Terminei a última aula do dia e fui eu mesmo ao supermercado como forma de me mover um pouco após oito horas sentado, recomendação médica quase nunca seguida para as agora constantes dores de coluna, depois como tática meio diversionista quanto ao ensaio cujo prazo final se aproximava e, por último, para comprar carne moída. Era por volta das 19h quando subi um lance de escadas à direita e passei pela loja recém-aberta, a Dna do MonXtro. Exceto pela moça maromba atrás do caixa, ninguém. Não vai sobreviver, pensei, profetizando o óbvio ou expressando um desejo oculto de falência. Dois passos adiante, no coração do complexo habitacional e alimentício “Viva Real”, as pessoas circulavam pela área de convivência em frente ao supermercado Angeloni, o grande salão envidraçado do térreo, passeando com cachorros entre vasos de coqueiro ou falando ao celular nos bancos de concreto. Por ser um desses edifícios all in one, estúdios de 50 metros quadrados para estudantes classe média-alta da UFSC ou profissionais liberais, nunca consigo, exceto pelas roupas de escritório ou pantufas de unicórnio, distinguir os passantes dos moradores, sobretudo jovens médicos exaustos estagiando no UHC ou programadores com mechas azuis. Alguns escolhiam algo para a janta ou para o café. Outras matavam o tempo depois do trabalho. Todos perdidos entre prateleiras sobre as quais se equilibram destinos em pacotinhos. Como fingimos que precisamos de algo ao passear ou fingimos passear quando precisamos de algo — e eu não saberia nunca dizer a qual desses grupos pertenço — de novo me peguei adivinhando a vida dos outros nas sacolinhas de compras de quem aguardava o Uber. É por existirem pessoas como eu que imagino cestinhas e carrinhos fechados, cada qual com seu capô protegendo a intimidade dos produtos.

Não me lembro bem, mas era criança quando peguei essa mania. Começou sem motivo. Um belo dia pesquei o sachê para gatos de um carrinho e, com o coração acelerado, escondi no meio das nossas compras. Sem esperança que meu pai me deixasse ter um gato, ao menos não nessa existência terrena, eu queria ao menos sentir o gostinho, provar a fantasia da existência alternativa. Duas semanas antes do furto cênico, o meu cachorro tinha sido — ainda que o amasse muito — esportivamente trocado por expectativas de popularidade com os meninos do bairro e um brilhante futuro na NBA. Graças à minha nova cesta de basquete, esporte em que eu me destacava um grau acima da nulidade, o sucesso sem dúvida viria. Levado para viver em outra cidade, meu pai instalou, como parte do acordo pré-estabelecido, a cesta no mesmo dia que meu cachorro latiu pela última vez, antes que a velha Pampa enferrujada do seu novo dono arrancasse. Quando chegamos do supermercado tudo escalou depressa. Sem entender como aquele sachê roxo sabor salmão veio parar entre o presunto e a esponja de lavar louças, minha mãe fez meu pai jurar que não tinha outra família, coisa que ele fez, porém sorrindo ironicamente, o que lhe valeu cinco dias de reclusão no sofá e um mês de trabalhos forçados esfregando telhas e caixas de gordura pela incapacidade arrogante de entender uma mísera piada. Poucos dias depois, meus amigos — os dois de sempre daquele bairro rico que sabe-se lá por que simpatizavam com o menino da casinha laranja — se despediram de mim após uma tarde de dribles desajeitados e cestas feitas pela mão invisível do acaso. Em seguida me pendurei no aro e fiz força até arrancá-lo. Depois, me deitei no concreto morno e aguardei, com o círculo da aliança traída sobre o peito, até anoitecer.
Ao levar o lixo a história se repete: quem teria bebido aquele tinto espanhol até o fim em plena segunda-feira e — o mais importante — por quê? No supermercado, porém, se espero o suficiente posso ligar o produto à imagem da pessoa; posso traçar uma sintomatologia mais completa portanto, o que não seria possível, não sem me tornar um maníaco, quanto ao lixo. O grau de excitação também é outro: o momento da escolha, e não o arrependimento plastificado que resta dela. Nada de necessariamente essencial se expressa nas aparências, o que não me impede de ter a impressão, ou o sonho de uma impressão, de que em algum nível sutil demais para ser notado há um segredo escondido no bolso da jaqueta que alguém escolhe vestir apesar da moda. Como a chapeuzinho vermelho pós-punk com quem cruzei sábado passado: cabelo joãozinho; sombra verde-limão; resiliência em itálico na clavícula; moletom em vinil vermelho. Na mesmíssima cestinha de compras se roçavam o iogurte natural e a linguiça Blumenau. Nada nem ninguém a impediria de ser, hoje, uma tradwife descolada escolhendo o jantar do lobo-mau.
