quarta-feira, 29 de julho de 2026 |
REVISTA LUME • JORNALISMO EDITORIAL
ENSAIOS

Consumo e Dejetos: o caso Patrice Moore

Nos idos do século XVIII, o conde de Saint-Simon escreveu que haveria um tempo em que, de modo a tornar científico o seu otimismo, o governo dos homens seria, eficientemente, substituído pela administração das coisas.

Uma característica acerca do modo como os antigos se relacionavam com os objetos era da seguinte ordem, a saber: de um inacabado processo de reificação, ou melhor, de usos que não se encerravam na mera utilidade material. Klismos grega (cadeira), armorium romano (armário), a arca medieval, cabinets italianas, buffets franceses, talheres e pratos venezianos, poltronas Savonarola, louças rocaille, alqúbba moçárabe, ouro e esgrafito; todos objetos que, sendo mais do que acessórios para a utilidade doméstica, sepultaram gerações, modismos e passadismos, pois que jamais envelheceram.

As “Acumulações” são a série de e assemblages mais famosa do artista franco-americano Arman (Armand Pierre Fernández).

Resistindo a ser coisa (res), o objeto pré-industrial era concebido como forma instrumental que, longe de ser exaltada na rapidez das trocas (como tudo o que decorre da industrialização), era estimado por seu valor; neste caso, não meramente utilitário. Se há um traço em tais objetos é este: há uma dobra (utilidade/qualidade) que, longe de encerrá-los na resolução de alguma praticidade ou necessidade elementar (como um acolchoado para dormir), projeta sobre aquele que o estima ou aprecia um certo estado de sensação/sentimento (Empfindung/ Gefühl), uma certa reação fisiológica que, face ao objetual, preserva-o como memória e impressão. A adição impressiva de valor a um objeto (para além da mera materialidade) não só o separa de sua vinculação prévia com a natureza, mas o eleva à condição de cápsula de memórias afetivas; no que faz com que a cama há pouco referida ganhe tanto a simbologia do móvel metafísico (Thomas Mann), como o sinal mágico da fidelidade (Gabriel Germain).

Diferentemente do utensílio (a coisa), que cumpre uma função elementar como receptáculo material para algum esforço muscular (escada para subir, alavanca para abrir, livro para ler), a cápsula impressiva é o objeto complexificado, um instrumento, ou melhor, um meio através do qual outros esforços são alocados, guardados e sublimados, de modo que – transcendendo a mera materialidade utensiliar – quando encapsulado, o objeto goza o status improvável da suprautilidade. Neste caso: a escada, a alavanca e o livro se tornam não coisas (francamente substituíveis e descartáveis), mas objetos; formas que, como unidades simbólicas, reclamam a própria autonomia de seus respectivos artífices, criadores e portadores.

Por certo, este traço do objeto pré-industrial revela a particularidade de algo que é cobiçado por seu caráter, simultaneamente, único e inestimável, e eis a referida suprautilidade que se nota, por exemplo, em qualquer objeto de um museu. Instrumentalizando aquele carvalho que, eventualmente assume a objetualidade de um navio de guerra (eram necessários sete mil carvalhos para este fim nos tempos de Napoleão, diga-se de passagem), a matéria-prima transubstancia-se como matéria- secunda, doravante objeto inestimável, e o que antes era um mero utensílio de guerra (uma coisa entre outras) se encima à altura de um acontecimento extraordinário; uma peça mnemônica portadora de propriedades que excedem as razões do contencioso. Hoje, passados alguns milênios, se lê toda uma civilização num simples e desgastado trirreme mediterrânico, quiçá, com uma riqueza de detalhes digna de outro alfabeto.

O Bibliotecário (1566), pintado pelo mestre maneirista italiano Giuseppe Arcimboldo.

