Em um trecho de seu Fragmentos de um discurso amoroso, o grande semiótico afetivo e fenomenólogo Barthes nos fala do erotismo como a experiência da fresta cintilante: não tenho o livro à mão, mas são as frestas da blusa, do punho que nos levam a adivinhar os pelos sob o brim, e imaginar o corpo como dom íntegro, entretanto picado de vazios auráticos pelos quais se infiltra o desejo; o erotismo é, assim, uma operação dialética de recíproca aura ou jogo de permutação fantasmática entre o oculto e o descoberto, entre o velado e o desvelado, entre o que se mostra e o que se recolhe sob a roupa; Equação a um desconhecido seria, de acordo com os compêndios acadêmicos, considerado um filme pornô tout court, mas para mim ele guarda descobertas da ordem do erótico, que a princípio se oporia frontalmente à pornografia, arte do ultra visível, do explícito: um se nutre do imaginário entreaberto do espectador, outro da excremencial nudez, que tudo furta porque tudo revela; em Equação, há lugar para a fresta igualmente, animada agora pela casualidade, entre epifânica e crapulosa, dos corpos que se entredevoram sem macular o corpo do Outro, sem deixar marcas: cabe ao olho humano do espectador, pelo buraco da fechadura do perverso que é uma câmera onívora de sedução- acessório que ontem Welles condenou à dilapidação quando não instrumento de poesia-, masturbar-se com os índex fenomenológicos deste grande banquete de jouissance.
Quando descobri este filme poético para onanistas dandies, em meados dos 2000 no emule, me dei conta de que ele utiliza como sistema sans merci aquilo que todo pornô desmente: a monotonia monocromática de Purgatório de seu 16 mm chamuscado de grisalha, emaciado; e não é para isto que nos servem os grandes filmes? Para dar um novo uso, eidos, leitura à vida de todos, dos mesmos gestos, para revelá-los numa primeira vez de Hermes, o anjo hermeneuta? Para transfigurar o mais do mesmo sem abandonar, pelo menos no cinema arte materialista, o mais do mesmo? Para mim sim; o pornô em geral promete a plenitude, a integridade, mas também a platitude do tédio mortal de um corpo integralmente dedicado à arte de gozar, um corpo infinito devotado à petite mort, em cujos estertores climáticos ele inscreve a sílaba de um alfabeto iniciático, a ser decifrado pelo espectador fulminado: o pornô não conhece os limites atrabiliários da finitude, de que a arte se alimenta como de um maná do céu; em Equação, pelo contrário: os gestos automáticos destes autômatos por vocação, sem arte e portanto sem transfiguração, adquire, pelo gestual estenográfico de sua violação pelo corpo do Outro, um estranho brilho fascinatório: aquele do olhar que inaugurou a arte clássica, o do lagarto basilisco que encantava as presas que se dedicava a devorar depois; o brilho encantatório do sujeito que se descobre objeto e, como dizia Arasse dos querubins melancólicos da Madona Sistina, olham com tristeza para nós porque sabem que vão morrer; Equação nos redescobre os gestos onanistas como Genet ontem os gestos do padre ao aspergir água benta sobre o corpo dourado do ostensório: por analogia ritualística da via mística, como todo poeta; quem não puder ver isso e só tiver olhos para o pau em riste é um tarado sem remissão, porque a perversão reside na cabeça de quem vê; Equação necessita da intercessão de atores e espectadores que celebrem na masturbação o lugar de eclosão fantasmática da subjetividade, de sua desaparição sagrada ( separada, segundo o léxico latino: separado do funcional e do eficiente, do prático inerte): para que serve o rastro desperdiçado do sêmen, agora que não mais se destina à procriação? para edificar uma obra.

