Em um ensaio de 1950, chamado “A Situação do Romance”, o escritor argentino Julio Cortázar coloca o romance como “a empresa de conquista verbal da realidade”. Se pensarmos no romance como forma literária – mais do que gênero literário –, voltamos a Georg Lukács que o define como “a epopeia da burguesia”, afinal esse tipo de literatura ascendeu junto com essa classe social, num mundo em construção em que era preciso se ensinar de alguma maneira como ser um individuo – outra categoria criada depois da Revolução Francesa.

Em seus romances, a inglesa (nascida no Canadá) Rachel Cusk busca na forma maneiras de estilhaçar o indivíduo como tal. Em uma entrevista à revista The New Yorker, em 2018, ela afirmou que não acredita que “personagens existam mais”. Podemos pensar que, em outras palavras, a literatura é um esforço de invenção categorial que busca uma nova maneira de construir pessoas dentro desse empreendimento literário que se vale da linguagem para elaborar a realidade.
Desfile, que acaba de ser lançado no Brasil, investiga condições de possibilidade de produção da arte no presente. Novamente, uma categoria em discussão desde que a arte é arte. Formalmente, a autora retoma sua trilogia que começou com Esboço (2014), e seguiu com Trânsito (2016) e concluída com Mérito (2018). Protagonizada por uma escritora chamada Faye, a série de romances rompe com a maneira tradicional de narrar ao colocar uma protagonista observadora.
O título Esboços não poderia ser mais acertado para inaugurar a trilogia. Nesse
romance, Faye viaja a Atenas, onde dará um curso de escrita criativa. Logo no avião,
ela conhece um sujeito com quem começa a conversar, e a história dele toma o centro
do palco. Depois, no curso, propriamente dito, são episódios contados a alunos e alunas
sobre si mesmos e mesmas que vão construindo uma narrativa maior do romance.

Cusk, artesã precisa e sagaz, indaga como fragmentos de histórias de vidas de pessoas são esboços de histórias maiores e mais complexas. Qualquer pedaço vale como uma narrativa. Como na pós-modernidade, uma narrativa-mestra não é mais capaz de dar conta de explicar o mundo, então, as micronarrativas se acumulam com um efeito que esvazia uma à outra. Conforme aponta o pensador estadunidense Fredric Jameson, em seu ensaio seminal sobre a pós-modernidade, ou o capitalismo tardio, como ele coloca, o tempo da contemporaneidade é um eterno presente, no qual passado, atualidade e futuro são todos a mesma coisa – somos incapazes de perceber uma possibilidade do novo no horizonte.
Em seus romances mais recentes, a partir de Esboço, Cusk tira vantagem dessa ideia, ao colocar narradores e narradoras como pessoas que constroem um presente contínuo. O realismo, como tal, é uma construção histórica, e, ao contrário dos heróis típicos do realismo do século XIX – pesando em figuras como Julien Sorel, de O Vermelho E O Negro, e o poeta Lucien de Rubempré, de As Ilusões Perdidas –, personagens do presente desconhecem verdades absolutas, e buscam em pequenas narrativas uma possibilidade, geralmente vã, de compreender o mundo em que vivem, no qual absolutamente tudo é uma mercadoria sem se dar ao mínimo trabalho de escamotear essa realidade.