Enquanto uma raça hoje meio extinta, o poodle com colar elizabetano, me olhava mudo semelhante a uma parabólica aposentada, pensei que um início possível para o ensaio seria tematizar a irregularidade nas aparências. Tematizar o abismo e mesmo a total escuridão que separa os modos de vida explícitos do desejo mais profundo e autêntico — desejo agora tão bem escondido que não se revela para ninguém. Antes de entrar no supermercado eu me sentei próximo ao poodle e fiz as medições de praxe sobre a coluna: grau de enrijecimento; nível de dor; se passaria sem analgésicos por mais um dia; e quanto tempo conseguiria me manter longe do bisturi. Ao lado da lojinha de celulares, fechada àquela hora, o obscuro objeto de desejo: a tabacaria. O efeito da nicotina na hidratação dos discos intravertebrais é infelizmente conhecido. Desviei o olhar para o poodle, que me encarou de volta, quase falando, engaiolado no silêncio do seu ganido arisco. Com a comunicação borrada pela inconsistência da linguagem, ele me olhava triste como alguém extremamente tímido falando bobagens por não conseguir revelar a riqueza da sua interioridade, adivinhada apenas no olhar ou no sorriso por quem tem a generosidade de reparar nessas coisas. Pensei que o texto seria possível desde que se mantivesse como ensaio sério, analítico, e não literário. Quando se quer um carro de luxo para provar algo para si mesmo, por amor desprezado ou questões edipianas ou fálicas, a literatura tem ainda alguma chance. Quando querem um carro de luxo porque querem um carro de luxo, a literatura se torna redundante como o mundo. A longa marcha da história humana — pensei quase roxo pela altura rarefeita da frase — se reduz ao esforço para tornar redundante o humano. Sonhos metálicos de informação como gênese para o novo deus morto: a indiferença de um mundo elétrico total. Enquanto seguia em direção à porta do supermercado, o poodle me acompanhava com o olhar captando minhas vibrações, partículas banais em movimento uniformemente variado.

A mistura de referências — pensei enquanto andava — na qual fascistas brasileiros aparecem tatuados com dragões bigodudos da Yakusa impediria mesmo alguém de escrever o desejo dos outros? O inconfessável, o invisível, o sutil e o alusivo… O próprio inconfessável por todos os lados confessado: a exatidão sem sombra de tudo que se encontra simplesmente disposto e entregue. Daí a infantilidade arrogante de quase tudo em matéria de literatura hoje. Se ainda existisse uma Arúspice perdida nesse século, das que faziam adivinhações em vísceras de aves, vísceras quentes, ela teria de se contentar, como eu, com frangos ocos de freezer. Ouviria ela outra coisa além da própria voz soprada no vácuo?
A porta automática se abriu num estalo e luzes ajustadas me acolheram. Mesmo no ângulo entre a porta de entrada e as escadas rolantes, parte mais escura do espaço, havia claridade suficiente para que um médico fizesse uma cesariana de emergência. Como num sonho, mal cheguei no setor de legumes e já notei a leveza no ar. A quietude meio Zen apaziguando meu pensamento, que desacelerou como um carrinho distraidamente abandonado por uma criança, encostando por inércia ao lado das bananas orgânicas. Tenho essa sensação de ordem absoluta ao entrar nesses mercados caros. Sendo mínima a diferença na continuidade doméstica, a desconexão com exterior é, no entanto, imensa. A quantidade de coisas disponíveis ultrapassa as minhas necessidades, incluindo as inexistentes. Deslizo solitário do mundo de coerção material à plenitude incorpórea. A experiência é uterina. O tempo se suspende e a rua e a sujeira da rua ficam lá fora. Excluídos daquela atmosfera amena e controlada, trezentos mil anos de penúria e privação viram lendas de uma espécie pré-humana — talvez venha daí a crença cronologicamente impossível de que homens e dinossauros viveram sob o mesmo céu estrelado. Existo no extremo da história, no fim do fim; e todos os combates aconteceram apenas para acabar nesses melões de redinha, criteriosamente suculentos, sem erro ou surpresa, ou nessas tâmaras imensas brilhando na promoção, para sempre substituíveis, sem origem nem passado.