Um valor de uso absoluto se revela ali, como o gato que brinca com o novelo no exemplo de Benjamim e a masturbação prisional no São Genet sartreano; é precisamente para isto que nasceram tantos filmes videntes: para nos mostrar, na clareira do Mesmo, finalmente o ente iluminado pelo Dâmocles do eterno, no instante ontem presciente de Kierkegaard: aquele que vive como quem goza insaciavelmente, sem antecipar os coups de dés que castrariam a essência do próprio jogo, que eterniza o presente de um ato puro que o acumplicia à atualidade metafísica de Deus, velho onanista demiúrgico; eis a clareira cinzenta, monocórdica e a acedia do filme de Savel: a clareira do desaparecimento iminente mas indeterminado dos corpos abduzidos pela jouissance, devorados pelo buraco sem fundo do Eros aliado de Thanatos, o que encanta e recobre com pátina lúgubre a tudo; a repetição, que é o coração da masturbação, é a estrutura de todo ente finito: quando próximos da morte retomamos a infância, para entender a História é preciso captar a repetição como moto perpétuo, a arte é repetição da vida diferida pela mediação encantatória; e sobretudo no cinema, arte do hic et nunc apofântico: eis-me aqui, e aqui imerso num êxtase saturado de spleen e sêmen, como nos advertem o découpage e montagem regulares, de humor ciclotímico, de linha de montagem para rapazes que gozam e depois desabam, desolados: Equação a um desconhecido rapta a repetição do gozo infinito do pornô agnóstico e lhe imprime uma diferença agonística que amortiza sua infinitude negra, alienada, enlevando-a para as alturas do outro mundo: agora, o grão da foto 16 mm, os ângulos que flertam sem endossar de todo com o expressionismo, a montagem taquigráfica servem a uma mística do corpo como templo da jouissance, e não seu fiel escravo; é com certeza esta parte maldita, agora angélica, do sexo como atividade de secreção do Absoluto, sem nenhuma correlação à funcionalidade, à eficiência do gozo como telos burocrático a ser atingido ( o filme narrativo convencional, portanto, com seus raccords diretivos e estrutura em partes contíguas, simétricas) que mais me fascina no filme: uma mais valia mortificante dos corpos exaustos de se consagrar ao Totalmente Outro, e que estes planos ao léu e ao vento de gênio digressivo, como ontem John Ford e hoje os melhores de Apichatpong, conjugam: tudo transita, em transe de transparência crispada pelo orgasmo iminente, em direção a seu próprio círculo de auto-consumação: a reta teleológica, diretiva, causalista das narrativas de sempre dão o lugar a uma virtuosa arte de descrição de estados de alma, mas agora absolutamente cooptados pelo soma do corpo que chora e geme, na iminência de sua dissolução: pode uma alma, entidade invisível e supra-visível, gozar assim, no adstringente presente da penetração? “ Os querubins olham para o ventre da Madona com tristeza porque sabem que Deus, agora encarnado num homem, vai morrer”; e Oliveira, demente e divino relido por Daney, em Francisca: “A alma é um vício”; Equação acredita que sim ( para mim, todo grande filme é antes de tudo questão de crença), que tudo é possível numa arte materialista, mesmo quando entrevisto ou sugerido pela fresta de um contracampo insidioso, que é o olho do cu do Espírito: Deus, a alma, o mundo nos espreitam igualmente pelo buraco da fechadura, mas isto da distância de seu habitat privilegiado: o fora de campo. Merleau Ponty dizia lindamente “Nós não temos um corpo; nós somos um corpo”: o continente x conteúdo essencialista substituído pela reconciliação ontológica; Equação a um desconhecido, Ordet, Vale Abraão, Dog star man são filmes que cavam e cavam até furar a superfície da bela aparência e estacar do outro lado, do lado da alma em uníssono com o corpo em êxtase, finalmente em Habemos ad Dominum libidinal e espiritual: a alma é um vício.