Faye, por sua vez, é uma narradora como uma página em branco, ouvindo a pessoas contarem suas história, e dando-nos raro acesso às histórias dela mesma. Nesse sentido, a obra da autora se dá exatamente numa espécie de antirrealismo no qual, ela esfacela o pacto ficcional com seu leitor ou leitora. Sabemos (ou percebemos, ao menos) que as criações aqui pouco tem a ver com ilusão de forma – ou gênero, que seja – do romance tradicional, mesmo o contemporâneo, que conta com esse acordo com o público. Cusk nos lembra que está narrando uma ficção – mesmo que sua obra transite sobre um fio da palavra da moda: autoficção.
Mais do que o fluxo de consciência do modernismo de uma Virginia Woolf ou William Faulkner, o fluxo narrativo de Cusk é o dos saltos. Diferente daquele que surgiu no século XX, o do século XXI é não busca a fluidez do movimento de uma
ideia a outra, mesmo que desconectadas. Assim, em Desfile, mais do que pensamentos, são personagens que se sobrepõem. Diversos artistas masculinos efemininos, em contextos diferentes, são chamados de G., no livro – o que já acaba com a ideia personagem.
Aqui, Cusk radicaliza com as concepções formais da trilogia do Esboço. Quem é G.? Se nos outros livros as personagens mantinham uma identidade, nesse romance novo a fluidez de identidades espelha um mundo contemporâneo onde uma coisa é uma coisa e também outra coisa. G. é um artista que começa a pintar quadros de ponta cabeça. No começo, parecia que estavam penduradas do jeito errado. G. também é uma escultora, e, também, uma artista esquecida do século XIX, e, também, um artista contemporâneo negro, e, além disso, uma artista presa à realidade de um mundo doméstico do casamento e da maternidade, e, também, um cineasta.
Essas todas não são figuras excludentes, mas que se somam criando um vasto painel de possibilidades da produção artística – ou da impossibilidade, dados contextos sociais e históricos de cada personagem. Diante dessas várias identidades, daí o título Desfile, como se elas passassem diante de nós mostrando suas vidas e histórias numa parada que discute a relação da arte com a história e a sociedade.
O pintor contemporâneo renomado, o primeiro G., não é muito diferente do marido de Cusk, o arquiteto e pintor Siemon Scamell-Katz, definido pelo Courtauldian, que sediou uma exposição dele, como um “o pintor do pós-humano sublime”. Em uma entrevista publicada na The Paris Review, a escritora declarou que o caminho que está seguindo “é o de um tipo de escrita que quero que se aproxime muito mais das artes visuais.” Não apenas no sentido de ter as artes visuais como objeto, mas ela tinge a forma do romance das artes visuais, e em Desfile chega a um lugar curioso com isso.
Mais do que personagens – ou fragmentos de personagens, ou figuras humanas, que sejam –, no romance a percepção imagética deles e delas a partir das possibilidades de artes visuais – o cinema também é uma questão aqui. O último G., no capítulo chamado O Espião, é um cineasta cuja narração, logo de cara, estabelece um paralelo com O Estrangeiro, de Albert Camus. “Não faz muito tempo, nossa mãe morreu, ou o corpo dela morreu”, começa. Na página seguinte, cita nominalmente o romance francês, ao dizer que no dia do enterro fazia calor, “como no dia do enterro da mãe de Meursault, no começo de O Estrangeiro, de Camus.” Novamente, uma estratégia da pós-modernidade ao des-historizar o passado, tomando-o para si, e o reconfigurando.
O nome com o qual esse G. ficou conhecido, não é o nome real dele. A mudança foi exatamente para sua mãe não saber o que ele fazia – embora, diz o narrador, ela não tinha motivos para desaprovar. Seus filmes eram naturalistas e poéticos, mas ele não conseguiria os realizar com sob seu nome real, por isso manteve o pseudônimo.
Os diversos G.s transitam pelo mundo das artes de maneira bem ou não muito bem sucedida numa percepção que radicaliza ainda mais com o radicalismo de Cusk na trilogia. Às vezes, a forma se torna ainda mais rarefeita. O pintor negro, por exemplo, é um mistério, sabemos que pintou a fachada de uma catedral. As múltiplas identidades que buscam abranger várias possibilidades do presente. As artistas femininas precisam navegar – não diferentemente da própria autora – num universo marcado pelo patriarcado que, obviamente, sempre privilegiou artistas homens.
Se a questão central em Desfile é a relação entre arte e vida, o romance questiona, então, as perspectivas para as a artistas mulheres nesse mundo. Das ditas obrigações domésticas à libertação, são amarras que um homem desconhece, e pode exercer sua arte mais livremente. No filme A Ilha de Bergman, a cineasta francesa Mia Hansen- Løve (novamente, uma artista mulher) faz exatamente essa pergunta também. Sua protagonista é uma cineasta em crise, em tentando escrever um novo roteiro, e, também, tentando superar a sombra do marido famoso, com quem foi à ilha de Fårö.
Num jantar, “Aos 42 anos, Bergman tinha dirigido 25 filmes. Como você acha que ele teria feito isso, se também tivesse que trocar fraldas?”, diz uma senhora que o conheceu pessoalmente, interpretada pela jornalista sueca Kerstin Brunnberg, que faz parte do grupo de administradores da Fundação Bergman.
Tal qual o pintor que abre Desfile, Cusk vira o romance de cabeça para baixo, instaura o caos, e dá ao leitor ou à leitora o trabalho de reconstruir – decifrar, no entanto, talvez não seja o propósito aqui, até porquê não deve haver o que se decifrar.
“Gostaria de criar algo em que a marca da identidade fosse muito menos palpável. Estou quebrando a cabeça para descobrir como fazer isso”, disse na mesma entrevista na The Paris Review.
No ano passado, o romance ganhou o prêmio Goldsmith, conferido a livros de ficção que trazem novas possibilidades formais, e a presidente do júri, Abigail Shinn, professora da universidade Goldsmiths, em Londres, apontou na justificativa que “ao examinar a vida do artista e a composição do eu, Desfile, de Rachel Cusk, expõe o poder e as limitações de nossas outras versões de nós mesmos. Explorando os limites do formato do romance e desafiando convenções, esta é uma obra que redefine nossa compreensão do que é possível alcançar na narrativa longa.”
É curioso como Esboço é situado na Grécia, o país considerado o berço da Civilização Ocidental, e de onde vêm A Ilíada e A Odisseia, narrativas basais da literatura. Cusk questiona no que esses dois elementos se transformaram: a crise moral do século XXI e o romance pós-moderno. Assim, tantos nos outros dois livros da trilogia, quanto em Desfile, a escritora investiga aonde chegamos, mais do que como chegamos, e traça um painel do estado das coisas no presente. Não estranhamente, o romance mais recente meio que espelha a própria trajetória dela enquanto artista que começa próxima ao realismo, até se tornar quase que totalmente abstrata – do pintor em busca de criatividade que vira a tela de ponta cabeça ao cineasta autoral.
“Às vezes, o momento presente – a ponte para o futuro – enfraquece e quebra enquanto estamos nele. Então temos que construir novamente”, escreve o narrador ou a narradora de Desfile. E é isso, romance após romance, Cusk destrói o presente para, então, o construir novamente.