O valor (com a consequente dobra: utilidade/qualidade) que se manifesta através de um objeto suprautilitário, desnuda subitamente toda a complexidade do trabalho humano, ou mais especificamente, o peso do labor culturae, que – quando preservado – revela e assume um verdadeiro fotograma da passagem humana pela História. Em tempos marcados pela seriação dos processos industriais e consequente conversão de insumos em bens descartáveis, a pergunta mais incômoda ressoa deste modo: se toda mudança técnica e tecnológica mobiliza a utilização de novas formas de energia, e estas, utensílios e instrumentos; coisas e objetos, quais artefatos têm sido produzidos nas últimas décadas que revelam a nossa passagem histórica? Se cada tempo demanda perspectivas técnicas superiores, capazes de estimular e reparar o consumo do que é produzido, qual é a particularidade dos serviços e bens oferecidos que, de maneira epocal, revela a especificidade genuinamente laborativa e cultural desse último século? Em outros termos: a marca desse período é a dejeção, a excreção, o dejectum.

Desde a esfera mais, imediatamente, primária até a intelectual (de meros utensílios domésticos a livros), se nota que a produção e consumismo desenfreados têm mobilizado à força a expulsão de coisas em uma seriação que, de modo mais simbólico, revela uma impossibilidade deglutiva ou digestiva, na qual o espaço interior já não abriga o que não pode digerir nem comportar. As ofertas, bens e serviços se multiplicam em uma torrente de funcionalidades extemporâneas e contraditórias que, dissimulando a satisfação de algum esforço muscular (cadeira para sentar, mesa para jantar, livro para ler), reclama à coisa um caráter compósito e miraculoso que esta não pode cumprir, de modo que subjaz a este reclame a hibridez utensiliar de algo como uma cadeira para sentar, jantar, ler e realizar-se; tudo, imediatamente, agora. No mesmo embalo compósito e igualmente mágico (à maneira de um elixir), um único objeto retém camadas de uma série de expectativas que transcendem a sua própria utilidade material.

O Bibliotecário (1566), pintado pelo mestre maneirista italiano Giuseppe Arcimboldo.

Nesse diapasão, as campanhas publicitárias já não vendem mais os seus produtos utensiliares e suas funções musculares (que no passado abria ao portador a possibilidade eventual da estima, da memória e da suprautilidade). A publicidade tem investido em uma cínica aposta que apela a um Jenseits der Sache; a um ‘além-da-coisa’ que, por ser apenas utensílio pareado com outros utensílios, não pode imprimir sobre as roupas, carros e sapatos que propagandeia e vende, o valor daquilo que não se pode vender, destarte: a forma capsular dos objetos que a memória preserva; aquela experiência única que, quando se obtém eventualmente na vida, quase sempre se apresenta (inesperada) sob o impacto irreplicável do artesanal. Como não pode encapsular a afecção desencadeada pela memória (como a simplicidade dos perfumes e brinquedos do passado), a publicidade e o mercado sobrecarregam os olhos e as prateleiras com coisas instantâneas, francamente, substituíveis por pares de semelhantes capazes de repô-las em colapso ou falha iminentes. Apostando nas demandas do presente, e, mais especificamente, no imperativo do: “compre mais para que se realize (!)”, a dejeção publicitária excreta preços como se fossem valores; frases feitas como verdades oraculares e coisas como se fossem homens, sem se importar se, pasteurizando-os, submete os últimos às custas dos primeiros.

II

Diferentemente da estima afetuosa e mnemônica para com os objetos artesanais, que, como cápsulas impressivas, preservavam um valor para além da eventualidade do preço, as coisas revendidas exaustivamente (em seriação consumista) não estimulam qualquer dose de colecionismo em razão de suas vulnerabilidades materiais e dejeções, com efeito, são feitas para a reposição serial do consumo. Quanto a isso, a própria etimologia revela a dimensão do fenômeno, afinal, em latim, a própria palavra deve a sua existência ao verbo “consumere”, cujo sentido aproximado é de absorção total daquilo que se toma, agarra ou se compra. Entretanto, à proporção que a coisa consumida se torna autônoma o bastante para adicionar camadas e camadas de desejos insaciáveis – imediatamente, repostos por outras coisas semelhantes – aquilo que se consome acaba por absorver o próprio consumidor.

Os antagônicos bens de Giffen e Veblen; o efeito manada de Irving Janis, todos estes fenômenos psicoeconômicos se atropelam à luz do dia, dando provas disso: em tempos de dejeção, tudo passa a ser regulado pela dose simultânea de excesso, reposição e descarte. Em razão disso, o antigo colecionismo cede, gradualmente, à prática desesperada dos acumuladores, cujos graus (a depender do nível de compulsão) cresce em espiral, desde a febre dos serviços de streaming (de quem paga, mas jamais assiste); passando pelo número de livros, redes sociais, contas e perfis no smartphone, até as roupas, sapatos, cirurgias plásticas, espelhos e parceiros que são trocados com o mesmo descompromisso com que os dejetos são evacuados. Acumulam-se sem que sejam sequer experienciados.

