quarta-feira, 29 de julho de 2026 |
REVISTA LUME • JORNALISMO EDITORIAL
ENSAIOS

O prefixo “hiper” e o “problema na paisagem urbana”

O ensaio escreve (e descreve) uma busca.Ao contrário do tratado, no ensaio se delineia mais um movimento do que um objetivo alcançado.

Há algum tempo, escrevi um ensaio sobre o ensaio, no qual defendia que a essência desse gênero não reside no “e” que conecta dois temas como afirma o escritor argentino César Aira 2 — por exemplo: O muro e os livros ou As palavras e as coisas —, mas sim no “+” (mais). Em um vídeo do Instagram, um jovem explica a diferença entre “e” e “+”: “O sinal de mais significa ‘parcela + parcela = (é igual a) soma’”, diz ele. E continua: “Isso + aquilo, resulta em ALGO DIFERENTE, há uma TRANSFORMAÇÃO. O ‘e’, por outro lado, significa: Pessoa A e Pessoa B fazem algo juntas. Ou seja, elas NÃO SE MISTURAM, elas permanecem como PARTES SEPARADAS. O ‘sinal de mais’ é ‘isso + aquilo + aquilo’ resulta em OUTRA COISA, tipo quando se mistura ovos e farinha e dá: uma maçaroca.” O ensaio, afirmei na época, é essa maçaroca. E o “+” (mais) é o elemento aglutinante, por assim dizer, o amido de milho ou de batata, que mistura os argumentos para formar algo novo, que não precisa necessariamente ser uma massa de verdade e talvez nem tenha um gosto bom.

Oswaldo de Andrade

Partindo daí, eu diria que, também a cidade, assim como o ensaio, representa, nesse sentido, uma maçaroca, e a convivência urbana dos diferentes seria o “+”. Mas antes de explicar e aprofundar essa ideia, permitam-me abrir parênteses para uma curiosidade linguística: embora
tenhamos em português um vocábulo exato, não costumamos chamar o amido pelo que ele é, mas sim de Maizena, ou seja, o nome da marca. Leio que, na linguística, esse fenômeno é chamado de antonomásia comercial e funciona como uma compressão: produtos com a mesma característica são agrupados sob o nome a marca. É mais ou menos como se bombril funcionasse como um hipertexto para todos as palhas de aço ou Band Aid para todos os curativos. Fecho parênteses.

Segundo Beatriz Sarlo, compatriota e colega do já mencionado César Aira, o ensaio é muito mais do que aquele “e” entre os dois temas. Cito: “O ensaio escreve (e descreve) uma busca.Ao contrário do tratado, no ensaio se delineia mais um movimento do que um objetivo alcançado. Esse movimento se desenvolve em diversas direções, é exploratório e muitas vezes incerto… Ao conectar ideias opostas e incompatíveis, saltando conexões lógicas e linhas de raciocínio, o ensaio é um sistema de desvios: um mundo de possibilidades” 3 . Além disso, ela afirma logo a seguir, “um dos principais recursos do ensaio é a hipercondensação”.

Hipertexto, hipercondensação. Percebo que o prefixo “hiper” vai, aos poucos, se misturando aos ingredientes do nosso bolo. Proponho que sigamos esse rastro: “Hiper” tem origem no grego antigo e significa “excessivo”, “desmedido”, “que ultrapassa o limite saudável ou normal”.

Byung-Chul Han

Em seu livro Hiperculturalidade 4 , o filósofo e ensaísta alemão-sul-coreano Byung-Chul Han faz referência ao conceito de hipertexto para descrever a ideia de hipercultura. Ele formula o seguinte: “O hipertexto promete uma liberdade de restrições. [Ted] Nelson 5 imagina o universo hipertextual como uma rede sem centro, na qual ocorre uma espécie de casamento em massa.” Como prova, Han cita o conceito de “structangle”, forjado por Nelson – uma fusão de “structure” (estrutura) e “tangle” (emaranhado ou nó): “Uma estrutura de ideias não- sequencial; um sistema entrelaçado de ideias”.

