheu o Lord Canning, e não o plenipotenciário Duque de Wellington, para ser o primeiro Viceroy das Índias, prenunciando o que viria a ser o Raj Britânico, talvez a forma mais primitiva de imperialismo em nível global que experimentamos (e cujos frutos sentimos amargar até hoje).

Não foi coincidência que a geografia tenha surgido na Alemanha em período próximo, sob a pena de Humboldt e de Ritter (ídolos de nosso grande geógrafo, filólogo e germanista Manuel Said Ali Ida), para criar uma ciência da terra que permitisse averiguar-se o melhor conjunto de táticas para a própria Alemanha vir a tornar-se o Império Alemão.

Se ganhou a Índia, George III perdeu sua colônia mais portentosa: os Estados Unidos da América. Eu diria, discordando de Hobsbawn, que George foi extremamente sábio ao abrir mão da colônia norte-ocidental da América. Abrir mão dos Estados Unidos não foi nem de longe uma “derrota” ou menos ainda uma “loucura” do governo de George III, mas uma vitória muito maior do que vencer Napoleão. Prova disso é que a França, justamente por querer ajudar as revoluções estadunidenses do século XVIII, como todos sabem, asfixiou e estrangulou o povo, e acabou criando as condições ideais para a Revolução Francesa. Os Estados Unidos nasceram graças aos cadafalsos e cadáveres da França.

Moral da História: enquanto a França apoiou os Estados Unidos, e seus reis foram, por essa razão, guilhotinados, a Inglaterra deixou para lá a colônia ianque e, com isso, salvaguardou sua coroa.

Sabedoria do louco George III: não se junte por muito tempo com os Estados Unidos; muito menos tente ajudá-los. Assim como São Bento falou a respeito do diabo, do mesmo modo age o país que nem nome tem (São Bento ensina em uma de suas regras: nunca faça nada pelo diabo, nem de bom, nem de mau, pois ele sempre, independentemente do que você fizer, volta para se vingar; é da sua natureza).

Um homem que viu o próprio diabo resfolegante (o trem ou o puffing devil, de Trevithick, é bom lembrar), George III entendeu que, como ensina não o Fausto de Goethe, mas o de Nikolaus Lenau (que Franz Liszt usou para escrever sua espantosa Valsa Mefisto), se você cruzar com o diabo no meio da estrada, baixe a cabeça, seja modesto, ande com pés de seda, peça licença; e se desapareça.

Nosso Riobaldo dá lições à sorrelfa de como lidar com o diabo caso este lhe cruze o caminho. Não sei, no fundo, se o conselho de Riobaldo foi vantajoso para ele próprio, pois o que nosso Grande sertão mostra é um homem nitidamente com desejos homossexuais ou pansexuais (Diadorim, por quem ele se apaixonou, era um jagunço, um homem trans) que se reprimiu e mostrou às gerações vindouras o que Freud sempre ensinou: o desejo não pode ser sufocado, pois escapa como um maremoto; e afoga, se você não souber nadar – e MUITO BEM!

Eu desconfio, com fundamentos, que Freud (vamos lá, preciso ser coerente e finalmente pôr a psicanálise em tela para salvar o título deste ensaio) se inspirou na figura de George III para (ajudar a) entender que os loucos, ao contrário dos pintados na
radição medieval nas mil e uma “Naus dos insensatos” (de Hieronymus Bosch a Erasmo de Rotterdam), são pessoas capazes de exercer grandes feitos, uma vez que mantenham em dia as relações saudáveis com seus próprios desejos e suas solicitações. Tivesse Freud lido as veredas do nosso Grande sertão rosiano, aprenderia mais ainda com o rio que debalde se recalcou em Riobaldo e refutou o seu grande amor.

Mas isso pode ficar para um outro ensaio, em que podemos falar das pessoas frustradas e em desalinho com seus desejos inconscientes, constatando que é isso, e não a dita loucura, o que torna uma pessoa, realmente, perturbada e desequilibrada, malsinada à insânia e ao insosso. Porque, como lembra Maslow, Freud descobriu os demônios em nós: resta a nós, agora, redescobrir os nossos anjos. E uni-los em casamento fértil, salvaguardando nosso psiquismo saudável e brilhante – completaria Jung.

George III, um (im)perfeito anjo-demônio que a história nos deu como fato e como ensaio de um mundo que não pode muita coisa, mas que consegue tudo o que deseja.

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