sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

Doce Árido

Um mundo em ruínas
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A montagem de Doce Árido, atualmente em segunda temporada no Teatro Ipanema Rubens Corrêa, traz à tona os trabalhos realizados pela Cortejo Cia. de Teatro, fundada por Rodrigo Portella na cidade de Três Rios. Tairone Vale, autor e diretor desse novo espetáculo, integrou a Cortejo. E a atriz Pri Helena participou de montagem do grupo (Antes da Chuva). 

Parece haver um vínculo particular com Uma História Oficial, uma das encenações da Cortejo. Essa conexão se manifesta, em especial, por meio da criação visual. Parte da cenografia de Cris Bourgeaiseau – composta por pedaços degradados de portas e janelas, símbolos de um mundo em ruínas – lembra bastante a concebida, para Uma História Oficial, por Rodrigo, também diretor do espetáculo. 

Layla Paganini e Rebeca Figueiredo. Foto: Marcella Calixto.

Além disso, é possível traçar alguma ligação na instância da dramaturgia. Tairone assina os dois textos – o anterior, em parceria com Rodrigo, e Doce Árido, apresentado agora, mas gestado em 2013. Na primeira peça, a inspiração foi o realismo fantástico de escritores como Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa; nessa, Tairone segue, ainda que de forma diversa, no terreno da suspensão do real ao promover interações imaginárias entre personagens vivos e mortos e na abordagem da dinâmica entre opressores e oprimidos. 

O autor se debruça sobre as relações estabelecidas entre diferentes gerações de mulheres de uma família ao redor da confecção de doce de leite, atividade que garante o precário sustento econômico. Tairone centra o texto no embate entre mãe e filha, principalmente a partir do momento em que ambas precisam se dedicar à fabricação extra do doce. Enquanto a primeira sublinha, de maneira ríspida, a carga da responsabilidade – sinalizada pelo doce, cujas porções surgem elevadas no ar por meio de cordas vermelhas amarradas, não por acaso, a pesos – e frisa a necessidade de permanência, a segunda expressa o desejo de ir embora, de se libertar de uma realidade repetitiva e sem perspectivas. Uma oposição próxima, inclusive, daquela que norteou os personagens de Antes da Chuva, da Cortejo Cia. Para completar, há, em Doce Árido, a matriarca solidária e uma bebê, figuras envolvidas no entrelaçamento de planos temporais.

Através de suas personagens e do elemento do doce de leite, Tairone Vale destaca mais um conflito – entre produção artesanal e industrial. Na circunstância do texto, as personagens, acostumadas à feitura manual do doce, se comprometem com uma quantidade muito maior que a habitual e o resultado deve obedecer a determinadas exigências uniformizadoras. Cabe articular, em Doce Árido, esse contraste (artesanal/industrial) com a esfera artística. 

Layla Paganini. Foto: Marcella Calixto.

Por um lado, a montagem se afasta do específico ao evocar a identidade estética de um coletivo anterior (Cortejo Cia.). A sensação de se estar diante de um caminho já percorrido desponta ainda no campo da dramaturgia. Tairone investe numa revelação, no trecho final, que reconfigura os relacionamentos entre os personagens. Surpreende o público, mas, em contrapartida, o impacto soa como uma convenção, tendo em vista a frequência com que esse recurso é colocado em prática pelos dramaturgos. 

Por outro lado, Doce Árido se impõe como uma encenação mais personalizada do que padronizada. O cenário, apesar de trazer à memória o de Uma História Oficial, se projeta como proposição autônoma, realçando a situação ficcional assinalada no texto. No instante em que o confronto entre mãe e filha se acentua, a plataforma, por onde as personagens/atrizes transitam, perde a estabilidade e se torna uma espécie de gangorra. Os demais componentes da cena evidenciam cuidado no controle das gradações: os figurinos (de Bourgeaiseau) em tom neutro, as tonalidades da luz (iluminação de Nitay Krishna), a trilha sonora (de Laura Jannuzzi) bem dosada e distante do efeito da grandiloquência. 

Essa organicidade transparece no registro das atrizes, imersas nas condições dramáticas enfrentadas pelas personagens. Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini não atuam de modo demonstrativo, não buscam o descolamento das personagens. Ao contrário, procuram se amalgamar a elas, imprimindo veracidade ao texto, mesmo numa montagem em que a construção da cena fica à mostra do público, a julgar pela mudança no dispositivo cenográfico (a mencionada instabilidade do tablado) e por procedimentos, como a presença das atrizes nas laterais do palco, quando as personagens estão fora da ação.

Rebeca Figueiredo e Pri Helena. Foto: Marcella Calixto.

Doce Árido não nasce exatamente como iniciativa avulsa. Dá a impressão de representar uma continuidade do trabalho da Cortejo Cia. Mas o passado – indicado pela tradição do doce de leite e pelo universo da cidade pequena, configuração geográfica que diz respeito aos artistas de Doce Árido e remete, em algum grau, ao ambiente rural onde essa história se passa – não é retratado aqui unicamente pela via do afeto. Em que pese a existência de fortes laços emocionais entre as personagens, a amargura, o desencanto e a fragilidade psíquica imperam na convivência e preenchem o espaço. 

DOCE ÁRIDO – Texto e direção de Tairone Vale. Com Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini. Teatro Ipanema Rubens Corrêa (R. Prudente de Moraes, 824). De qui. a sáb., às 20h e dom., às 19h. Ingressos: R$ 60,00 e R$ 30,00 (meia-entrada). Temporada: de 3/9/2026 a 26/9/2026. 

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