O casamento em massa e o “structangle” referidos por Han são como a maçaroca do ensaio – e da cidade. E, com seu elemento aglutinante inerente a tudo o que é urbano, a cidade não é apenas um recipiente para as culturas individuais, mas as funde em algo diferente, algo novo,
como a maizena faz com os ovos e a farinha. E é exatamente nisso que reside sua força, mas também sua fraqueza. Pois é bem possível que, embora alguns ingredientes consigam manter suas características próprias, no bolo urbano, os diferentes aromas culturais se fundam num panorama complexo e – para certas pessoas – problemático, e que pode até mesmo gerar medo. Ou, para continuar com as palavras de Han: “A hipercultura sem centro, sem Deus, sem lugar continuará a suscitar resistências. Para muitos, ela leva ao trauma da perda.”

.

Cesar Aira

Quando algo ou alguém muda, a imagem que tínhamos desse algo ou dessa pessoa morre. Pode então acontecer de termos a sensação de que esse algo ou essa pessoa também morreu. Consequentemente, entramos em luto, embora nenhuma morte real tenha ocorrido. Esse pensamento me ocorreu quando o filho da minha amiga afirmou que não era um filho, mas
sim uma filha (ou seja, é uma pessoa trans), e de repente, muitos de nossos amigos ficaram preocupados com a minha amiga. Eles acreditavam que ela precisava passar por um luto. Ela, porém, estava totalmente à vontade com a ideia, pois percebia que sua criança havia mudado, mas continuava vivíssima e sendo, como sempre, uma pessoa inteligente, irritante, eloquente e calada, solidária e egoísta, ou seja, cheia de ambivalências, como qualquer ser humano saudável.

A escrita urbana enquanto hipertexto, ou seja, Maizena, pode significar uma perda porque o conceito do “mais” (+) como mistura de culturas provoca uma mudança tão forte que é percebida como morte, como o sentimento que minha amiga, segundo nossos amigos, deveria experimentar em relação à filha. A mudança, porém, enquanto “mais” (+), não é sinônimo de morte, mesmo que algo entre no negativo (-).

Mais adiante no livro, Han se contradiz. No capítulo “Hifenização da Cultura”, ele afirma que o elemento hipercultural corresponderia à “contiguidade dos diferentes” e seria determinado “não pelo ‘ou isto ou aquilo’, mas pelo ‘tanto isto quanto aquilo’” (grifos meus). Porém, tanto a ideia de contiguidade quanto o binarismo do “tanto… quanto” não correspondem, na minha opinião, à interpenetração sugerida pelo structangle hipertextual. A contiguidade não soma, mas leva apenas a uma coexistência – ela é o “e” do César Aira, não o “+”. Não é Maizena, não é cidade. Pois, como vimos, as culturas individuais perdem seu caráter de farinha e ovos em favor da maçaroca no hipertexto urbano. Daí o medo da perda, daí o luto. Por esse motivo, torna-se ainda mais importante distinguir o “+” do “e” e aproveitar sua potência transformadora em vez de lutar contra as mudanças – que, de qualquer forma, são irreversíveis. Em outras palavras: podemos provar do bolo, em vez de nos recusarmos a
comê-lo.

E, por falar em comer, na verdade, nada disso é novo: já em 1928, Oswald de Andrade defendeu o “canibalismo cultural” em seu “Manifesto Antropofágico”. Relembrando: nele, Oswald afirma que as influências estrangeiras deveriam ser “devoradas”, digeridas e transformadas em algo próprio. A imagem do canibalismo refere-se, nesse contexto, às práticas rituais de alguns povos indígenas do Brasil, nas quais o inimigo é devorado para se apropriar de sua força – não como um ato de fome, mas como incorporação e transformação do próprio. “As rotas do canibal”, escreve Melanie Strasser em um ensaio, “… traçam uma cartografia: sair de si mesmo, atravessar o Outro, ao mesmo tempo em que se permite que este
Outro nos atravesse, até que, finalmente, com toda a diferença que esse Outro inscreve no Eu, a própria pessoa se torne um Outro” 6 .