Falei mais acima em jogo, e esta é a metáfora que me interessa destacar como estruturante do filme; o verbo italiano giocare nos restitui a ludicidade onipresente, alternante embora ainda aqui, deste objeto que, como o Fort-da do bebê de Freud, vai para lá e para cá; primeiro temos este três quartos de perfil de um querubim de cabelos castanhos ao sol, com os pomos das maçãs salientes destacados pela foto ultra exposta; um corte no-lo restitui num plano americano, subitamente surpreendido pelo colega, enquanto urina na rua; Equação a um desconhecido, filme sobre o sublime, sabe que não vivemos mais sob a tutela do sublime de Longino, de Kant ou mesmo Proust: a tutela do recalque, da abdução das paixões somáticas em nome de um ideal que sempre frustrou a nossa fé e a nossa beleza com seu tarttufismo de boutique: a beleza clássica do querubim é indissociável do devir acidentado punk do filme, que o restitui à calçada e ao boquete que foi nosso desde os primeiros filmes de Kenneth Anger e Pier Paolo Pasolini: para lá e para cá; o cinema nasceu dos acidentes da existência capturadas pela câmera de eterna exposição ao sol, e para isto ainda no-la representa, no campo em que espera o rapaz, lindamente orgulhoso, ao sol; mas o desmascaramento que no-lo entrega como puto e vadio, provavelmente traficante de heroína e boqueteiro convicto, nos acena para a longa história das forças e das formas excremenciais que o cinema tardio precisou visitar para crescer, dos Fogos de artifício de Anger até o Canto de amor de Genet, Saló de Pasolini e o Soukaz de Maman que man!: “Eu quero Hollywood, mas sem a hipocrisia”, era o programa do Fassbinder maneirista, e Savel pode bem endossar esta proclamação neste filme que não foge ao sexo nem à retórica sobre o sexo, coisa que Equação não inaugura; pelo contrário: é um herdeiro, orgulhoso e feroz como o belo espécime de mármore maculado de sêmen que nos espreita em cada esquina, cada contracampo; mas o conhecimento da dívida não amortece o impacto destes planos de cristais em decomposição lenta e lancinante, ora depressivos e digressivos ora altivos e lapidares: o sêmen e a Ideia da jouissance; em 1980 já não éramos inocentes; pelo contrário: foi o acmé do leitmotif, empunhado pro Daney, Godard, Carax e Wenders, da morte do cinema e de todo o luto retrospectivo por um cinema Era uma vez, presença; é pela imundície destes devires que revelam todos os corpos neo-plotínicos de guerreiros castrados pela passividade de espadas com mais centímetros que Savel nos revoca a sua versão desencantada da auto-consciência, enlutada e demasiado sisuda ( castrada), que assombrava a produção e o pensamento sobre o cinema da época: não existem mais inocentes; os guerreiros de Plotino agora são habitués, mesmo que diletantes, do flipperana, da boca de cocaína e da posição do missionário, e para merecer o seu lugar ao sol da película superexposta necessitam se prostituir a cinco sous; Equação a um desconhecido , antes do divertido final oficial com os créditos em voz off manobrados por planos alvissareiros dos rapazes na bicicleta, antecipa a dêbacle de nossos sonhos sublimados numa grande orgia de suor, sêmen coagulado e gestos que se esvaem que me lembra outra orgia, desta vez de má consciência e secreto élan redentorista, a penúltima vampiresca de The addiction de Abel Ferrara: saturada de tanto horror demoníaco, Kathy prefere morrer para enfim, pacificada com o que sobrou de si mesma, ao ler o seu nome na lápide recuperar uma consciência de si que é, senão o índex da reconciliação faustiana, pelo menos a sua aspiração finita concretizada num destino de homens, mortal entre homens; Equação a um desconhecido goza junto a seus personagens, mas o spleen que prenuncia o fim do filme não possui a nota eudaimônica daqueles que cumpriram sua tarefa e descansam em paz, pós revolução sexual de 68: fica um ressaibo de tétrico, de trágico, de fatal que o filme nunca tentou nos furtar; é o ressaibo da alma, que reivindica seus direitos ao cabo da vida e da presença, precisamente nos créditos? Não vou tão longe, nem recuo: a alma é uma punheta para o Eterno que nunca terá fim.