Antes não suportava supermercados e já entrava querendo sair. Agarrava os produtos como um soldado em missão seguindo à risca a lista de compras. Assim que terminava, saía em busca do caixa mais vazio, e sentia minha vida escoando, minutos transformados em séculos de encarnações desperdiçadas à deriva, se alguém enguiçasse na minha frente ou quisesse “voltar bem rapidinho” para pegar algo. Quando passei a suportar e, depois, a amar supermercados, aqueles passeios às margens frescas de quiosques iluminados, habitat sereno inclusive de carnes exóticas que nunca vou comer, como filé de avestruz, se tornaram os mais apropriados para o início de um texto, sobretudo desses com pretensões literárias. A escrita veio tempos depois da caça, e sem dúvida como mero prolongamento desta. A ideia não é nova, mas imagino se encontrar aí o elo perdido: o excedente alimentar que deslocou a fome, a espiritualizou. Um dia o homem paleolítico torceu o tornozelo e não foi caçar com o bando. Bem alimentado e sem nada melhor para fazer, ele pegou a ponta carbonizada de um fêmur e, em meio a cinzas e restos secos de sangue, começou a raspar o chão, as paredes ao redor. Linhas então se entrelaçaram formando padrões e, sem motivo, ele gostou muito de ter conservado seus gestos: em pouco tempo, diversos círculos surgiram ao redor de si.
Peguei as tâmaras, dei uma olhada nas verduras e continuei. A ideia era um ensaio sobre leituras e filmes. Um ensaio de verdade, daqueles pessoais no qual o eu se encontra existencialmente implicado na matéria abordada. Quando sugeri a Frederico Machado esse “formato” — pensava ao conferir a quantidade de farinha integral e de conservantes comparando inutilmente diferentes marcas de pães — fingi não perceber que jamais escrevi algo assim na vida. Na verdade, o que me atraía era a ideia de escrever, de ser alguém capaz de escrever algo assim. Por isso tinha falado na mensagem que, caso ele achasse bacana a proposta, eu comentaria, no próximo número da revista, certas relações — sem saber quais — entre o documentário Tardes de solidão, de Albert Serra, e um livro, A potência do pensativo, de François Jullien. À procura desse suposto ponto de vista pessoal no ensaio, que deveria existir no texto, o cruzamento sugerido não me parecia totalmente gratuito, mesmo que o toque de gratuidade talvez fosse o elemento “pessoal”.
Andando pelos corredores iluminados do supermercado, a ideia foi me parecendo cada hora mais ridícula. Ainda assim, as duas coisas pareciam se entrelaçar. O jovem toureiro do documentário, Andres Roca Rey, queixo apoiado na borda da plaza de toros, a arena, olhar fora de campo para o espectador, e a literatura. Andres me pareceu uma figura estranhamente pensativa, e Jullien definia nesses termos a literatura: o pensativo do pensamento. Ao contrário da filosofia, que começa pelos princípios, a literatura acontece, nos diz Jullien, no pensamento do depois, efeito alusivo indeterminado. O documentário de Serra mostrava a absorção do toureiro, o belo duendesádico de trajes delicadíssimos, bordados à mão no limite do excesso, meias e sapatilhas de boneca. Eram ornamentos de um pesadelo rococó para a dança solitária do herói que, pesando um décimo do monstro, o sacrificaria como homenagem ao pensamento, à solidão do pensamento… Difícil uma ideia mais estúpida, pensei ao pegar uma bonita embalagem de pão cujo rótulo me prometia farinha integral moída em moinhos de pedra, algo que soava anacronicamente rústico, analógico e espanhol.