Se a marca destes tempos é a dejeção, ou mais especificamente, a subordinação às coisas que são expelidas pelo mercado sem a capacidade de ‘digestão’ correspondente, logo se pode concluir que um dos seus casos mais sintomáticos e elucidativos (quiçá, como marco histórico) se deu no Natal de 2003, em Nova York. Consta que, naquele ano, o nova-iorquino Patrice Moore precisou ser resgatado de seu apartamento por bombeiros, afinal passara dois dias (incomodando a vizinhança com sonoros pedidos de socorro) entre uma avalanche de livros, jornais, papéis, contas, caixotes de pizza, roupas, sapatos e revistas que acumulara obstinadamente por mais de uma década. Ouvindo-o murmurar, os vizinhos solicitaram a equipe de resgate que, de seu apartamento, viria a retirar cinquenta sacos de lixo. Se reportada, episodicamente, como uma incômoda, e não menos cristalina verdade sobre estes tempos em que coisas e dejetos se confundem, o caso Moore poderia ser compreendido neste tom aforismático: nada mais significativo, em termos históricos, que o período em que se nota a maior manifestação de riqueza material (com toda sorte de bens, consumismos e utensílios), tal se faça acompanhar da impossibilidade, eminentemente, humana de digeri-la.

Chega-se, neste ponto da caminhada histórica, a um panorama peculiar em que, sobrecarregadas desde suas embalagens (cheias de subliminares, expectativas inconscientes e publicidade), as coisas são descartadas com a mesma velocidade com que são produzidas, de modo que a obsolescência programada já não se torna sequer, conceitualmente, apropriada. Em vez dessa última, que implica a ideia de franca maturação de algo e certo caráter pré-definido como que no particípio passado (programada), tal panorama epocal encaminha-nos para uma espécie de ‘descartabilidade precoce’, ou seja, etapa da história em que só se deve estimar aquilo que – de modo esnobe e despreocupado – se pode descartar antes mesmo da satisfação e gozo eventuais, à maneira sintomática e exemplar de quem compra uma calça de grife com a finalidade iconoclasta de retalhá-la até que, desde seus rasgos e fissuras, se evidencie a despreocupação de quem (quando bem o desejar) pode adquirir centenas daquelas peças caras. Neste caso, não é inapropriado lembrar das calças deliberadamente rasgadas e caras da Balenciaga.

Como são tempos em que a hibridez utensiliar converte cada coisa num misto de mercadoria e elixir miraculoso, até mesmo um par de calças adiciona à sua confecção, a ideia nada verdadeira de que, ao adquiri-las, o sujeito leva consigo (como um bônus) não só uma peça de roupa, mas um propósito exclusivo de paulatina afirmação de si como uma identidade desejante; um estilo de vida que – para impedi-lo de recair no nível utensiliar do anonimato – só se afirma no consumo intermitente e consequente dejeção, ou seja, no instante em que prova para os demais o seu potencial para mover o ciclo da descartabilidade precoce. Por conseguinte, já que deseja apenas utensílios que pode francamente substituir (em flagrante desapego), o atual sujeito consumista receia tornar-se mais uma coisa entre tantas outras, de sorte que, antes de ser passado para trás pelas relações humanas ou pelas tendências da moda convencional, o seu receio apressa a simultaneidade do consumo e da dejeção. Estimula-se compulsivamente para descartar, e descarta precocemente para se estimular.

Avaliando-se bem o caso Moore, bem como a descartabilidade precoce dos últimos anos, se pode considerar que há – em outra esfera desse prisma psicoeconômico – o espelhamento desse fenômeno epocal em âmbito eminentemente intelectual, cuja consequência é a de tornar o platônico mundo das ideias, o exaustivo reino das abstrações em mercadoria; submetendo-os ao cinismo da hibridez utensiliar que, como dito anteriormente: “reclama à coisa um caráter miraculoso.” A dejeção de cursos online, consultorias e manuais de como lograr algum êxito em tempo recorde, provam bem isso. Colin Clark (economista britânico-australiano) propõe, por exemplo, abaixo dos setores primário, secundário e terciário da economia – um não menos decisivo, que,responsável pela propagação de informações, nomeia de ‘setor quaternário.’

