O caráter assumidamente documental de Restinga de Canudos não se restringe à esfera do texto (organização dramatúrgica de Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante), que aborda do surgimento à dizimação do arraial de Canudos (Belo Monte), no sertão da Bahía. Também se manifesta no registro interpretativo dos atores da Cia. do Tijolo, que, mais do que transitarem entre as instâncias da narração e da composição de personagens, evidenciam suas vozes de cidadãos, o comprometimento com o discurso que enunciam em cena.

Essa característica não torna o espetáculo dirigido por Dinho Lima Flor, em cartaz no Sesc Copacabana (Arena), um rígido exemplar do teatro engajado. As presenças frequentes de professoras como personagens não fazem com que a montagem soe como uma aula, como uma explanação didática da saga de Canudos. A música (criações originais de Jonathan Silva, direção musical de William Guedes e da própria companhia) percorre a encenação como importante elemento dramatúrgico e o humor desponta na interação (na maior parte das vezes, não direta) com o público.
A natureza política de Restinga de Canudos é atravessada pelas jornadas artísticas distintas dos integrantes da Cia. do Tijolo. Alguns firmaram elo com o diretor argentino Ilo Krugli, fundador do grupo Teatro Ventoforte, lembrado pelo trabalho destinado à plateia infanto-juvenil e voltado para a manipulação de bonecos. Não são as vertentes desse espetáculo, mas talvez a conexão possa ser estabelecida por meio da sugestão de imagens através de materiais reduzidos, como os bambus, e de estímulos visuais – os desenhos (de Artur Mattar) dos moradores de Canudos, o sangue do massacre “obtido” com um líquido pingado sobre riscos de pilot vermelho – exibidos via retroprojetor. Essas soluções simples, realizadas diante da plateia, não esfriam a apreciação; ao contrário, seduzem pela concepção artesanal (cenário da Cia. do Tijolo e de Douglas Vendramini).
Além do Ventoforte, há ligação com a Cia. São Jorge de Variedades, um dos grupos mais representativos da cena política da década de 1990, em São Paulo, no que diz respeito à valorização dos excluídos, dos párias sociais. Mesmo nascida posteriormente, em 2008, a Tijolo tem vínculo com o contexto anterior. Sua perspectiva política, perceptível desde a escolha do nome (em referência ao educador Paulo Freire), se impõe, em Restinga de Canudos, na priorização dos personagens anônimos que não constam nas páginas da história oficial. Esse é o foco da montagem e, não por acaso, o elenco, em dados momentos, carrega lâmpadas, objeto literal no intuito de iluminar aqueles que sofreram com a brutalidade da violência e foram ocultados. A Tijolo dialoga com mais uma companhia marcante nos anos 1990: o Teatro Oficina, que, rebatizado de Uzyna Uzona, “ressurgiu” em 1991 e concretizou o monumental projeto de Os Sertões – transposição cênica do livro de Euclides da Cunha, que rendeu cinco espetáculos (A Terra, O Homem 1, O Homem 2, A Luta 1, A Luta 2) a partir do começo da década de 2000.

Apesar de centrada no povo, nos habitantes do arraial, o texto menciona figuras célebres (Patativa do Assaré, Machado de Assis) e destaca Euclides da Cunha. O julgamento de Euclides aos olhos de hoje, num certo tom inquisidor, é o trecho menos satisfatório do espetáculo, ainda que, no texto, o escritor se coloque como um homem do seu tempo, inevitavelmente submetido às limitações decorrentes da falta de distanciamento histórico, sem acesso às informações e ao processo de conscientização conquistados pelas gerações que vieram depois. Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante não deixam de exaltar a qualidade descritiva de Os Sertões, mas problematizam o posicionamento analítico, circunscrito à observação, de Euclides diante de Canudos, postura oposta à de Antonio Conselheiro, contraste sublinhado na cena do embate entre ambos. Como outros grupos de teatro, a Cia. do Tijolo não se manteve afastada. Buscou uma aproximação da realidade retratada, ao invés de tão-somente imaginá-la, no caso viajando até Canudos.
Na conjugação entre diferentes camadas de passado (o período de Canudos e fases anteriores) e o aqui/agora, a Cia. do Tijolo investe numa cena que não ambiciona a reconstituição do real, e sim a construção de uma teatralidade resultante de cenografia sintética, de incorporação da musicalidade como linguagem, de figurinos vibrantes (da Cia. do Tijolo e Silvana Marcondes), compostos por calças lisas e blusas estampadas, e de iluminação (da Cia. do Tijolo e Rafael Araújo) que, por meio das lâmpadas, realça o singelo. Cabe lamentar apenas o não aproveitamento da configuração espacial da arena.

De qualquer modo, a assinatura conjunta da companhia nas diversas criações da cena revela que o envolvimento de cada integrante transcende a presença como intérprete individualizado, comunhão que remete à experiência coletiva dos artistas do longevo grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, que se definem como atuadores. Mas é preciso dimensionar os trabalhos específicos dos atores da Tijolo – Dinho Lima Flor, Rodrigo Mecadante, Karen Menatti, Odília Nunes, Artur Mattar, Jaque da Silva, Danilo Nonato, João Bertolai, Marcos Coin, Dicinho Areias, Jonathan Silva, Juh Vieira, Vanessa Petroncari, Leandro Goulart, Lakis Farias e Silvia Adoue –, tendo em vista o domínio da palavra, do corpo e da música (instrumentos e vozes).
Montagem de uma companhia com trabalho continuado, Restinga de Canudos sobressai pelo uso expressivo dos elementos da cena.
RESTINGA DE CANUDOS – Texto de Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante. Direção de Dinho Lima Flor. Com Dinho Lima Flor, Rodrigo Mecadante, Karen Menatti, Odília Nunes, Artur Mattar, Jaque da Silva, Danilo Nonato, João Bertolai, Marcos Coin, Dicinho Areias, Jonathan Silva, Juh Vieira, Vanessa Petroncari, Leandro Goulart, Lakis Farias e Silvia Adoue. Teatro Sesc Copacabana/Arena (R. Domingos Ferreira, 160). Qui. e sex., às 20h, sáb. e dom., às 18h. Ingressos: R$ 40 (inteira); R$ 36 (conveniados); R$ 31 (conveniados/empresário); R$ 28 (credencial plena Sesc); R$ 20 (meia-entrada); gratuito para público PCG. Temporada: 20/8 a 13/9.