Acompanho o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de longe desta vez. Mais do que a oportunidade de ver filmes inéditos na tela do Cine Brasília, o meu prazer sempre foi o reencontro com os colegas de crítica de cinema e jornalistas que cobrem a área. É no café da manhã no restaurante do hotel onde ficam os convidados que tomamos pulso dos caminhos – do presente e do futuro – de nossa atividade, com o importante alicerce de quem está nesta lida há muitos anos.

Temos uma entidade forte e de extensão nacional, a Abraccine, com representação em praticamente todos os estados, mas num país de dimensão continental só vamos conhecer as muitas realidades quando estamos tête-à-tête, constatando que a crítica tem, seja qual lugar for, um papel fundamental dentro da cadeia cinematográfica do país. E não se trata só de divulgação na concorrida época do lançamento dos filmes; é o pensar o nosso cinema que a faz tão relevante.
Mas nem sempre isso é levado em conta quando falamos de políticas públicas ou incentivo ao setor. Fora uma ou outra iniciativa, a crítica é alijada do processo num instante de contínua perda de espaços dedicados à reflexão cinematográfica, como jornais, revistas, sites e blogs. Cada vez mais a produção americana domina não só as salas de exibição como os meios espontâneos de divulgação. Mas, quando é para engajar algum movimento pró-cinema nacional, lembram que a crítica existe.
No Brasil, criou-se esse fosso entre a crítica e a produção cinematográfica, sabe-se lá por qual razão. Historicamente, esses lados sempre estiveram fortemente entrelaçados, aqui e lá fora. Basta lembrar do pioneiro Adhemar Gonzaga, que, no fim da década de 1910, criou um clube de cinema ao lado de vários intelectuais e a revista “Cinearte”, lançada em 1923. Nestes espaços já defendia a produção nacional com unhas e dentes, antes de fundar a Cinédia, em 1930, que se tornou a primeira experiência exitosa de cinema industrial no país.
Podemos dizer, sem cair no exagero, que a crítica esteve na formação dos principais momentos da cinematografia brasileira. Nos tempos de Cinema Novo, na década de 1960, é importante lembrar o grande canal de interlocução entre os cineastas e a imprensa. Os realizadores faziam questão de colocar no papel as suas ideias. Maior expoente do movimento, Glauber Rocha atuou como crítico de cinema na Bahia enquanto dava seus primeiros passos por trás das câmeras.

O momento de efervescência do cinema brasileiro se repete agora, com as duas indicações consecutivas ao Oscar de melhor filme e produção em língua estrangeira – “Ainda Estou Aqui”, que levou a estatueta, em 2025, e “O Agente Secreto”, neste ano. Em comum com o Cinema Novo, o vínculo com a crítica de cinema. Walter Salles chegou a ter uma coluna no jornal “Folha de S.Paulo”, onde escreveu sobre obras de vários países. Com Kleber Mendonça Filho, o lado crítico foi predominante antes de virar diretor. No “Jornal do Commercio”, em Recife, teve uma produção escrita intensa e de muita qualidade.
Para um mineiro como eu, foi um prazer acompanhar o início da Filmes de Plástico, uma das produtoras mais importantes do país atualmente. Antes de se aventurarem em filmes primorosos como “Marte Um”, “Temporada”, “O Dia que Conheci”, “O Último Episódio” e “Vicentina Pede Desculpas”, Thiago Macêdo, Maurilio Martins, André Novais de Oliveira e Gabriel Martins exercitaram a crítica com o mesmo fervor com que investiram na realização, buscando sempre um olhar novo para o que chegava aos cinemas.

É inquestionável o quanto esse envolvimento com a reflexão cinematográfica moldou esses realizadores, desde Adhemar Gonzaga, levando a inquietação da escrita para as telas. Por isso, quando encontro meus colegas em festivais, especialmebte o de Brasília, em que o debate é parte de seu perfil, sempre faço questão de escutá-los com o mesmo prazer de quando vejo filmes. São obras cinematográficas feitas com o movimento das palavras.