Retardava minha chegada ao açougue pensando no toureiro. Resisti a pegar um salame ou outro embutido e segui em frente refletido nos vidros molhados. Primeiro teria de encaixar uma coisa na outra escondendo a gratuidade da partida, a vontade de escrever um texto, sem necessidade do objeto ou do tema. Como era a primeira cena do documentário? Tinha o touro, claro, e uma música; ou era a própria respiração do touro à noite, sozinho como estaria, depois, o toureiro? Espelhamento formal entre touro e toureiro? Assistiria de novo para me lembrar. Ao escrever a performance intelectual do eu na página jamais nos esquecemos das coisas, pensei, e ninguém se torna tão espontaneamente genial quanto na décima revisão. Algumas coisas do documentário eu tinha certeza de me lembrar, como a espada curva do último golpe, a que deve atingir o coração do animal. As dobras do pano escondem a lâmina, o tecido vermelho através do qual o touro passa, iludido e sangrando, ao comando do toureiro. A cada investida mais próximo o touro se encontra do fim. Levado à morte pelo esforço não do toureiro, mas por sua própria natureza violenta, é como se ele lutasse contra si. A dança pensativa entre toureiro e touro é um jogo de adivinhação, pensei. Semiótica de signos mortais dentro da qual o touro é, desde o início, o analfabeto do espetáculo. Já com o touro cansado, o toureiro deixa o pano atrás de si e se estica todo, bufando com uma careta meio cômica no rosto infantil. Apenas por sua força de espírito, parece ter domado, enfim, aquela meia tonelada de fúria exausta. O touro então avança. O desespero é nítido. Outros toureiros correm com tecidos imensos, coloridos como fantasias de carnaval. A roupa de Andres se rasga. Martirizado na borda da arena pelas cabeçadas do animal, ele se livra pela estatura de criança. A cabeça do touro não o atinge diretamente pela curvatura dos chifres. Andres esgueira-se pela abertura lateral da arena e, mortalmente pálido, se recupera. Bebe água num copinho de prata. Os olhos estão fundos como os de um ressuscitado após uma parada cardíaca. Volta à arena logo depois e, mancando, em mais uma ou duas rodadas de dança, ataca como um escorpião ferido o touro, que estremece e cai, olhos revirando brancos. A parelha de cavalos vem com berloques e sinos e arrasta o corpo do animal pela arena. Os círculos deixam faixas de sangue sobre a areia. Em algum momento, Andres diz: “ele me poupou”.
Pensando nessa frase ambígua, cínica, resvalei no carrinho de um cara. Bastante acima do peso, ele ninava um exemplar gigante de whey, que rolava solitário como um bebê segurando os pezinhos no berço. Ele não reparou em mim nem no encontrão. Seguia pensativo, absorto, fascinado. Tinha olhos fixos e expressão tensa. Diminuiu na área de doces caseiros e parou nos chocolates. Imóvel diante dos prazeres ultraprocessados, dominado por lembranças recentes, ele pegou um pacote de bombons nas mãos e ficou ali, ouvindo o leve crepitar laminado de uma embalagem tão pornograficamente fácil de abrir que um macaco não teria do que reclamar. Ainda assim, complexos cálculos existenciais atravessaram seu rosto. Parte substantiva da equação dos possíveis em meio às angústias calóricas resultavam em futuros insondáveis que, se multiplicando diante dele, iam desde o infarto dali a dez anos até o sonoro “não” ao convite para sair com uma tal de Rebeca em — quem sabe — dez meses. Mas o que eram dez anos ou dez meses comparados à insinuação do imediato, a dádiva do prazer evolutivo inscrito no milagre energético de gorduras, emulsificantes e dopaminas caramelizadas? Como Baudelaire sobre os efeitos do haxixe, ele deve ter se perguntado quantas coisas mais prejudiciais ao peso ou à aparência ele não aguentava, todos os dias há décadas, por recompensa muito menor que essa explosão de sabor crocante…
Por medo de parecer um stalker, rumei ao açougue antes que ele tomasse a decisão. Perdi o homem de vista e fiquei aguardando o açougueiro, que cortava uma grande peça de carne, semelhante a uma harpa sangrenta ou uma asa carnal de anjo. Nos fundos do açougue, ele arrancava rebarbas brancas e jogava no lixo já bem cheio. Concentrado, não reparou em mim. O que mais se encontra sobre a tourada, pensei, são textos denunciando a violência gratuita: tradição bárbara que, junto a outras volutas cruéis da imaginação humana, ilimitado no assunto tortura, mereceria lugar de destaque no museu da vergonha. Cinco anos atrás visitei um desses museus da tortura em Amsterdã. No início, achei as expressões agonizantes dos bonecos semelhantes a de desenhos animados e por isso ri. Dias depois, fui ver as fotos que tinha tirado e me deparei com um dos rostos, versão p&b. Nas curvas das sombras preenchendo sulcos de plástico a imagem de uma máscara sorridente se formou. Tive crises de insônia por semanas. A lógica é nítida e não há nenhum grande mistério no argumento do fim das touradas. O outro lado, porém, é mais complicado. Francis Wolff, professor emérito e comentador dos gregos, defende as touradas tanto de um ponto de vista estético quanto — talvez — ético. Chegou a publicar um título meio cômico: uma filosofia das corridas de touro. Pensei que teria de colocá-lo no texto pois causaria certa impressão. Mas como teria de lê-lo certinho — e não saberia o que fazer com palavras tão grandes quanto “herói”, “tragédia” e “destino” — deixei quieto.