Mas: será que estamos preparados para esse processo de absorção, decomposição e recomposição – inclusive de nós mesmos?

Recentemente, estive no Museu de Arte Contemporânea de Berlim, o Hamburger Bahnhof, visitando a exposição “We Make Years Out of Hours” (Extraímos anos de horas – uma alusão à Arte como hipercondensação de longos processos históricos (interpretação minha)), da artista lituana Lina Lapelytė. Para este trabalho, ela despejou 400 mil blocos de madeira (10 x 10 x 10 cm) no salão histórico e deixa que sejam transformados em esculturas pelas mãos de performers e visitantes. Há também um coral ao vivo que alterna entre cantos festivos e melancólicos. Os blocos de madeira são continuamente empilhados e derrubados, estruturas surgem e desaparecem, construções desmoronam – e o som dessas “implosões” ecoa nas paredes, misturando-se aos cantos. Para que cada nova forma possa surgir, outra precisa desaparecer. Tudo muda constantemente. Trata-se aqui do “+” em plena ação. Quando se está do lado de fora da exposição, o espaço parece um campo de escombros. Porém, ao se dirigir para dentro do trabalho, a pessoa visitante é imediatamente contagiada pela alegria e pela euforia construtora ao redor. Tudo o que se quer é só brincar junto, permitir que a criança
dentro de si construa algo novo a partir das ruínas. Um clima de renovação paira no ar. Uma sensação de liberdade. No entanto, a própria Lapelytė adverte no texto do catálogo: “A obra levanta questões sobre o que permanece e o que se vai. E questiona igualmente quem decide o que será construído, o que deve ser removido e quais vidas arcam com o fardo dessas
mudanças.”

Essa questão me parece essencial, já que o fator determinante para a nossa aceitação ou não- aceitação de qualquer mudança é, por um lado, se a compreendemos (se assimilamos suas causas e sua necessidade), e, por outro, se ela ocorre por vontade própria ou nos é imposta por uma entidade ou força externa.

___

1 Durante uma coletiva de imprensa em outubro de 2025, o chanceler federal alemão Friedrich Merz enfatizou
que, embora o governo tenha reduzido a taxa de refugiados, o “problema na paisagem urbana” [sic!] persistiria e
tornaria necessárias repatriações sistemáticas. Com a expressão “problema na paisagem urbana”, ele estava se
referindo à forte presença de um fenótipo associado a imigrantes nas cidades alemãs – seja pela cor da pele,
traços étnicos ou uso de símbolos religiosos. Este ensaio não deve ser visto como uma resposta a esta declaração
nem como uma tese sobre o tema, mas sim como uma reflexão espontânea ou uma coletânea de impulsos – bem
no espírito da definição de ensaio de Beatriz Sarlo (que inclusive cito neste texto): um convite para que os
leitores, a partir daí, continuem a reflexão, discordem ou concordem, e tirem suas próprias conclusões.

2 AIRA, César. El ensayo y su tema. BOLETIN / 9 del Centro de Estudios de Teoria y Critica Literaria, Facultad
de Humanidades y Artes, Universidad Nacional de Rosario, 2001.

3 SARLO, Beatriz. Las dos torres. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2024. Tradução livre do espanhol por
Carla Bessa.

4 HAN, Byung-Chul. Hyperkulturalität – Kultur und Globalisierung. Merve Verlag Berlin, 2005. Tradução do
alemão por Carla Bessa.

5 [Inventor do hipertexto]

6 STRASSER, Melanie. Kannibalisches Übersetzen, oder Zur Poetik der Einverleibung, in: Toledo Talks
{https://www.toledo-programm.de/talks/5903/kannibalisches-uebersetzen-oder-zur-poetik-der-einverleibung},
último acesso em 18/07/2026. Tradução do alemão por Carla Bessa.

100%