Nascido Nauro Diniz Machado em São Luís, Maranhão, em 2 de agosto de 1935, o poeta dedicou sua vida à literatura, deixando um legado poético vasto e aclamado. Nauro Machado faleceu em 28 de novembro de 2015, aos 80 anos, na mesma cidade que o viu nascer e que tanto inspirou sua obra. Ao longo de sua carreira, foi agraciado com diversos reconhecimentos, como o Prêmio Sousândrade (1958, 1964), o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte(1982), o XXII Concurso Literário e Artístico “Cidade de São Luís” (1997) e o Prêmio ABL de Poesia (1999), consolidando-o como um dos grandes nomes da poesia brasileira. Entre suas contribuições mais notáveis, destaca-se “O Cavalo de Tróia” (1982), considerado sua magnum opus, além de outras obras importantes como “O calcanhar do humano”, “A rosa blindada” e “Esôfago Terminal”.
O GLOBO DA MORTE (II)
Tudo me fala
desde o começo,
para um final
que recomeça.
– Mas até quando
hei de fazê-lo,
a esse que é dano
e desespero?

AINDA OS GRILHÕES
De novo a poesia:
o sopro que me vem
do mesmo sol perene
a me apagar humano.
A MALDIÇÃO (II)
Se a treva vive,
por que, ao eu nascer,
não me arrancaram
dos olhos cegos
com que ainda vejo?
A sombra sonha.
A sombra que anda
ao meio-dia
da escuridão
que me há de vir.
BLECAUTE
Hoje me findo
recém-nascido:
estou feliz
na noite infinda.
Para morrer
meu nascimento,
tudo é começo
na escuridão.
A UNIDADE
Se exceto pelo ar
não dorme ninguém
a jazer por dentro,
infinito é o verbo
fruto de um vocábulo
inarticulado,
como o desse nome
sem dizer do todo
que lhe move os lábios.
PIQUENIQUE
Insaciado é o osso
no olho do esqueleto,
em vértebras velhas
e sobre o chão pretas,
numa bicicleta
pedalando o eterno.
nada mais lhe resta
das mãos no etéreo.
TUDO OU NADA
Féretro do homem
a noite cai
sobre os meus olhos.
Cabeça erguida
num outro inferno,
a cruz suástica
é o Cristo inverso,
no meu Calvário
sem purgatório.
A CEIA ETERNA
Naquilo cujo
verbo a sujar,
no próprio sujo
faz-se limpar,
como quem senta
em outro reto,
que não alimenta
nenhum dejeto,
estou limpando
meu digestivo,
me alimentando
de um verbo vivo:
não à flor de um vaso
de assento plástico,
servindo um prato
cozido em asco,
nesse intestino
que expele o resto,
como um granfino
amando o infecto.
Meu verbo é eterno
em São Luís,
por ser do inferno
com que me fiz.
Caí no seu poço:
ele é tão fundo,
que além só ouço
o fim do mundo.
Ele está adiante
de tudo ali:
meu inferno, ó Dante,
não acaba aqui.