Melhor esquecer o ensaio, pensei tentando atrair o açougueiro, concentrado em quebrar com um martelo de metal um osso. Primeiro eu deveria achar algo do assunto, não? Se fosse sincero mesmo, sincero como deveria ser num ensaio desse tipo, eu deveria dizer que não achava nada, talvez nada de diferente dos demais, o que equivalia, claro, a nada: era bárbaro e fascinante. Jullien dizia que a literatura é fascinante porque dá a pensar. Não é possível ser fascinante sem nada dar a pensar, como uma bijuteria para um avestruz ou uma tourada a entreter dezenas de milhares de pessoas? Diferenciando-se da filosofia, máquina lógico-discursiva, a literatura tem o vazio no coração, pensatividade indeterminada, imersão no afundamento. A tourada também dá a pensar, pensei, talvez até como um bom texto literário. Dois fósseis que sobrevivem apesar de tudo? Religiões laicas para quem ainda acredita nessas coisas? Da escrita ao estilo e deste à espada… Haveria semelhança? O egocentrismo inseguro do toureiro, o Ritz e os eventos literários. Os detalhes anacrônicos da roupa contra celulares e câmeras e toureiros numa van. Eras temporais sobrepostas, homens e dinossauros, o abotoador de prata, os bordados, o escalpo do cérebro, a foto para o insta… No mesmo momento, ainda meio perdido nessas ideias, senti uma tristeza pairando como nuvem que não faz sombra nem chove ao amanhecer, mau-humor inofensivo aguardando a neutralidade satisfeita da manhã, e fui acordado pelo açougueiro afiando impacientemente a faca enquanto aguardava o pedido.
Carregando o saquinho de cadáver moído, não encontrei mais o cara. Passei e peguei os bombons. O toureiro não dança com o touro, ele o mimetiza, o trai. O fascínio na dança solitária é o do pensamento revelado traição, astúcia racional da qual depende um Ulisses. É a astúcia que o fez sobreviver, ainda que ao custo da cegueira, a do ciclope-touro. Um caminho para seguir: mais ou menos como faz a literatura, o toureiro esconde seus métodos, seus truques, e não apenas ao touro, mas à plateia que o julga — e a revelação do truque é a sobrevivência do truque. Complexa lógica estética envolvendo leituras de signos, ilusão e traição. Mas como ir além do óbvio? Já na parte de bebidas rumo aos caixas, pensava no pequeno Andres, que se salva, apesar do narcisismo, pelo efeito de profundidade sob o rosto, o efeito pensativo, quando vi, logo à frente, uma loira na mesma posição do cara. Com terninho e maquiagem burocrática, ela lutava contra sentimentos contraditórios Atraída pelo alívio excitado das garrafas de vinhos em rótulos tradicionais ou minimalistas, o gênio íntimo da bebida lhe prometia milagres ácidos ou gasosos, mínima amnésia no cansaço administrativo do dia. Rendeu-se ao tinto espanhol, o pegou nas mãos e sorriu meio triste antes de, resistindo, devolvê-lo. Subiu os olhos e, decidida, percorreu com dedos ágeis brinquedos mais emocionantes no parque de diversões da vida adulta: vodcas e gins. Pegou uma garrafa de cada e seus olhos brilharam como os de uma criança.