Por certo, enquanto os setores respectivos lidam com: agricultura e pecuária, indústria e comércio (além de serviços), em outros termos: manufaturam e convertem insumos em bens materiais, o último se relaciona com a partilha de informações, doravante atividades intelectuais. Não sendo nem um bem nem um serviço em específico, o setor quaternário é aquele que, de modo privilegiado, organiza a concepção de todos os demais, dado o fato de que (por seu intermédio) as discussões mais etéreas (da ordem dos valores não-objetivos, como justiça, felicidade ou fraternidade) encetam o campo dos debates políticos e regulam (por força de lei) as atividades de qualquer um dos demais setores. Com certa preocupação se pode considerar que, se este último setor não vai bem, todos os demais o seguem ladeira abaixo, porquanto é do senso de organização das ideias (em caráter intelectual e legislativo) que se depreende a escala material das prioridades do primeiro ao terceiro setor. Por conseguinte, se os olhos do espírito não são apurados o suficiente para ordenar a marcha das demandas humanas, tudo mais se indetermina por ausência de conceituação e entendimento.

Se bem avaliado, o setor quaternário é aquele que, de modo sutil e quase imperceptível, ordena as ideias, problematiza-as, pondo-as em circulação no espaço público. Entretanto, e eis o calcanhar de Aquiles desses tempos, particularmente, confusos, qual seja: como as gerações que o ensejam como ‘way of life’, sobrepõem de modo catastrófico consumo à produção e gastos a investimentos (em uma espécie de ideal faraônico de vida sedentária, ainda que bem-sucedida) – impossibilitado de regular os demais setores, organizando-os intelectualmente com relativa isenção e espírito científico, o setor quaternário tende a duplicar todo o vedetismo que o próprio mercado utiliza para a seriação de seus produtos, de modo que a sua posição outrora flutuante, cede ao comprometimento fiduciário que dispensa à lógica utensiliar. Isto tem tornado e exigido do antigo educador, a postura de quem, entregue aos interesses difusos da maioria consumista, submete o seu ‘produto’ às leis da oferta e da procura.

Neste novo supermercado das ideias, o que é revendido tem o peso e o impacto nutricionais de uma sopa de letrinhas para quem, receoso de ficar desatualizado ou fora do circuito das atualidades, adquire tudo o que pode consumir entre uma refeição e outra, de modo que antigos conceitos (adquiríveis às custas de muito sacrifício) sofrem os dissabores da seriação e da pasteurização. Ameaçadas, a vida intelectual genuína, a educação, a formação do espírito (cada vez mais descredibilizadas, dada a demora e a lentidão para ver seus resultados), recuam e disputam espaço com um discurso hipnótico de quem, vendendo alguma fórmula mágica (em alguma rede social), adiciona aos seus conteúdos alguma etiqueta qualitativa de quem se esforça em trazer à terra, algum valor não-objetivo, vide os termos: amor e intelectualidade; inteligência e coragem; sabedoria e felicidade. Cursos com títulos não menos cínicos, também não fogem à regra, aliás: como ganhar dinheiro e ganhar amigos, como ler livros e ganhar dinheiro, como enriquecer sem trabalhar, como emagrecer dormindo. (…). Não por acaso, em razão da confusão desencadeada pela lógica utensiliar: de um mercado ávido por adestrar idiotas e convertê-los em clientes, o que antes era um braço da indústria do entretenimento e da cultura desportiva, o ‘coach’, o treinador, se torna o porta-voz de uma geração que se instrui à distância, tomando coisas como se fossem pessoas e condicionamento mental como se fosse ideias.

Nos idos do século XVIII, o conde de Saint-Simon escreveu que haveria um tempo em que, de modo a tornar científico o seu otimismo, o governo dos homens seria, eficientemente, substituído pela administração das coisas. Contrapondo-o, não sem certo pessimismo, creio que Saint-Simon intuiu como futuro os dias de hoje.

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