Não havia se decidido quando continuei em frente passando por um casal idoso. Eles escolhiam austeramente legumes e verduras. Terminaram e foram com as sacolinhas ao caixa preferencial. A religião sempre passou pela comida, e a literatura sempre foi uma forma cética de religião que desvela religiões, pensei, sentindo que algo de mais fundamental me escapava de novo. Dei então mais uma volta pelo supermercado. A literatura como forma estranha de tourada espiritual, mas sem touro. É estranho mas profundamente natural que tudo acabe no supermercado ou volte para ele: último templo do medo superado. Apesar de ser segunda-feira, peguei o tinto espanhol. Fui em direção aos caixas sabendo que deixaria quieto isso do ensaio. Inventaria uma desculpa para o Frederico. Se fosse escrever algo um dia, começaria dizendo que o fascínio da literatura, assim como o das touradas, talvez venha da distância entre o vidente e o visto, ou apenas da distância, o seu fato. Não a dialética entre traidor e traído: sua assimetria. Imagem sempre atual do verdadeiro leitor, que tudo compreende, a decifrar, ao passo que mata ou imobiliza, o monstro imerso nas cores de um mundo inenarrável, seja ele o touro, a plateia ou, quem sabe, o próprio toureiro.
Como afirmar essas coisas? Como fazer de uma coleção de impressões algo mais do que um amontoado de percepções?
A imagem do toureiro revela a típica mitificação com a qual o escritor e a literatura desde há muito sobrevivem, mas a questão é outra e muito mais séria. Não seria a literatura algo bárbaro que deveria acabar; algo ultrapassado e cruel, como as touradas, em que personagens saltam sobre trilhos, matam a machadadas ou tomam arsênico seguindo os caprichos de um toureiro de escritório? Tudo isso começava a parecer retórico demais, embora a antiga participação na fome abstrata, o jogo mortal do sacrifício, a lógica mais geral dos signos literários, o caráter pensativo próprio à suspensão extática antes somente religiosa continuassem. No caso do toureiro, havia ainda risco, diferentemente do escritor. Andres Roca Rey, li ao procurar sobre ele depois do documentário, ficara na UTI pelo ataque de um touro, que abriu trinta e cinco centímetros da sua coxa. Mas o último toureiro a morrer na Espanha, em abril de 2026, foi Ricardo Ortiz. O touro o atacou no curral da Plaza de toros La Malagueta. Nos bastidores, em silêncio. O supermercado no lugar do templo significaria abandonar os mundos do mundo voltando à terra, único mundo. O que fazer com literaturas e touradas, toureiros e escritores? No centro da literatura nada há exceto o enigma do discreto, um elogio velado ao touro…
Peguei as tâmaras, os bombons, e quando já estava passando o vinho e a carne moída, conformado com o fracasso, me lembrei dos chicletes. Peguei uns dez de uma marca e sabor que adoro nos expositores ao lado dos caixas. Distraído, mal percebi quando alguém falou comigo:
“Esfriou, não?”
Ainda pensando nessas coisas futilmente complicadas, demorei um tempo para entender quem era.
A moça do caixa me olhava sorrindo e repetiu a pergunta:
“Para mim está muito frio, sou do Maranhão. E para você?”
Pego desprevenido por jamais esperar uma pergunta diferente de “mais alguma coisa?” ou “o senhor tem o cartão do clube?” ou “qual a forma de pagamento?” eu disse de forma totalmente impensada que “sim, esfriou muito, muito mesmo”, sendo que os termômetros marcavam, no máximo, uns dezessete graus.
Ela continuou a sorrir percebendo a minha falta de jeito e, ao passar o vinho, comentou:
“Bom mesmo tomar um vinhozinho com esse frio. E com uma macarronada, certo?”, ela disse, passando, agora, a carne moída.
“Também gosto”, completou antes que eu a respondesse.
“Sim, isso mesmo”, respondi tentando parecer simpático, como se encontrasse um detergente camuflado na horizontal em meio às bolachas recheadas.
“E parou de fumar, né? Coisa boa”, ela disse, sorrindo ao passar, um a um, os meus chicletes.